HAPPY Atendimento escolar hospitalar (Anais 1o ENSAEH)

Be Happy


 Atendimento Escolar Hospitalar

o trabalho pedagógico-educacional no ambiente hospitalar porque criança doente também estuda e aprende

 

Anais do 1º Encontro Nacional sobre esta temática realizado

entre 19 e 21 de julho de 2000 no

Teatro Noel Rosa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – RJ

 

O presente documento é dedicado à memória da querida

Professora Maria Therezinha de Carvalho Machado

que mesmo lutando corajosamente contra uma enfermidade grave não pode participar desde Encontro, vindo a falecer alguns dias após o mesmo mas deixando um significativo e honroso trabalho total e verdadeiramente voltado para as questões educacionais, em particular, àquelas relacionadas às necessidades educacionais especiais.

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Reitora Nilcéa Freire

Vice-Reitor Celso Pereira de Sá

Sub-Reitor de Extensão e Cultura André Luiz de Figueiredo Lázaro

Diretor do Centro de Educação e Humanidades Lincoln Tavares Silva

Coordenadora do Programa de Alfabetização, Documentação e Informação Anna Helena Moussatché

Supervisora do Projeto Apoio Educacional na Enfermaria Pediátrica do HUPE Eneida Simões da Fonseca

 

Coordenação Geral

Eneida Simões da Fonseca (UERJ e Classe Hospitalar Jesus-SME-RJ)

 

Comissão Organizadora

Alessandra de Santana Barros (UCB-DF)

Ana Rosa Lattanzi de Melo Lago (PROALFA-CEH-UERJ)

Anna Helena Moussatché (PROALFA-CEH-UERJ)

Carmem Adilia Simões da Fonseca (UNIGRANRIO e UNESA-RJ)

Carolina Horta de Araujo Judice (PROALFA-CEH-UERJ)

Cleverson Amaro da Fonseca Campista (PROALFA-CEH-UERJ)

Débora Cassimira Santa Cruz da Silva (PROALFA-CEH-UERJ)

Elaine de Souza Jorge (Assessora CEH-UERJ)

Elizabeth Leitão Ramos Luiz (Classe Hospitalar Jesus-SME-RJ)

Eneida Simões da Fonseca (PROALFA-UERJ e CH Jesus-SME-RJ)

Lincoln Tavares Silva (Diretor CEH-UERJ)

Maria de Fátima Cardoso Telles (Revista Integração-SEESP-MEC)

Maria Madalena Rocha de Oliveira (PROALFA-CEH-UERJ)

Rachel Perrone da Silva (Classe Hospitalar Jesus-SME-RJ)

Ricardo Burg Ceccim (UFRGS e ESP-RS)

 

Comissão Científica

Aidyl Macedo de Queiroz Pérez-Ramos (UNESP e USP-SP)

Benedita Maria do Rego Deudará Rodrigues (Enfermagem-UERJ)

Carlos dos Santos Silva (Programa de Saúde Escolar-SMS-RJ)

Eneida Simões da Fonseca (PROALFA-UERJ e CH Jesus-SME-RJ)

Helena de Oliveira (UNIG-RJ)

José Ferreira Belisário Filho (ABENEPI e CEC-UFMG)

Julio Groppa Aquino (USP-SP)

Liliana Hochman Weller (UFF e UPL-RJ)

Maria Therezinha de Carvalho Machado (PUC-RJ)

Ricardo Burg Ceccim (UFRGS e ESP-RS)

Swami Salgado Wanderley (Anatomia-UERJ)

 

Comissão Financeira

Jorge da Silva Lima (Classe Hospitalar Jesus-SME-RJ)

Luiz Carlos Carvalho da Cruz (Departamento Financeiro-UERJ)

Maria Madalena Rocha de Oliveira (PROALFA-CEH-UERJ)

 

Sumário

APRESENTAÇÃO

CERIMÔNIA DE ABERTURA

CONFERÊNCIAS

Inclusão e escola no ambiente hospitalar

A escuta pedagógica no ambiente hospitalar

MESAS-REDONDAS

Políticas públicas e classe hospitalar

O professor, o aluno, a diferença e a hospitalização

Classe Hospitalar Jesus: trajetória do Jubileu de Ouro (1950-2000)

Vivendo a escola no ambiente hospitalar

Construindo possibilidades entre o hospital e a escola

OFICINAS

Planejando, desenvolvendo e avaliando o trabalho na classe hospitalar

Brinquedo e brincadeiras no trabalho pedagógico com bebês

O jornal na sala de aula

PALESTRAS

Produzindo referências em Educação Especial

Classes hospitalares: onde, quantas e por quê?

Educação Infantil e hospitalização

COMUNICAÇÕES ORAIS

Formação do professor e classe hospitalar

Acompanhamento escolar intra-hospitalar

Teia do conhecimento

Classe hospitalar: mudanças na concepção de profissionais de saúde após implantação de um serviço de atendimento escolar

Poesia no hospital: o texto poético no atendimento educacional de crianças hospitalizadas

Contos e encontros na enfermaria

Projeto Arte Despertar nos hospitais

Educação em ambiente hospitalar: o mito da descontinuidade

O câncer infantil e a aprendizagem: uma proposta psicopedagógica de intervenção

Adolescentes e jovens no Hospital de Reabilitação: a necessidade da abordagem educacional e vocacional

Atenção psicossocial e educacional à criança portadora de deformidade craniofacial em uma classe hospitalar

Acompanhamento pedagógico às crianças internadas nas enfermarias de pediatria do Hospital Universitário de Juiz de Fora

Dez anos do programa de apoio pedagógico hospitalar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre: marcas do processo histórico

A educação além dos muros da Escola

Pedagogia Hospitalar

RESUMO DE PÔSTERES

Escola Especializada Schwester Heine – SP

Atendimento escolar hospitalar da Santa Casa de Campo Grande – MS

Classe Hospitalar Jesus – RJ

Classe Hospitalar em Marília – SP

Classe Hospitalar Lagoa – RJ

Atendimento escolar do Hospital Infantil Albert Sabin – CE

Classe Hospitalar B-A-BA do Hospital Universitário de Campo Grande - MS

Classe Hospitalar do Instituto Nacional do Câncer – RJ

Programa de apoio pedagógico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre - RS

Classe Hospitalar Domingos. A. Boldrini – SP

Classe Hospitalar São Zacarias – RJ

Atendimento Pedagógico Hospital Sarah Belo Horizonte – MG

O pedagogo no Hospital Universitário Antônio Pedro – RJ

Classe Hospitalar Bonsucesso – RJ

Classe Hospitalar Jacarepaguá – RJ

Apoio educacional do Hospital Universitário Pedro Ernesto – RJ

Programa psicopedagógico do Hospital de Base de São José do Rio Preto – SP

Classe Hospitalar Servidores do Estado – RJ

Programa LerUERJ – RJ

Brinquedoteca Terapêutica Senninha do Instituto de Oncologia Pediátrica – SP

Atendimento escolar dos Hospitais Infantis Joana de Gusmão e Seara do Bem – SC

Casa de Apoio Hope – SP

SOBRAPAR – SP

Núcleo de Apoio à Criança com Câncer – PE

PROJETOS ESPECIAIS

Redhes – RJ

Lúmini Companhia de Dança

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

COLABORADORES

 

APRESENTAÇÃO

É direito da criança ou adolescente hospitalizados ter acompanhamento pedagógico-educacional durante sua internação.

Embora legislação e iniciativas tenham decorrido desse reconhecimento, faz-se necessário espaço onde possa ser discutida essa proposta e, dessa forma, assegurar a qualificação do atendimento a este direito.

Imbuídos desta motivação realizamos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro entre 19 e 21 de julho de 2000 o 1o Encontro Nacional sobre Atendimento Escolar Hospitalar, resultando na presente publicação. Estreitamos, assim, os contatos entre os profissionais de classes hospitalares e entre todos os profissionais que, independente da sua formação, reconhecem a validade do atendimento escolar no ambiente hospitalar e/ou se interessam por melhor compreender e difundir esta modalidade de atendimento educacional.

Pioneiro nesta temática, o 1o Encontro Nacional sobre Atendimento Escolar Hospitalar visou partilhar experiências, implementar intercâmbios e divulgar a produção acadêmico-científica na área do atendimento escolar hospitalar unindo esforços em prol dos direitos e necessidades pedagógico-educacionais da criança e do adolescente hospitalizados.

 

CERIMÔNIA DE ABERTURA

(texto lido pelo Prof. Ivael Pevidor de Almeida da Faculdade de Educação-UERJ)

 

A criança hospitalizada deve ser vista de modo integral e ter suas necessidades e interesses atendidos, a fim de que possa ser maximizado o projeto terapêutico de seu tratamento e minimizadas as conseqüências do afastamento social e estranhamentos gerados pela internação hospitalar.

Além desta certeza, uma outra motivação nos levou à realização deste Encontro Nacional. Esta motivação decorreu de resultados positivos obtidos por uma pesquisa inédita, concluída em 1998 e que mapeou os hospitais brasileiros que dispunham da modalidade de atendimento educacional denominada classe hospitalar.

A vontade de acertar era muito grande mas, àquela época, ouvimos que poucos seriam aqueles que responderiam a pesquisa pois não é hábito do brasileiro colaborar com tais iniciativas. Entretanto, das 27 correspondências iniciais enviadas, não obtivemos resposta alguma para apenas duas delas. Mais do que a significância estatística de nossos resultados, confirmamos que haviam parceiros em outros estados, até mesmo naqueles que poderíamos considerar muito difícil ter tal modalidade de atendimento. Percebemos que estávamos todos imbuídos do mesmo objetivo embora houvesse variação na nomenclatura utilizada para definir esta modalidade de atendimento. Observamos situar-se no Rio de Janeiro a Classe Hospitalar mais antiga em efetivo exercício: no Hospital Municipal Jesus, hospital público infantil da cidade do Rio de Janeiro esse tipo de atendimento iniciou-se em 1950, é referência para outras classes neste e em outros Estados e, no presente ano, celebra seu jubileu de ouro. Vimos que, contrariando uns poucos, o trabalho pedagógico-educacional desenvolvido no ambiente hospitalar não se mantém por conta de um suposto descaso das autoridades e que o senso comum e a intuição fazem, sim, parte da ação dos professores mas não apenas isso. A pesquisa sobre o atendimento escolar nos hospitais brasileiros nos revelou que a formação destes professores supera em muito o nível de ensino médio até então única exigência para o exercício do magistério. Os professores nesse atendimento são pelo menos, graduados no ensino superior.

Concomitantemente, com os auspícios e sensibilidade da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, implantamos a primeira home page sobre o assunto, o que intensificou o intercâmbio das informações, ampliando assim nosso conhecimento dentro desta temática.

Vivenciamos em nosso dia-a-dia que o atendimento pedagógico-educacional no ambiente hospitalar reduz o tempo de internação, auxilia no lidar com o stress do adoecimento, mantém o vínculo da criança com sua realidade fora do hospital, assegura o atendimento às necessidades intelectuais e do desenvolvimento infantil e é a atividade oferecida de forma mais sistemática as crianças e jovens hospitalizados o que faz dessa modalidade de atendimento item primordial na humanização hospitalar.

Iniciativas pioneiras como a deste Encontro contribuem como marco decisivo para o redimensionamento e possibilidade de unificação da visão que se possa ter dessa modalidade de atendimento, assegurando assim seu reconhecimento e lugar, tanto no âmbito educacional quanto no hospitalar.

Num ano marcado pelas comemorações dos 500 anos do Brasil, do centenário de Anísio Teixeira, dos 50 anos de efetivo exercício da Classe Hospitalar Jesus e dos 50 anos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, nossa anfitriã para este 1o Encontro Nacional sobre Atendimento Escolar Hospitalar, agradecemos o esforço feito por cada uma das pessoas que aqui se encontram e à colaboração obtida de empresas públicas e privadas, demonstrando consciência quanto ao direito da criança hospitalizada de ter acompanhamento pedagógico-educacional durante sua internação.

Estamos certos de que estaremos nos fortalecendo e continuaremos a buscar alternativas e soluções para nossos questionamentos sobre o atendimento escolar hospitalar sem deixar de fazê-lo através do olhar de nossos alunos que, apesar da situação de saúde peculiar a cada um deles, são cidadãos e, sendo assim, tem o direito como qualquer pessoa de exercer plenamente sua cidadania.

Damos as mais sinceras boas vindas. Contamos com o apoio de cada um e desejamos sucesso a este empreendimento.

Felicidades a todos!

 

CONFERÊNCIAS

Inclusão e escola no ambiente hospitalar

Claudia Werneck

Podemos ter medo do fracasso. E do sucesso. Rejeitar novas idéias porque elas são inadequadas. Ou surpreendentes demais para serem entendidas de imediato. É comum, também, fugirmos da reflexão sobre certos temas quando eles incomodam tanto, tanto, que chegam a dar a impressão de nos aprisionar. Evitamos ir adiante e... que pena. Quem sabe insistindo em nossos questionamentos viria depois uma abençoada sensação de liberdade e de compromisso incondicional com o próximo. Prioritariamente, compromisso conosco mesmo.

Dislumbra esse processo de desenvolvimento quem opta por estudar SISTEMATICAMENTE o conceito de sociedade inclusiva, fazendo dele meta e, ao mesmo tempo, estratégia de aprimoramento pessoal e profissional, não importa em que área for. Este conceito é o mais libertador dentre aqueles com os quais, até hoje, eu tive contato. Por isso é tão ameaçador. Está no meu livro "Ninguém mais vai ser bonzinho, na sociedade inclusiva", lançado pela WVA Editora em 1997: "Uma sociedade inclusiva tem compromisso com ela mesma porque se auto-exige transformações intrínsecas. Nesse processo, o movimento pela inclusão tem características políticas. Pretende alterar a estrutura constitucional do Estado."

O mérito desta proposta, documentada pela ONU em dezembro de 1990, através da Resolução 45/91, é encurralar a humanidade até que ela se reconheça como é. De acordo com os parâmetros da sociedade inclusiva, cada ser humano é um pacote indivisível de talentos e de limitações que, combinados em proporções variáveis em função das oportunidades que a vida traz, desde a concepção, definem e redefinem indivíduos. Crianças, jovens, adultos e idosos são mais ou menos talentosos, ou limitados, dependendo dos recursos que o meio ambiente oferece. Lembro sempre desta história. Outro dia, cheguei com uma amiga cega ao quarto de um hotel no qual nunca havíamos entrado. Mal destranquei a porta ela caminhou pelo recinto, muito segura, abrindo o armário com agilidade espantosa. E eu lá, parada, tateando para encontrar o interruptor na parede. Falei, num lapso (e que lapso!): "Espera, está escuro, deixa eu acender a luz". Minha amiga riu. "Quem precisa de luz aqui é você".

Pensar sobre inclusão, portanto, leva-nos ao encontro do que é mais típico na sapiens espécie: sua própria vulnerabilidade. Assumirmo-nos como grupo intrinsecamente vulnerável deveria ser óbvio, o paradigma primeiro de qualquer pensamento e ação. Ainda não é. Assim como um dia também foi difícil acreditar que mulheres, índios e negros tivessem recursos transformadores (os talentos!) e o direito de contribuir com seus talentos para o bem comum. Refletir sobre inclusão, resumindo, é falar de ética às últimas conseqüências. Fácil ser ético quando abordamos o igual, o parecido, o homogêneo, o padrão, o desejável. Difícil ser ético diante da diversidade humana que, em última instância, se manifesta através das deficiências e das doenças crônicas.

Nos últimos anos, pesquisadores do conceito de inclusão empenharam-se para a sua democratização. Que todas as pessoas, de origens diversas, em cada canto do Brasil, direta ou indiretamente envolvidas com a questão das deficiências pudessem ter acesso a ele. Melhor, que se tornassem cúmplices dele, ao refletir, sempre, sobre como cada um de nós pode contribuir para a implementação de uma sociedade inclusiva brasileira. Hoje vejo apreensiva que embora a discussão sobre escola, saúde, cultura, trabalho etc inclusivos esteja se disseminando a galope pelo País, raramente ela é levada às últimas conseqüências. Sendo assim, não é, ainda, discutir inclusão. E que critério será esse capaz de separar conteúdo de retórica? Ação de intenção? Verdade de quase-verdade?

"Aqui está o melhor da raça humana!" Esta frase foi pronunciada por um jornalista na transmissão da abertura das Olimpíadas na Austrália. Na hora, tive um arrepio. Depois, um constrangimento. Envergonhei-me pelo comentarista, pela sua família, pela minha família, pelos brasileiros, pela humanidade que está viva neste setembro de 2000. Nada contra as Olimpíadas. Sou contra o "mau uso" das Olimpíadas. Devemos nos contentar com interpretações capengas sobre o que é, dizem, a maior confraternização do planeta? A tecnologia que nos permite acompanhar com boa definição o que acontece na Oceania evolui com tal rapidez que nem encontro mais um bom adjetivo para descrevê-la. Os atletas que nos emocionam se superam dia-a-dia testando de forma disciplinada seus limites. As solenidades de abertura superam-se na criatividade e na organização milimétricas. Por que não seguir o mesmo ritmo no que tange às nossas reflexões humanísticas? Mas não, ligamos a televisão e lá está o comentário velho, antigo, não-holístico, não-inclusivo.

Acreditar que na Olimpíada está o melhor da raça humana é acreditar que existe o pior da raça humana. Levando em conta que os atletas aproximam-se do ideal de saúde, beleza, bom preparo físico etc, quero saber quem representa o pior da raça humana. Os que nascem com alguma deficiência mais visível? Uma síndrome genética, como a de Down ou de Williams? Crianças que têm doenças renais crônicas e que se desenvolvem muito lentamente? Ou que foram ostomizadas em decorrência de câncer, bala perdida, acidente de carro, queda de laje? Ou que, pelas mesmas razões, ficaram tetraplégicas ou surdas?

Tenho notado: não é exato dizer que indivíduos nessas condições não entram na concepção do social de nossa sociedade. Entram, mas entram acuados, em um espaço delimitado que lhes cabe por generosidade ou por concessão, formas tão sutis de autoritarismo. É o lugar do aborígene da Austrália, apontado e filmado pelas televisões de mundo como o exótico-bem-vindo-e-agora-amado nas arquibancadas dos jogos em Sidney neste ano de 2000. É o lugar de quem assiste, mas não participa. É o lugar de quem cria, mas não tem o crédito autoral. É o lugar da visita para a qual arrumamos a casa, fazemos um bolo, colocamos roupa nova, mas de quem esperamos educação suficiente para não invadir nossa intimidade.

Mas essa intimidade é o social!

Falar de inclusão é falar de uma intimidade que seja simultaneamente social-e-humana. Neste contexto, pensar sobre classe hospitalar, organizar um congresso para que debatamos nacionalmente o assunto é muito oportuno. O tema acirra crises múltiplas. Arrola saúde e educação, ética e tecnologia, direito e dever, família e profissionais, afeto e dor, razão e emoção. Tudo em situações-limite. Nelas, assintosamente, convivemos com nossa própria vulnerabilidade, nossos limites de conhecimento e de recursos de várias naturezas, incluindo os sócio-econômicos. Essas mesmas situações-limite, ao contrário, nos permitem vivenciar, também assintosamente, ética, afeto, direitos, deveres, possibilidades de transformação. Saídas!

O processo de implementação de classes hospitalares por TODO o Brasil propiciando, sempre, a esse alunado, uma educação de qualidade (e, portanto, inclusiva), é uma estratégia eficaz para caminharmos aceleradamente a caminho de uma nação brasileira inclusiva.

 

Claudia Werneck é "Jornalista Amiga da Criança" pela Fundação Abrinq, Agência de Notícias dos Direitos da Infância - ANDI e pelo Unicef; responsável pelo projeto Muito prazer, eu existo; fundadora e diretora-superintendente do Instituto Pró-Sociedade Inclusiva; autora de livros sobre inclusão de pessoas com deficiências e doenças crônicas na sociedade para adultos e crianças.

 

 

A escuta pedagógica no ambiente hospitalar

Ricardo Burg Ceccim

 

O termo escuta pedagógica foi proposto por mim em 1997 ao organizar o livro Criança Hospitalizada: atenção integral como escuta à vida e retomado em três publicações: Revista Integração, Revista Pátio e Revista Temas sobre o Desenvolvimento.

A palavra escuta diferencia-se da palavra audição. Enquanto a última se refere a um dos órgãos do sentido, a captação dos sons ou a sensibilidade do ouvir, a primeira se refere a captação das sensações do outro, realizando a integração ouvir-ver-sentir. A associação com a palavra pedagógica sugere que este ouvir-ver-sentir decorre de uma sensibilidade aos processos psíquicos e cognitivos experimentados pelo outro.

Com qual disposição de olhar, olhamos a criança doente e a criança hospitalizada? Com qual disposição de ouvir, ouvimos a criança doente e a criança hospitalizada? Com qual disposição sensível nos oferecemos à criança doente e à criança hospitalizada? Quando e como é a criança quem nos conta e é a criança quem nos mostra seu adoecimento, seu tratamento e sua hospitalização? A doença da criança é a mesma doença detectada pelos médicos e enfermeiros?

Quando formulamos essas perguntas estamos supondo que, na prática hospitalar, é vigente o roteiro dos diagnósticos fisiopatológicos, dos exames laboratorais e das respostas aos medicamentos e procedimentos de intervenção clínica e não a fala da criança. A criança não fala de diagnóstico, testes laboratoriais e efeitos da prescrição, ela fala dos familiares (do pai, da mãe, dos avós, dos tios, dos irmãos, da madrinha...), dos amigos, dos brinquedos e das brincadeiras (praça, bicicleta, cachorro, jogos), da creche ou escola, dos colegas, da casa (comida, televisão, telefone, visitas, roupas ...), da rua e dos passeios ... Quando a criança fala dos bons enfermeiros, ela fala da sua habilidade técnica ou fala dos que conversam e brincam com ela? Quando a criança fala dos bons médicos, ela fala da sua eficiência técnica ou fala da sua paciência e atenção? Quando a criança fala da comida do hospital, ela fala da dieta balanceada ou pergunta pelo sorvete, batata frita, pizza e salgadinhos? Nossa escuta se faz como audição aos seus dizeres ou como demanda sensível de reorganização da assistência, do tratamento e dos cuidados institucionais?

Desde o ponto de partida, a prática hospitalar se mostra tecnificada e impessoal, orientada pela doença e pelos quadros clínicos, não se mostra como uma prática humanizada e personalizada orientada pela saúde e pela produção de vida. Os ouvidos ferramenta de trabalho, orientados para triar os problemas e alinhar as condutas não são ouvidos táteis, orientados pelo que pede para ser ouvido sem ser dito, que ouvem o que se mostra ou se esconde sem se ouvir.

As crianças pedem para brincar, ir à escola e ter amigos, quem escuta este pedido? Pedem para brincar, ir à escola e ter amigos porque pedem atenção à dimensão vivencial de sua experiência de adoecer e ser hospitalizada e não só às dimensões biológicas ou psicológicas de seu adoecimento e hospitalização. A dimensão biológica pode ser atendida através da tecnologia médica e de enfermagem tradicional, como também a dimensão psicológica pode ser ouvida através do psicoadignóstico, mas a dimensão vivencial não pode ser diagnosticada, só pode ser sentida junto com a criança, quando nos medimos por ela, quando nos permitimos escutar seus processos afetivos e cognitivos, observamos suas interações e suas produções, mediamos suas construções e interpomos convites a que produza conosco. Exemplifico com o trabalho do professor na sala de aula. O que faz o professor com o aluno com dificuldades de aprender? Não deve ele penetrar no mundo da criança, compreender-lhe as dificuldades e tentar vir com ela para fora, trazendo junto o desejo de exploração, descoberta e aprendizagem? A palavra educação, que vem do latim, quer dizer, justamente, tirar para fora e a palavra pedagogia, que vem do do grego, quer dizer caminhar com a criança, conduzí-la, levá-la à aprendizagem (levar, no caso, com sentido de pegar no colo ou pela mão e levar até lá), isto é, estar com ela e aliar-se a ela.

Pois bem, onde a criança mostra e esconde suas vivências? No olhar, na lágrima, no sorriso, na resistência, na birra...? Sim, mas também objetivamente na escrita; no desejo, ou não, de aprender; nos recursos de leitura e escrita que utiliza; nas etapas de desenvolvimento cognitivo que percorre e por onde avança; no desenho; na colaboração em grupo para um fim comum; na conversa sobre os móveis, janelas, corredores, elevadores, luzes, macas etc. que observa e convive no ambiente hospitalar. Tudo pode ser ouvido e virar trabalho coletivo, ganhar suporte em papel e ser guardado ou mostrado, pode ser partilhado, não com quem ouve, mas com quem daí pede uma conta de somar ou de dividir, pergunta quem é o sujeito da frase e qual a ação do sujeito, questiona se uma dada idéia pode mudar de lugar ou ter outro sentido se for colocada uma vírgula, dois pontos ou parênteses, pede para colocar um início, um desenvolvimento e uma conclusão e abre a conclusão para iniciar o texto da próxima aula ou o debate em grupo que vem depois do trabalho individual.

Em que lugar do hospital se pode colocar mesinha, lápis, caderno, jogos, livros, computador, caderno de chamada/freqüência? Onde se pode colocar um professor que corrige, ensina e devolve trabalhos, que manda tema para fazer no quarto e devolver amanhã, que lembra que amanhã tem aula e não pode faltar, que pede reunião com os pais, que quer olhar os cadernos da escola, saber dos colegas e da professora de classe, o que a criança já aprendeu e o que gostaria de aprender? Ajudar na escrita de cartas aos colegas da escola regular, trocar correspondências com a professora da classe regular e, então, até comentar na classe hospitalar.

Com que saúde opera um professor? Não é a mesma dos médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e recreacionistas. Isto só quer dizer que não existe mesmo uma única saúde, existem muitas e precisamos ouvir e atender ao conjunto delas para promover a saúde integral, de tal forma que cada uma carreie cada outra.

O que mais caracteriza o pedagógico? Entendo que seja a escola (a educação sistematizada), o planejamento de ensino, a avaliação da aprendizagem, o objetivo de freqüência às aulas, o encontro na sala de aula, a pesquisa bibliográfica, o tema de casa. Então, uma escuta pedagógica requer um espaço, um QG, uma sala de aula. Requer um professor, um mediador didático-educacional que faz da escola o lugar de aprender. Requer a possibilidade de a criança ir e vir à "escola" e ter seus murais e cadernos, na escola e no lugar onde faz os temas (sua enfermaria, seu leito, o corredor de sua unidade). Requer os objetos de aprender (brinquedos, sucatas, papel, lápis, tinta, computador etc.)

O que mais caracteriza essa escuta? A continuidade e segurança dos laços sociais do aprender (colegas, professor, espaço coletivo de crianças) e as conexões com as potências infantis de criação, invenção e fantasia (o hospital impõe limites à socialização e às interações, afastamento da escola/dos amigos/da rua/da casa e põe regras ao corpo/ao tempo/aos espaços), onde a cura passa a ser uma parte e não um fim. O fim é o crescimento, o desenvolvimento e a conquista de outras saúdes. Este fim é finito, mas ilimitado porque ele somente inicia outra saúde, não há término da saúde (nem com uma morte previsível e já próxima).

A escuta pedagógica precisa de uma escola, de conteúdos curriculares e prática docente, mas não para cumprir programas conteudistas, apenas para agenciar conexões, necessidades intelectuais, emoções e o pensamento.

Os demais profissionais precisam desenvolver em si o potencial de uma escuta pedagógica, condição para quem atua com crianças e pretende oferecer-lhes atenção integral e os profissionais da educação sabem bem o quanto precisam dos demais profissionais para seu trabalho, pois precisam ser permanentemente informados sobre a evolução da doença e os efeitos dos medicamentos. Somente um trabalho em equipe assegura como alvo a criança. Não é mais a criança que é paciente, ela é impertinente ao hospital, nós é que temos de ser pacientes, nós é que pertencemos ao hospital, para torná-lo lugar de tratamento e cuidados.

Uma anamnese pedagógica seria possível ao professor como, também, aos demais profissionais ou aos estudantes que estão na enfermaria pediátrica tentando aprender sobre crianças (não deveriam aprender só pediatria). Uma anamnese pedagógica perguntaria à criança qual a sua doença, porque acha que adoeceu, como acha que se fica bom, quem cuida no hospital, o que é o hospital, como que o hospital funciona, como era antes de vir para o hospital, como será depois? Concluindo com o pedido de um desenho sobre o que se conversou. E, então, buscar conexões entre entrevista e desenho, impressões/sensações do entrevistador e as palavras ditas/anotadas. Deter-se nos exemplos utilizados e, finalmente, não deter-se em interpretações, mas escolher elementos para a produção pedagógica. Exemplo: A criança fala muito sobre ter regras, horários e dieta, então pode-se trabalhar com desenho livre, poesia, dança dos dedos e dos lábios, como deixar um quarto maluco...

Afirmar positivamente a experiência da doença ou hospitalização e não marcá-las como ruptura com os laços interativos da aprendizagem de si, do mundo, das relações é o objeto de uma escuta pedagógica. O direito à invenção de si e do mundo é o devir ético do trabalho educacional. Uma escuta pedagógica em saúde decorre da defesa de vida como valor maior.

 

Ricardo Burg Ceccim é Sanitarista, Professor de Educação em Saúde na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Programa de Pós-Graduação em Educação) e Diretor da Escola de Saúde Pública/RS.

 

MESAS-REDONDAS

Políticas Públicas e Classe Hospitalar

Rosita Edler de Carvalho

Maria de Fátima Cardoso Telles

 

Rosita Edler de Carvalho (consultora em Educação Especial)

As Políticas Públicas, objeto da consideração de teóricos nas diversas áreas do saber e do fazer, bem como dos políticos, todos buscando, em nome delas, a qualidade de vida dos cidadãos, embora constem dos seus discursos, nem sempre se concretizam, na prática de suas ações.

A distância entre o que se fala e as efetivas ações, isto é, entre o que se proclama e o que realmente se faz, ainda é uma lamentável realidade entre nós, apesar dos esforços de alguns que, por dependerem das decisões e da vontade política de muitos, sentem-se na maioria das vezes frustrados em seus propósitos.

Penso que neste caso, em nosso país, encontra-se a questão das classes hospitalares que, embora em número insuficiente, já estão acontecendo e justificando sua existência, graças à dedicação e ao profissionalismo de uma equipe de idealistas.

Segundo os dados disponíveis, resultantes de uma pesquisa realizada em 1997 (Fonseca, 1999), temos apenas 30 classes hospitalares em funcionamento em apenas 11 (onze) Unidades da Federação (10 Estados e o Distrito Federal), com 80 professores, atendendo a uma média de 1500 crianças/mês, na faixa etária do 0 a 15 anos de idade.

São números pequenos o suficiente para evidenciar que a oferta desse serviço de atenção integral à saúde e à educação de crianças e adolescentes hospitalizados ainda é muito incipiente em nosso imenso Brasil, embora nossa legislação reconheça o direito que eles têm ao atendimento pedagógico-educacional enquanto estiverem no hospital e este conste, como modalidade de atendimento educacional escolar da educação especial, previsto na Política Nacional de Educação Especial de 1994.

Parece que constar de textos de documentos não é o bastante em nossa cultura: o direito está assegurado nos escritos, nas leis, em documentos nacionais e internacionais, nos discursos mas não está garantido, na prática, para todos. Essa situação gera mais desigualdades, na medida em que se caracteriza como privilégio de uns poucos.

Não é meu objetivo, neste texto, entrar no mérito da importância do atendimento médico-hospitalar pois me parece questão óbvia para o desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança hospitalizada (Fonseca & Ceccim, 1999), além de ser de seu direito de cidadania. Pretendo pontuar, sumariamente, alguma questões referentes às Políticas Públicas, particularizando as áreas de educação e saúde, as mais afins ao tema em apreço.

Inicialmente quero propor para reflexão que a expressão "Políticas Públicas" tanto se refere ao conjunto das medidas de governo, voltadas para determinadas finalidades e objetivos de cunho social, segundo o "objeto da Política" (saúde, educação trabalho, etc.), quanto se refere a um documento no qual tais medidas ou ações estão apresentadas como diretrizes. Estas objetivam o alcance de objetivos que atendam, nas diferentes áreas setoriais, aos interesses e necessidades da população, identificados por estudos e pesquisas junto aos usuários dos bens e serviços disponíveis ou que devem ser disponibilizados, na sociedade.

Creio que temos poucos documentos de Políticas Públicas, intitulados como tal. Não se trata da defesa do texto, pelo texto, ou pelo seu título. Já comentei anteriormente que existe, infelizmente, uma enorme distância entre discurso e prática... entre o escrito e o executado, entre o que se diz e o que se faz (ou se desfaz!).

A defesa da elaboração de textos de Políticas Públicas e que são sociais em sua essência, explica-se pela riqueza de reflexões decorrentes da metodologia implícita em sua elaboração. Ela pressupõe um minucioso estudo de conjuntura e toda uma fundamentação axiológica e teórica acerca do "objeto" da Política. Isso implica em levantamento de dados, em revisão de literatura, em análise dos valores que nos inspiram, dentre outros aspectos referentes à atribuição de significações às nossa decisões e práticas.

Esses dois pilares: o que temos (diagnóstico da realidade) e o que queremos (porque é de direito, porque é necessário, porque há conhecimentos e experiências que comprovam a efetividade do "fazer"...) vão nos permitir estabelecer objetivos e metas, e definir as diretrizes e as estratégias a serem adotadas para garantir a todos o direito de acesso, ingresso e sucesso nos bens e serviços disponíveis. No caso específico deste texto, as classes hospitalares.

As diretrizes, traduzidas como um dos capítulos do documento que contém o texto de determinada Política Pública Nacional, servem como subsídios para a formulação de Planos de Ação nas diferentes U.Fs., sempre em consonância com a especificidade das realidades estaduais ou municipais.

Outra vantagem do texto escrito é que ele também serve como referencial para as lutas em prol da concretização das ações necessárias à consecução dos objetivos estabelecidos, bem como da proposição de outros, segundo as necessidades.

Assim tem sido com a Política Nacional de Educação Especial que, embora desatualizada (pois ela é de 1994: o contexto atual é outro, como outro é o paradigma educacional escolar que nos move - a inclusão, na escola e na sociedade), ainda serve aos propósitos para os quais foi consolidada, num texto.

No caso das classes hospitalares, considerando-se que a natureza das ações que nelas se desenvolvem são de cunho pedagógico-educacional, penso que devam realmente constar de documentos de Políticas Educacionais.

Se entendermos a educação como direito de todos, sem necessidade de dicotomizar o processo em regular e especial, eu diria que essa modalidade de atendimento educacional deve compor o elenco das ofertas que a educação, enquanto função social, deve prever e prover, por meio dos sistemas educacionais para todos os alunos. Todos!

Em outras palavras, quero dizer que, se já tivéssemos - os que pensamos ou os que decidimos a educação escolar - internalizado a proposta inclusiva como a melhoria da qualidade da oferta educativa para qualquer aluno, esteja ele onde estiver, então não precisaríamos colocar as classes hospitalares como modalidade de atendimento educacional escolar da educação especial, ainda entendida como sub-sistema paralelo à educação regular.

Mas, considerando-se que, de modo geral e equivocado, compreende-se a educação inclusiva destinada, apenas, aos portadores de deficiência e que não alcançamos o consenso geral, de que se trata de incluir todos os nossos aprendizes na melhoria de nossas ofertas educativas, convém que, na atualização da Política Nacional de Educação Especial, esteja garantido o espaço para as classes hospitalares, no texto e no contexto. Em quantidade e qualidade de modo a atender à toda a demanda, com sucesso.

Penso que, dentre outros, devem aparecer, claramente, como objetivos:

- realização de mais estudos e pesquisas a respeito, com a divulgação dos resultados de modo a estimular outras unidades hospitalares de todas as U.F. a implantarem e implementarem esse atendimento;

- expansão da oferta, com o apoio do poder público;

- melhoria da qualidade da resposta educativa dessas classes, além de todo o aspecto de natureza psicológica implícito no atendimento;

- capacitação de recursos humanos: como formação inicial e em serviço; ...

Ocorrem-me, dentre outras, como diretrizes:

- estabelecer parcerias entre os órgãos de educação e de saúde nas várias esferas e instâncias do poder público. Tais parcerias, além dos aspectos materiais e financeiros implicam, necessariamente, na articulação dos agentes dos setores envolvidos, para a realização de estudos e divulgação dos mesmos, bem como para a qualidade dos atendimentos oferecidos, sejam os específicos de ensino aprendizagem, sejam os de natureza psicológica que atuam sobre o emocional das crianças hospitalizadas;

- estabelecer parcerias entre as universidades e os órgãos de governo de saúde e de educação, tanto para o enriquecimento da formação dos alunos da universidade que freqüentam cursos naquelas áreas, para o estabelecimento de estágios em classes hospitalares, quanto para fomento da pesquisa, de cursos de extensão ou de pós-graduação;

- conscientizar a família, além da comunidade escolar e da hospitalar quanto a importância do trabalho pedagógico e em relação ao papel da equipe de atendimento, no hospital;

- produzir e divulgar literatura a respeito, a ser veiculada pelos órgãos públicos de educação e de saúde, de modo a envolver, progressivamente, mais profissionais em torno dessa importante questão;

- envolver a mídia e a opinião pública. ....

Fico particularmente entusiasmada com a possibilidade de estarmos discutindo esse tema neste Encontro Nacional. Este é o primeiro de uma longa série que, espero, possa envolver e motivar todos os profissionais da educação e da saúde pois, parafraseando a mensagem que recebemos, dos organizadores desse evento, justificando o trabalho pedagógico-educacional no ambiente hospitalar porque a criança doente também estuda e aprende.

E, sem medo de errar, eu complemento afirmando: e nós também, em muito com ela, aprendemos.

Assim é louvável que se pense em elaborar uma Política Pedagógica Educacional para as Classes Hospitalares, para o que sugiro, ao longo deste evento, que sejam discutidas e redigidas algumas sugestões a serem encaminhadas aos órgãos competentes.

Referências bibliográficas:

FONSECA, E.S. Atendimento pedagógico-educacional para crianças e jovens hospitalizados: realidade nacional. MEC/INEP. Serie Documental: Textos para Discussão. 25p. 1999.;

FONSECA, E.S. & CECCIM, R.B. Atendimento pedagógico-educacional hospitalar: promoção do desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança hospitalizada. Temas sobre Desenvolvimento, v.7, n.42, p.24-36, janeiro-fevereiro. 1999.

 

Maria de Fátima Cardoso Telles (Revista Integração – SEESP/MEC)

A EDUCAÇÃO PARA TODOS é um compromisso assumido pelo Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Especial, com a finalidade de assegurar a inclusão de alunos que apresentam necessidades especiais no sistema educacional.

O direito de todos à educação é garantido pela Política Nacional de Educação do MEC que assegura a estes alunos o atendimento educacional, integrados ou não, na rede regular de ensino.

Concretizarmos uma educação, de fato, para todas as pessoas é o nosso maior desafio quando sabemos que a realidade nos mostra inúmeras crianças e jovens excluídos do sistema educacional. O objetivo a ser alcançado é tornar a escola um espaço aberto à diversidade e adequado ao ensino de todo e qualquer aluno.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, no. 9394/96, define a educação especial como uma modalidade da educação escolar, um conjunto de recursos e procedimentos específicos do processo de ensino e aprendizagem colocados à disposição dos alunos com necessidades especiais, em respeito às suas diferenças, para que eles tenham acesso ao currículo e, consequentemente, conquistem sua integração social.

De acordo com o MEC, o atendimento escolar no ambiente hospitalar constitui uma modalidade de atendimento educacional especializado colocado à disposição de toda criança ou adolescente hospitalizados, que deverá, sempre que possível, contar com a participação do familiar acompanhante. (Brasil, 1994; Fonseca, 1999).

A educação especial hospitalar tem a finalidade de assegurar a essas pessoas a "manutenção dos vínculos escolares, aprendendo e realizando experiências educativas mediadas pelo mesmo professor das demais crianças, em atenção aos direitos fundamentais da pessoa humana e no especial direito das crianças e adolescentes hospitalizados à proteção integral." (Ceccim & Fonseca, 1999).

Nesse sentido desejamos que este 1o Encontro Nacional sobre Atendimento Escolar Hospitalar possa promover o debate e o intercâmbio de propostas que reafirmem os direitos dessas crianças e jovens exercerem sua cidadania.

Referências:

BRASIL. Política Nacional de Educação Especial. livro 1. Brasília: MEC-Secretaria de Educação Especial. 1994.

CECCIM, R.B. & Fonseca, E.S. Classe hospitalar: buscando padrões referenciais de atendimento pedagógico-educacional a criança e ao adolescentes hospitalizados. MEC/SEESP. Revista Integração. ano 9, n.21, p.31-39. 1999.

FONSECA, E.S. A situação brasileira do atendimento pedagógico-educacional hospitalar. Revista Educação e Pesquisa. Universidade de São Paulo. v.25 (01). P.117-129. Janeiro-junho. 1999.

 

O professor, o aluno, a diferença e a hospitalização

Julio Groppa Aquino

 

Antes de mais nada, gostaria de agradecer o convite e circunstanciar minha diminuta contribuição às discussões dessa mesa-redonda, dedicada ao tema "o professor, o aluno, a diferença e a hospitalização". Como não sou um especialista da área, posso correr o risco - e o farei - de ser considerado um "intruso", uma vez que não vou propor uma discussão técnica, mas algumas idéias esparsas, descontínuas sobre o tema em foco. Mais do que isso, pretendo propor um ponto de vista singular a respeito daquilo que, à primeira vista mas só entre nós, parece ser um consenso hoje: o direito inalienável ao atendimento escolar por parte de crianças em situação de hospitalização.

Nesse sentido, este Encontro, por si só, representa um avanço democrático sem precedentes no país. Isso porque se trata de uma reunião de profissionais para discutir uma temática impensável há 20 anos, ou, em outras palavras, um "saudável" problema desencadeado pela Constituição de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Contudo, há que se reconhecer uma situação ambígua presente hoje no país, que se aplica também ao caso do atendimento pedagógico-hospitalar: o "arrojo" legal em contraste com o anacronismo das práticas sociais.

Mais ainda, poder-se-ia dizer que há um fosso entre o que chamamos de democracia política e a ensejada democracia social. Ambas não são necessariamente correlatas, muito menos justapõem automaticamente. Isso porque, do ponto de vista social, as mudanças são lentas, não imediatas. Em outras palavras, não basta democratizar o país na esfera política se não houver democracia também nas instituições que regem nosso dia-a-dia. E essa é a tarefa principal de nossa geração!

Assim, gostaria de propor um recorte na discussão por meio da proposição de uma questão central: por que, por um lado, excedemos em compaixão quanto às crianças "diferentes" do padrão (e aí incluída a criança hospitalizada) e, por outro lado, proporcionamos sua invisibilidade e seu silenciamento civil? Em termos mais concretos, por que temos tido tanta dificuldade de garantir espaços sociais de fato inclusivos, e para todos?

Sem a pretensão de atingir uma resposta definitiva, estável, proponho uma hipótese nuclear: a excessiva psicologização do olhar contemporâneo sobre a infância e a adolescência talvez seja responsável (não apenas, mas grande parte das vezes) pela exclusão das crianças e adolescentes "diferentes".

Para situar a possível plausibilidade de tal hipótese, permitam-me percorrer um breve caminho teórico.

A infância e a adolescência, tal como as conhecemos hoje, não são um fato invariante do ponto de vista histórico. Para ser mais preciso, não se pode dizer que houvesse, na Idade Média por exemplo, um mundo propriamente infantil, muito menos adolescente. Pelo contrário, não havia distinção entre o universo do adulto e o da criança, esta uma espécie de apêndice civil. É claro que a criança fazia as mesmas coisas do adulto a seu modo, mas era pensada como se fosse um adulto em miniatura. Não havia, pois, uma especificidade no olhar do adulto quanto a suas particularidades, seus tempos próprios - assim como o fazemos hoje.

Pode-se dizer, grosso modo, que apenas a partir do século XIX foi "inventada" a infância como um "problema", como uma etapa específica da vida. Ou melhor, foram construídos os discursos científicos sobre a infância, que hoje conhecemos tão bem. Uma criança não mais "natural", mas objeto do olhar normativo da ciência. Nasce aí também, e consequentemente, uma certa ciência da criança chamada "Psicologia".

A partir dos estudos dedicados à descrição do desenvolvimento infantil, desponta uma criança jamais conhecida até então: a criança da "norma" evolutiva. Uma criança que nasce e cresce segundo padrões estratificados de desenvolvimento orgânico, cognitivo, afetivo, moral, social etc. Uma criança sempre em desenvolvimento, pois. Uma criança para sempre crivada pelo olhar psicológico.

Ora, é sempre bom lembrar que esse olhar psicologizado sobre a infância representa uma faca de dois gumes. Se por um lado a atenção integral à infância é efeito desse processo, por outro a exclusão de uma parcela dessas mesmas crianças pode ser entendida também como efeito do mesmo processo.

Se partirmos da premissa de que o desenvolvimento humano (infantil, em particular) segue um curso lento, gradual, contínuo e ordenado, o que aconteceria quando isso não se dá a contento? O que restaria a uma porção significativa de crianças que, por uma ou outra razão, teriam seus elos de desenvolvimento (supostamente) rompidos ou ameaçados, como é o caso, aliás, da criança hospitalizada?

Desvio, distúrbio, disfunção, anomalia, bloqueio, transtorno: termos que dizem do afastamento de tais crianças "diferentes" do que era "cientificamente" esperado delas. Quase sempre, elas são tomadas como "vítimas" de uma fatalidade do destino, e, mais drasticamente, cujo desenvolvimento seria irremediavelmente maculado, usurpado.

Daí o horror, o desalento e a comiseração que nos acompanham. Some-se a isso a morte do discurso psico-pedagógico: "nada mais poderia ser feito!"

Talvez esse breve recuo teórico possa lançar alguma luz, mesmo que parcialmente, sobre nossas cambaleantes iniciativas de inclusão escolar.

De modo oposto a tais premissas, creio que seja mais do que necessária uma revisão paradigmática do discurso psico-pedagógico atual, o que implica uma recusa declarada à noção de desenvolvimento como marcha e como progresso, ou como resultado de coordenadas de causa-efeito.

Prefiro a idéia de desenvolvimento como algo não linear e não previsível, mais como a multiplicidade de respostas que são ofertadas às interpelações da vida. Respostas diferentes da "norma" evolutiva, dos manuais teóricos construídos sobre as experiências de crianças suíças, francesas ou americanas. Respostas plásticas, criativas, muito mais inteligentes do que nosso olhar reducionista, benevolente e equivocado do ponto de vista ético e político.

Se rastrearmos a história humana, encontraremos uma recorrência: boa parte dos homens que mudaram a visão sobre os fatos foram crianças atípicas, fora do padrão, do modelo desenvolvimentista clássico - tanto para baixo quanto para cima de sua arbitrária "média".

Portanto, o acolhimento efetivo de tais crianças exige um posicionamento que ultrapassa nosso olhar "científico" sobre a infância e a adolescência atuais. Ele requer um compromisso de ordem política e ética, que se traduz a meu ver na idéia de "democratização": esse conceito tão familiar e tão desconhecido de nós brasileiros.

Por fim, no que se refere ao atendimento pedagógico-hospitalar, tema nuclear deste Encontro, gostaria de propor uma última idéia. Já ouvi dizer que tais práticas poderiam redundar numa penalização da criança doente, já em situação de desconforto ou sofrimento. Discordo em gênero, número e grau.

A despeito de meu raro trânsito na área, creio que o trabalho pedagógico representa uma experiência vital ímpar, no que diz respeito à possibilidade de recodificação simbólica do contexto e da vivência hospitalar. Afinal de contas, não são os remédios apenas que curam. O conhecimento e a continência de um "professor" também o fazem.

Portanto, a inclusão conseqüente de tal parcela de crianças em situação de vulnerabilidade não só física, mas também psíquica e principalmente civil, requer uma boa dose de generosidade e responsabilidade, o que pressupõe, no meu parco entender, a recusa à piedade, ao assistencialismo, à negligência e à apatia. Inclusão de fato significa, para mim, alegria, expansão de mundo, companhia. Notar e ser notado no mundo - o que todos ansiamos, de um modo ou de outro.

Deveríamos aprender mais com essas crianças, com sua força de resistência e de vida.

 

Classe Hospitalar Jesus: trajetória do jubileu de ouro (1950-2000)

Lecy Rittmeyer

Rachel Perrone da Silva

Leila Ozon Imbrosio

 

Lecy Rittmeyer (primeira professora da Classe Hospitalar Jesus)

Farei um rápido relato de minha passagem, e pioneira, nas Classes especiais Hospitalares do Hospital Estadual Jesus, como era denominado nos anos de 1950.

Estava cursando a faculdade de Serviço Social sob a direção da Profa. Isolina Pinheiro, quando o então diretor do Hospital Jesus era o Dr. David Pilar que se interessou pelo atendimento escolar às crianças internadas: iniciou-se assim em 14 de agosto de 1950 no Hospital Jesus a Classe Hospitalar com a minha designação para este serviço através da Portaria 634. O hospital possuía, então, cerca de 200 leitos e uma média de 80 crianças em idade escolar. A assistência educativa era dada individualmente nas enfermarias por não dispor o hospital de instalações apropriadas ao trabalho escolar. O programa desenvolvido contava além de escolaridade com atividades de biblioteca, cujos livros eram sistematicamente emprestados aos doentes.

Em 1958 o EEP cedeu-nos mais uma professora – Ester Lemos Zaboroviski, o que permitiu uma melhor distribuição do trabalho e, consequentemente, maior rendimento escolar por parte das crianças hospitalizadas.

Em 1960, tínhamos as seguintes professoras em exercício nos hospitais: Lecy Rittmeyer e Ester Lemos Zaboroviski (Hospital Jesus), Marly Fróes Peixoto (Hospital Barata Ribeiro) e Lola Sanches Aratanha (Seção de Convalescentes do Hospital Jesus). Através de conhecidos comuns em fins de 1960 as professoras dos Hospital Jesus e do Barata Ribeiro foram apresentadas. Desempenhavam o serviço escolar naqueles nosocômios sem que houvesse nenhum regulamento ou vínculo com a secretaria de Educação, apenas entrosamentos e entendimentos com os diretores dos hospitais. Sentindo a necessidade da unificação e regulamentação do trabalho, levaram suas reivindicações ao Diretor do Departamento de Educação primária – Professor Álvaro Palmeira e passaram juntos a viver os problemas e a lutar por uma mesma causa: a regulamentação do serviço, a assistência ao deficiente físico nos hospitais do estado nas escolas públicas primárias e, finalmente, no domicílio. Aqui, em se falando de Marly Fróes Peixoto, não poderia deixar de dividir esta homenagem com ela.

Com quase 3 anos de formada, Marly internou-se no Hospital barata Ribeiro para tratar-se de um grave seqüela de reumatismo infeccioso, que a deixara presa a uma cadeira de rodas. Nesta ocasião, o Hospital Barata Ribeiro atendia somente aos escolares do Estado e Marly, rodeada de tanta criança precisando de escolaridade, passou a dedicar-se a elas nas horas, dias e anos que viveu esperando seu restabelecimento, restabelecimento este que nunca chegou ... Quando Marly adoeceu, pertencia ao SEMA – Serviço de Música da Secretaria de Educação. Sim, ela era também uma musicista: cursara até o 7o ano do Instituto Nacional de Música e, por isso, muita orientação musical nos legou. Já apaixonada pelo atendimento aos deficientes físicos, Marly que devia apenas freqüentar o ambulatório passou a ser interna no hospital e, e professora do Serviço Complementar, voltou a lecionar às classes comuns. Sendo assim, ela pode retornar, oficialmente, à labuta do magistério, apesar das limitações que a doença lhe impusera. Marly foi exemplo de virtudes, de patriotismo e de amor ao trabalho. Estava sempre pesquisando, estudando ou planejando algo em favor e uma melhor orientação ao deficiente físico. Nos inúmeros interstícios de suas graves crises, quem fosse à casa de Marly a encontrava no leito rodeada de livros, e apostilas, de papéis e até de máquina de escrever. De licença, e folga ou e férias, Marly não se escusava de trabalhar em prol do serviço, não se negava de receber a quem quer que fosse para ensinar, orientar ou transmitir o que sabia ou o que já experimentara.

E ainda, nos dias que antecederam ao seu passamento, Marly terminara um trabalho que hoje deve constar da rotina de serviço. Se fossemos aqui enumerar os atributos da companheira que ora homenageamos, teríamos que citar uma seqüência de seus defeitos. Marly partiu muito cedo e levou a maior parte de sua existência num longo e penoso sofrer. Creio que, se o sofrimento purifica as almas de passagem pela terra, nossa querida companheira deve ocupar agora um lugar de maior destaque junto aos espíritos mais evoluídos, mais iluminados ou mais santificados.

Na gestão do então Diretor do Hospital Jesus, Dr. Issac Fares Abraão, reconhecida a imperiosa necessidade de instalações condignas para o trabalho escolar, foram cedidas 5 salas destinadas à radiologia e que não estavam em funcionamento por falta de requisitos técnicos, possibilitando então a prática de todas as atividades extracurriculares como teatro, bandinha, canto e atividades manuais chegando até a um artesanato com bazar permanente no hospital. A criação deste espaço ofereceu-nos a oportunidade de receber mais duas professoras: Yolanda da Rocha Silva e Marlene de Souza Carpena Amorim. O fruto do trabalho das crianças permitiu tal rendimento que, em 1963, os alunos puderam, em sua esmagadora maioria, fazer depósitos razoáveis no Banco Lavourinha, cuja entrega de cadernetas foi realizada oficialmente com a presença de autoridades do Banco e do ensino.

No ano de 1963, a escola atingiu seu apogeu com a vinda de mais 2 professoras: Yeda Costa Lessa e Gloria Augusta de Paiva, aumentando assim o quadro para 6 professoras, número este que possibilitou um atendimento escolar ainda melhor.

Com a substituição do Dr. Isaac Fares Abraão pelo Dr. Deyler Goulart Meira, iniciou-se a remodelação do setor médico, incluindo-se as salas da Radiologia, que nos foram pedidas. Nessa ocasião foi-nos prometido pelo mesmo diretor que, do plano de melhorias do hospital, faria parte o setor escolar. Dois anos passados e terminada a remodelação do hospital, continuaram as professoras aguardando o cumprimento da promessa, com visível prejuízo da realização do trabalho e conseqüente baixa do rendimento escolar.

Acreditamos que o aparente desinteresse pelo assunto, ocorra pelo desconhecimento dos verdadeiros propósitos do nosso trabalho, cujos objetivos não são apenas levar aos deficientes conhecimentos escolares fundamentais mas, contribuir para sua recuperação integral, educando-os e preparando-os para a vida em comunidade. Naquela época alegou o Sr. Diretor que o número de doentes internados por tempo prolongado, encontrava-se sensivelmente diminuído, conservando-se a maioria por poucos meses o que não explicaria a permanência de uma escola como chegamos a ter. Tal argumento carece de fundamento, pois nos países cultos, a assistência educacional à criança hospitalizada é ponto pacífico. Podemos citar como exemplo a Inglaterra e diversos estados norte-americanos onde há um corpo de professoras itinerantes para atendimento domiciliar ao deficiente físico, assim como também ocorre em alguns estados brasileiros. E isso para não se falar no que estabelece a Constituição do Estado da Guanabara em seu artigo 60: "A educação dos excepcionais será objeto de especial cuidado e amparo do Estado, assegurada ao deficiente a assistência educacional, domiciliar e hospitalar". Ainda, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, determinada em seu artigo 88 que a educação de excepcionais deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de educação a fim de integrá-los na comunidade.

Nada mais justo que o apelo considerando-se a quase impossibilidade de um trabalho qualitativamente produtivo nas condições em que se desenvolviam as atividades escolares no referido hospital.

Nesta mesma ocasião deixei de labutar junto às crianças e fui coordenar o serviço nos hospitais do Estado assim coimo nas escolas, que solicitavam orientações para alunos deficientes físicos.

Hoje, graças aos Céus e à dedicação de nossas colegas, já podemos fazer melhores colheitas com a ínfima semeadura que lançamos.

Rachel Perrone da Silva (ex-diretora da Classe Hospitalar Jesus)

O meu interesse pelo trabalho em Classe Hospitalar existia desde minha adolescência em virtude de minha mãe que era professora de música, trabalhar como recreadora no Hospital Jesus.

Do início de 1965 ao final de 1973 trabalhei como professora. Nesse período a Classe funcionava com uma equipe composta por 1 coordenadora e 6 professores. A clientela era de alunos de 6 à 14 anos de Classe de Alfabetização à 4ª série do 1º grau, internados nas diversas clínicas do hospital, apresentando os seguintes problemas: Seqüela de poliomielite, Deficiências congênitas, Clínicos, Neurológicos, Cirúrgicos, dentre os mais freqüentes. O período de internação era longo, às vezes vários meses e com repetidas reinternações.

O tipo de atendimento – pedagógico curricular era normal, de acordo com as necessidades dos alunos, adaptados as suas limitações. As atividades pedagógicas eram ministradas nas salas de aula (que funcionavam em dependências adaptadas do prédio do ambulatório) e nos leitos para os alunos que não podiam se locomover. Além da programação básica curricular, os alunos também tinham aulas de religião (dadas por uma catequista da paróquia da comunidade), de música (dada por uma recreadora), atividades de biblioteca e auditório (leitura de histórias e atividades decorrentes, pesquisas, teatro, além de empréstimo de livros).

Durante 5 anos, trabalhei com regência de turma de Classe de Alfabetização à 4ª série; nos outros 4 anos, como Professora de Atividade de Biblioteca e Auditório. De 1974 ao final de 1977, me ausentei da Classe Hospitalar Jesus, passando a trabalhar em Equipes Técnicas de Educação Especial, sendo que nos dois primeiros anos atuei como Supervisora de Deficientes Físicos integrados em turmas comuns de 1º grau, e nos outros dois anos organizei e coordenei a Equipe Técnica de Educação Especial (ETESP) do Distrito Educacional da Tijuca. Essas equipes multiprofissionais eram responsáveis pela Triagem, Avaliação e Acompanhamento do Atendimento da Educação Especial, e eram formadas por Supervisoras, Psicólogas, Assistentes Sociais e Fonoaudiólogas.

Em março de 1978, assumi a direção dessa escola e permaneci no cargo até agosto de 1986. Nesse período, o Hospital Jesus encontrava-se em obras, inclusive com um projeto para as instalações da escola. Devido à essas obras, o número de leitos do hospital foi reduzido substancialmente. As obras duraram uns 2 anos.

A partir de 1984, iniciou-se o atendimento precoce com crianças de 0 à 4 anos. Os problemas da clientela eram os mesmos já citados anteriormente, apenas diminuiu consideravelmente o número de portadores de seqüelas de poliomielite, devido às campanhas de vacinação adotadas pelo governo, à partir de 1976.

O período de internação dos pacientes foi reduzido em virtude da política de dinamização dos leitos hospitalares. Paralelamente ao atendimento de turma, a partir de 1982 foi criado pela equipe da escola o PROJETO BARRAM, no qual cada uma das atividades ficava sob a responsabilidade de uma professora que dava atendimento nas diversas turmas. O nome BARRAM surgiu devido às atividades que eram desenvolvidas. B – Biblioteca, A – Artes, R – Recreação, R – Religião, A – Artesanato e M – Música. O planejamento desse projeto era feito semanalmente em conjunto pela equipe, procurando-se seguir o Calendário Cívico Escolar e inserindo-se atividades decorrentes no desenvolvimento do conteúdo curricular comum.

Além das atividades desenvolvidas em sala de aula, procurava-se proporcionar à clientela festividades relativas ao Calendário Cívico Escolar, atrações como apresentação de Teatro Infantil, Mágicos, Palhaços, etc. Também eram feitos passeios, tais como: ao Jardim Zoológico, Parque da Cidade, Passeio de Metrô, etc.

A escola sempre procurou manter um excelente relacionamento com a Direção do Hospital Municipal Jesus e um entrosamento com os diversos serviços desse estabelecimento.

A meu ver, as principais qualidades para o profissional que pretende trabalhar em Classe Hospitalar é que, além de ter uma excelente formação profissional, tenha equilíbrio emocional e sobretudo muita sensibilidade para perceber as reais necessidades da clientela e o progresso dos educandos.

Aparentemente nem sempre sente-se a exata dimensão do resultado desse tipo de trabalho, devido ao curto período da atuação do profissional com a criança, porém, as sementes são lançadas e criam raízes profundas que com certeza contribuirão muito para o desenvolvimento integral do educando, a superação de suas dificuldades e para o aumento de sua auto-estima. Isso certamente lhes dará a força necessária para enfrentar as dificuldades inerentes de suas limitações e da própria vida.

Como exemplo do resultado do trabalho desenvolvido pela escola gostaria de citar um caso: Foi internada no Hospital Jesus uma adolescente que estava fora da faixa etária da escola e que também já tinha escolaridade acima da ministrada pela Escola Hospital Jesus. Ela tinha feito uma cirurgia de coluna e sentia-se muito angustiada por estar presa à um leito, afastada de sua família e de suas atividades normais. Procuramos dar-lhe uma atenção fazendo empréstimos de livros e material para desenho, pois ela nos informou que gostava muito de desenhar. Assim, ela procurou se ocupar com essas atividades e passou a ficar mais tranqüila. Depois de sua alta ela ligou um dia para mim e falamos rapidamente. Uns tempos mais tarde, enviou-me a seguinte carta:

Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1981

Para a amiga Rachel,

Tudo bem? Não sei se você lembra de mim. Faz tempo que eu saí do hospital e nunca mais nos correspondemos, só no dia que eu telefonei para aí e você ia saindo, lembra que eu operei a coluna?

Pois é, agora estou boa, só vou aí em novembro (no hospital). Já participei de um concurso de desenho e ganhei 1º lugar do colégio, e dos 26 colégios associados ao SEI. O tema foi "O que eu mudaria no mundo".

Um abraço.

Milena

 

Nessa carta sentimos a importância da escola para essa adolescente. Com o desenho que ganhou o prêmio demonstrou que ela estava redesenhando o seu próprio mundo, reiniciando uma nova fase de sua vida.

Espero que os profissionais que atuam nas Classes Hospitalares possam, à partir desse Encontro redesenhar seus mundos visando um melhor atendimento para seus educandos, colaborando para que a clientela que atendem possa redesenhar seus próprios mundos, visando uma vida melhor.

 

Leila Ozon Imbrosio (ex-diretora da Classe Hospitalar Jesus)

A minha vida profissional na Classe Hospitalar Jesus aconteceu no período entre abril de 1986 a janeiro de 1992, quando me aposentei. Posso dizer que foram seis anos de muito trabalho, dedicação, aprendizado e partilha.

Em 1986 a classe funcionava como Escola Hospital Jesus, ligada administrativamente ao, na época, 14o Distrito de Educação e, pedagogicamente, ao Instituto Helena Antipoff, órgão também da Secretaria Municipal de Educação. Inicialmente fui designada como diretora-adjunta, trabalhando diretamente com a Professora Rachel Perrone que era, então a diretora da Escola. Fiquei nessa função durante 6 meses, tempo que Rachel preparava-se para se aposentar. Aprendi muito pois não tinha vivência de classe hospitalar e precisava adaptar-me às exigências que envolviam uma "escola diferente" já que funcionava dentro de um hospital, tinha atendimento bastante distinto daqueles desenvolvidos nas escolas regulares.

Rachel aposentou-se e eu assumi a função de diretora. Havia naquela época uma equipe profissional de excelência composta por uma diretora-adjunta, 1 secretária, 10 professoras altamente gabaritadas e 1 funcionário de apoio. Após alguns ajustes e conhecimento pleno das capacidades e limitações de cada um, a Escola, posso dizer, funcionou de maneira eficaz e produtiva, onde cada profissional completava o outro e todos trabalhavam em sintonia. Posso afirmar que fomos todos escolhidos por Deus para juntos crescermos neste trabalho.

A nossa maior preocupação era o atendimento à criança de forma plena. Procurávamos mostrar-lhe que ela, apesar de seus problemas de saúde, era capaz de apreciar as belezas da vida, sentir alegria em pequenas coisas, participar com os outros, sorrir, brincar, viver ...

Neste período a Escola funcionava com 4 salas de aula e em 6 enfermarias, dentre as quais, Ortopedia, Neurologia, Cirurgia e Clínica Médica. Nestas enfermarias, atendia-se aos alunos impossibilitados de se locomover assim como aos bebês, no então chamado Atendimento Precoce ( 0 a 2a11m). Especificamente aí, as professoras procuravam envolver os pais, mostrando-lhes a maneira educacional de minimizar os problemas ocorridos no desenvolvimento, devido aos períodos prolongados de internação, à ausência de estímulos ou até mesmo à desnutrição. Nesta ocasião a Escola preocupou-se com um atendimento mais humanizado e, através de doações, construiu em duas das enfermarias um espaço destinado aos alunos que não tinham condições de se locomoverem para as salas de aula. Desta forma, também a socialização poderia ocorrer mais facilmente, com as professoras trabalhando em pequenos grupos.

Voltando ao atendimento feito nas salas de aula, desenvolvíamos o Projeto BARRAM, já mencionado pela Professora Rachel, onde a aprendizagem acontecia de forma dinâmica, rica, viva e cheia de oportunidades de novas vivências.

Falando em novas vivências, percebíamos que nossos alunos, apesar das limitações causadas pelos seus problemas de saúde, eram crianças vivas e precisavam de estímulos múltiplos para desenvolverem suas potencialidades. Desta forma não foram poucas as oportunidades de enriquecimento que a eles oferecemos. Várias excursões foram feitas (Museu do Índio, Jardim Zoológico, Parque Lage, sessões de cinema, etc.). Nada disso era feito sem o consentimento da família e da Direção do hospital. Éramos sempre acompanhados por pais dos nossos alunos e por enfermeiras do hospital. Engraçado era o que percebíamos: muitas vezes os adultos admiravam-se com as descobertas e viviam intensamente estas novas experiências.

Interessante se faz ressaltar o ambiente de respeito que ocorria entre os profissionais de saúde e os de educação. Cada um desenvolvia sabiamente seu trabalho e de forma alguma um não interferia nos objetivos do outro. Pelo contrário, temos certeza que ambos completavam-se, pois sentia-se perfeitamente, os avanços ocorridos em cada criança.

Todo o trabalho desenvolvido pela escola era estudado, avaliado, documentado. Cada aluno tinha sua Ficha de Avaliação e ao final do período de internação, verificávamos criteriosamente se os objetivos relacionados para cada um tinham sido atingidos. Recorríamos também à esta ficha toda vez que a criança voltava a se internar. E, então, relacionávamos novos objetivos, após observação do comportamento de cada um.

Procurávamos manter bom relacionamento com as famílias e promovíamos dentro da Escola festinhas de aniversários, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia da Criança, Natal, ...

Documentávamos qualquer evento tirando fotos, fazendo relatórios e, até hoje, este material faz parte do arquivo da escola.

Não sei se , durante esta nossa conversa, consegui passar para vocês todo o entusiasmo, crescimento humano e profissional, consciência do dever cumprido, que me envolveram nestes 6 anos de convivência na Escola Hospital Jesus. Muito aprendi com as professoras, com os alunos e com todos que se dedicavam a este trabalho.

Passei a ver a vida com outros olhos. Com olhos abertos para a esperança, para a solidariedade, para o companheirismo. A cada dia aprendia com as crianças lições de vida, pois mesmo internadas num hospital, presas a um leito, respondiam satisfatoriamente ao trabalho desenvolvido pela escola, demonstrando através de comportamentos observáveis que lhes proporcionávamos vida, aprendizado, crescimento.

Agora aposentada, morando em outro município, separei-me fisicamente deste ambiente. Mas meu coração não esqueceu dos "especiais". Dedico-me à Catequese Especial preparando crianças, adolescentes e adultos portadores de necessidades especiais para a Primeira Comunhão.

Desde a hora em que se descobre como é rico este convívio, nunca mais nos separamos dele. Haja visto hoje estarmos aqui reunidos para trocarmos experiências, aprendermos mais, crescermos como pessoas.

 

Vivendo a escola no ambiente hospitalar

Lucíola Valadão Moreno Ribeiro

Wesley Moreno Ribeiro

 

Lucíola Valadão Moreno Ribeiro (mãe de ex-aluno de classe hospitalar)

Agradeço a oportunidade de estar aqui para dizer um pouquinho do quanto a escola no hospital ajudou a meu filho e, sem dúvida, ajuda a qualquer criança hospitalizada.

A lembrança mais marcante que tenho em relação a Classe Hospitalar Jesus diz respeito ao contato de meu filho, Wesley Moreno Ribeiro, por poder participar destas atividades já na idade de um ano mesmo sendo portador de uma colostomia. Lembro-me que a professora dele era sempre muito cuidadosa e carinhosa e havia chegado na enfermaria para buscá-lo para a escolinha. Nesse dia nos não tínhamos gaze e por isso sua colostomia estava com fezes e falei com a professora que achava que ele, pelo fato de não ter sido possível trocar a colostomia, não estava em condições de participar da escolinha. Naquele momento foi claro e evidente que aquela criança, meu filho, fez uma cara feia e se sentiu repreendido porque tudo o que mas queria era ir a escola. A professora, então dirigiu-se a enfermeira perguntando se haveria problema do menino ir para escola sem a troca da colostomia. A enfermeira considerou que tal fato não seria problema e então disse a mim: mamãe, isso não vai impedi-lo de participar das atividades da escola. E Wesley, no colo da professora como se estivesse sentado num trono real, seguiu radiante para mais um dia de atividades na classe hospitalar. Eu nunca me esqueci disto por se tratar de uma situação que a maioria das pessoas, profissionais ou não, não da atenção e ate evita se de um paciente se encontra em mas condições de higiene.

Houve uma época em que o local onde a escolinha funcionava se encontrava em obras o que fez com que esta se mudasse para uma pequena capela situada nos fundos do hospital. Quando o Wesley se internou, logo perguntou: mãe, não tem mais escolinha? Mas certamente que havia escola e, apesar das condições precárias, as professoras se esforçavam para continuar proporcionando o melhor para os alunos. E com isso meu filho tinha seu tempo tomado da realidade da tristeza, de dor, de sofrimento que ele sempre passava no período de internação. Temos então que ser profundamente gratos por tudo. Sou uma defensora da classe hospitalar. E sempre que a escolinha precisar estarei pronta para responder para falar e advogar em favor desse serviço do Hospital Jesus. Todas as mães precisam muito da escolinha, dessa parceria que de desenvolve e contribui para levantar o astral de nossos filhos, fazer com que eles sintam vontade de viver, e saiam mais rápido do hospital.

Quando ele se hospitalizou após ter concluído a quarta série do ensino fundamental, ficou meio triste e aborrecido porque achava que como a classe hospitalar só atendia até a quarta série ele não mais poderia participar das atividades. Então ele disse que iria participar assim mesmo, mesmo já sabendo dos conteúdos abordados pela professora pois poderia revisar e ajudar a algum coleguinha que estivesse mais atrasado ou com alguma dificuldade. Acho que ele nunca aceitaria o fato de não ter escolinha no hospital: a classe hospitalar é tudo na vida dele. Posso afirmar que a possibilidade de poder participar das atividades da classe hospitalar quando em tratamento no Hospital Jesus era o que mais o incentivava para que pudesse cooperar com o tratamento, muitas vezes doloroso.

A professora em sua simplicidade sempre dizia que trabalhava com as crianças tentando proporcionar-lhes o que elas pediam ou necessitavam. Para ela ser assim era mais do que normal, quase uma rotina. Mas para meu filho cada movimento da professora deveria ser como o mais lindo dos balés, cada atividade proposta como a mais fantástica mágica, cada palavra da historinha contada a mais pura melodia. Ele vivia um encantamento cada vez que participava das atividades da classe hospitalar. E cada um destes momentos o fazia mais e mais feliz e dava-lhe forças para continuar o tratamento médico.

A classe hospitalar também ajuda na interação entre as crianças da enfermaria. O Wesley sempre falava para as crianças recém-internadas sobre as atividades da classe hospitalar. No reloginho das crianças hospitalizadas parece só existir o horário de 13 horas, que é quando a professora chega na enfermaria e parece que o mundo deles muda. E no dia seguinte, tudo isso acontece novamente. Eu acredito que Wesley não teria tanta força de vontade para voltar ao hospital se fosse apenas viver as experiências ligadas as cirurgias e ao tratamento sem ter a escolinha. A classe hospitalar contribuiu muito para o desenvolvimento dele: psicológico e intelectual. Socialmente, ele também se integrou muito bem no ambiente hospitalar por conta das mediações proporcionadas pela escola.

Ele continua gostando de estudar e diz que quer ser arquiteto. Ele está desenhando muito bem. Vamos ver que vocação ele tem e que profissão vai abraçar no futuro. E a escola o ajudou nisso pois mesmo que não trouxesse seu material escolar e apetrechos de desenho, a escola e as professoras sempre davam um jeito e ele curtia a chance de continuar fazendo coisas que pareciam não possíveis a quem está doente. A escola lhe proporcionava, assim como às demais crianças, papel, lápis de cor, livrinhos e revistas e isso o ajuda muito. Sem isso posso garantir que ele não ficaria tão bem no hospital.

Com as sucessivas internações de meu filho e seu amor pela escolinha eu fui gradativamente também me "contaminando". Sempre que chegava ao hospital queria logo me informar se a escolinha estava em funcionamento, se as professoras estavam lá, quais estavam, queria sempre vê-las e matar as saudades porque, confesso, sou uma mãe muito grata as professorinhas da escola e sempre que penso e me recordo, me emociono.

As professoras não viam problemas no trabalho que realizavam. Por mais difícil que fosse a situação, estavam sempre disponíveis e criavam estratégias para que pudessem atender às crianças. Meus outros dois filhos, Érica e Wallace passaram a ter a tia Eneida e a tia Paula como tias de verdade, como pessoas da família, de sangue. E passaram, como o Wesley, a amá-las também. A escolinha do hospital contaminou a minha casa com muita afetividade e isso aproximou ainda mais minha família.

Atualmente estou fazendo parte do Conselho Tutelar de minha comunidade. Não é apenas uma iniciativa de meu coração, uma vocação, mas algo a que tenho me dedicado por conta da convivência com a classe hospitalar. Muito e muito do que sigo e até algumas orientações/alguns incentivos que dou foram ganhos da experiência com a escolinha. E assim consigo passar muito da minha vida para as mães inexperientes e ganho muito, aprendo muito.

Hoje já não moramos mais no Rio de Janeiro e sim no Espírito Santo mas não nos impediu de participar pois nos é um grande prazer prestar este depoimento que nos emociona e revigora pois muitas das lembranças são tão felizes que também nos dão forças para continuar, nos asseguram que nesta caminhada de anos pelo tratamento médico de um filho não estávamos sozinhos e pessoas dentro deste ambiente hospitalar por serem ternas e sensíveis colaboraram e ainda hoje colaboram para que possamos ver a situação de forma mais amena.

 

Wesley Moreno Ribeiro (ex-aluno de classe hospitalar)

As lembranças que tenho da Classe Hospitalar Jesus são muitos boas. Sempre que eu me internava eu também precisava muito da escola que me ajudava nas tarefas de estudo, principalmente antes de concluir a 4a série do ensino fundamental. Eu precisava muito da ajuda das professoras daqui para não esquecer as matérias e com e por isso eu não fiquei reprovado nesta séries.

Antes da escolaridade formal eu aprendia muito com as atividades da educação infantil. Embora fosse ainda muito pequeno, me lembro das músicas, das brincadeiras e experiências e das muitas atividades cheias de criatividade pois a professora tinha idéias "sinistras". Eu também nunca me esqueci da voz da professora.

O apoio da escolinha quando eu estava no hospital foi muito importante para minha escolaridade quando deixava o hospital. Foi muito importante na minha vida pois eu acho que se não tivesse tido a Classe Hospitalar teria sido muito mais difícil ter motivação e acompanhar as coisas de escola. O estar no hospital não era só aquela enjoação de ficar na enfermaria olhando os médicos toda hora para lá e para cá e tomar remédios. Eu sabia que ia ter algo legal para fazer: ir à escola após o almoço que era o horário em que ela começava a funcionar. Lembro que em uma época de Páscoa me vesti de coelhinho e saí pelos corredores distribuindo máscaras para as outras crianças.

Muitos tem pavor de hospital. Mas quando se chega em um e se encontra professoras é um sentimento que marca mesmo. Quando chegavam as professoras havia aquela animação: Ah. ... eu vou lá, vou escrever, vou desenhar, vou brincar, vou aprender e vou sarar. E sentir todas estas coisas é muito bom.

Quando eu estava em casa sempre lembrava da escola do hospital e comentava com meus irmãos e eles achavam legal. Eles queriam estar lá. Meu irmão uma vez disse que queria quebrar a perna para ir para o Hospital Jesus. Uma vez ele até chegou a pensar que tinha um problema de garganta pois ele falava muito grosso/forte e aí ele falou: me leva pra lá, que eu quero operar e ir na escolinha.

Ter a escola no ambiente hospitalar é muito melhor. Digo isso porque eu já fiquei em hospital que não tinha esta oportunidade e faz uma diferença muito grande quando chega o horário em que a gente deveria estar na escola e não se pode ir porque se está no hospital. Mas a gente lembra que deveria estar estudando, fazendo as atividades, se divertindo com os colegas. E se o hospital não tem escola a gente tem que ficar só no pensamento. Se há uma classe hospitalar, tudo muda e a gente se sente sem doença nenhuma. Eu acho que quem nunca experimentou isso deve pensar ser muito chato estar num hospital.

A escola consegue distrair a gente do problema que a gente tem e faz com que usemos nossas energias em coisas que vão nos fazer melhorar. É muito bom ter uma escola no hospital: é bom demais! Se eu tivesse a oportunidade de estudar naquela escola quando não estava hospitalizado, teria sido super-legal. Quando eu estava na escola perto da minha casa eu estudava lá e estava tudo bem. Quando eu ia para o hospital eu via a professora também como uma explicadora, alguém que poderia ajudar nas minhas dúvidas da escola, assim eu nunca esqueci das matérias, e aqui revia o que lá não aprendia ou parecia difícil de entender ou chato para colocar dentro da cabeça. A professora do hospital "pegava no pé", ensinava mesmo, fazia atividades diferentes e assim eu nunca esqueci das matérias estando fora da minha escola pois sabia que tinha escola no hospital para que eu aprendesse de verdade.

O espaço da escola também é importante porque como temos um monte de idéias na cabeça, podemos trocá-las com os colegas de turma e isto é bom. É bom a gente falar sobre o que a gente pensava e passava. Eu falando do que eu passava e o outro falando do que ele passava. Ele dando idéias para que eu superasse o que achava difícil e eu também dando idéias novas para ele. A gente ficava mais relax. Eu acho que a cabeça que eu tenho é uma soma das experiências de minha vida, do apoio da minha família e das vivências com a escola no hospital e as crianças com as quais convivi tanto na sala de aula quanto na enfermaria. Minha mãe me ensinou muitas coisas lá de fora mesmo eu estando dentro do hospital. Eu acho que tudo isso fez com que eu tivesse um pensamento assim mais maduro e ao mesmo tempo brincalhão, uma mistura que ajuda a superar as operações.

Hoje moro no Espírito Santo mas quando me internei pela primeira vez morava em Volta Redonda. Fiz umas 40 cirurgias. Eu internei em 5/8/83 e nasci no dia 9 de julho do mesmo ano. Eu nem tinha ainda um mês de idade e já estava internado. Atualmente, participo de um conjunto musical com colegas da escola num projeto da própria escola que funciona mais nas férias pois não dá para se concentrar só nisso durante o ano letivo pois se tem que pensar nos estudos. Acho que este meu interesse por música tem a ver com a escola do hospital. Lembro da bandinha e era divertido mexer nos instrumentos e cantar. As professoras colocavam a gente para dançar e também colocavam discos com historinhas. Eu também gosto de desenhar.

Gostaria de agradecer a quem pôs a escola no hospital, pois é um ensino divertido e ótimo para todas as crianças.

 

Construindo possibilidades entre o hospital e a escola

Vania Loureiro Silva

 

A Rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor é uma Rede de hospitais públicos que prestam serviços de ortopedia e de reabilitação. Atualmente é constituída por quatro unidades hospitalares localizadas em Brasília (DF), Salvador (BA), São Luís (MA), Belo Horizonte (MG) .

O atendimento pedagógico é realizado por professores hospitalares, de artes e de educação física.

Em se tratando de um Centro de Reabilitação, a Rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor, se norteia por alguns princípios, a saber:

- "atuar na sociedade para prevenir a incapacidade e a deformidade, combatendo, ao mesmo tempo, preconceitos quanto à deficiência física, pois o que caracteriza a vida é a infinita variação da forma que no tempo muda" e

- "defender o princípio de que nenhum homem pode ser discriminado por ser diferente da média em sua forma física ou maneira própria de realizar uma atividade".

Partimos do conceito de reabilitação como o desenvolvimento de uma pessoa até o mais completo potencial físico, psicológico, social, profissional, educacional, compatível com seu comprometimento fisiológico e limitações ambientais.

Na reabilitação busca-se aumento da independência, melhora da qualidade de vida e a integração familiar e social.

No que diz respeito as crianças, a integração social está associada à inserção escolar.

Em relação a escolarização, o compromisso dos educadores no contexto hospitalar não é apenas com a inserção e reinserção escolar, mas fundamentalmente com o sucesso escolar de nossos pacientes.

A especificidade de um paciente em reabilitação marca uma mudança na sua forma de interagir no mundo e não na sua potencialidade humana. Essa diferença pode implicar numa singularidade na sua forma de comunicação e no seu processo de aprendizagem. Trabalhar afirmando o que os pacientes são capazes de realizar, ou seja, investir nas suas potencialidades, contribui para RESSIGNIFICAR essas diferenças.

Através de intervenções psicopedagógicas os educadores podem contribuir na descoberta e no desenvolvimento das potencialidades dos pacientes e para que a diferença seja percebida como mais uma possibilidade no universo plural da existência humana e, não como a marca da falta, da desvalorização e do preconceito.

Sendo assim, a função do educador no hospital é oportunizar diferentes situações significativas de aprendizagem que contribuam no processo de reabilitação e consequentemente no desenvolvimento dos pacientes.

Na história da educação das pessoas com necessidades educativas especiais, pode-se identificar quatro fases: exclusão, segregação, integração e inclusão.

Atualmente a educação discute e aprofunda a concretização da inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais na escola regular. Esta proposta preconiza a educação para todos propondo uma escola adaptada para todas as diferenças humanas.

A educação inclusiva situa-se no contexto da sociedade inclusiva, uma sociedade centrada nas pessoas, que respeite a dignidade e as diferenças de todos os seres humanos. A Declaração de Salamanca elaborada na Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas Especiais: acesso e qualidade, ocorrida na Espanha em 1994, constitui-se como um marco para a educação inclusiva. Suas orientações apontam para uma reformulação da escola, que deve adaptar-se a todas as crianças sem exceção, inspirando-se no princípio de que todas as diferenças humanas são normais. As escolas devem reconhecer as diferenças, acolher todos, promover aprendizagens e atender às necessidades de cada um.

Considerando este contexto da inclusão, a parceria educação/saúde se reafirma como meta indispensável, possibilitando a articulação entre as equipes de saúde e educação.

Sendo assim, os programas de reabilitação infantil do Hospital Sarah/BH vem atuando junto as escolas e Secretarias de Educação, buscando contribuir para o processo de inserção e reinserção escolar das crianças e a formação dos professores.

Nestes encontros as estratégias utilizadas são: seminários, discussões de casos, reuniões pedagógicas com toda a escola, acompanhamento de atendimentos no hospital, visitas escolares, grupos de estudo e fórum de saúde mental.

Essa parceria entre a saúde e a educação, ou seja, entre o Hospital e a escola vem acontecendo de duas formas:

1. Atendimento pedagógico durante o período de internação dos pacientes envolvendo atividades de acompanhamento escolar, hora do conto, recreação, jogos, artes, etc. Estas atividades objetivam minimizar os efeitos da hospitalização na medida em que atendem as necessidades básicas de desenvolvimento das crianças hospitalizadas, possibilitando também que a criança mantenha o vínculo com sua vida, sua rotina fora do hospital. Em relação as atividades escolares, a possibilidade da criança estudar no hospital evita a defasagem de conteúdos e uma possível exclusão escolar. Algumas vezes precisamos esclarecer famílias e escolas sobre o direito legal das crianças estudarem no seu período de hospitalização. Muitas crianças perdem o ano pelas faltas e algumas vezes a escola não libera o material do aluno para que ele possa estudar no hospital. Algumas escolas chegam estimular que a criança desista daquele ano e que só recomece os estudos quando liberada do tratamento clínico.

Por ser um hospital de reabilitação algumas crianças irão retornar à escola após um trauma ( medular ou cerebral ) e portanto, às vezes, serão necessárias algumas adaptações da escola para estar recebendo a criança. Estas adaptações (mobiliário, escrita, locomoção, AVDS, etc) serão orientadas na escola pela equipe que acompanha a criança.

2. Acompanhamento pedagógico para as crianças que são atendidas em sistema ambulatorial.

Nestes atendimentos a equipe orienta a família sobre a importância da inserção escolar da criança, o mais cedo possível. Consideramos que a escola através de suas atividades estará solicitando as estruturas cognitivas da criança e portanto contribuindo para seu desenvolvimento. Também reafirmamos para a família a importância das crianças conviverem com as diferenças humanas desde cedo como fator fundamental para a formação da sua cidadania. Um dos objetivos deste trabalho é acompanhar a criança na sua escolarização, oferecendo suporte para a equipe escolar em relação ao esclarecimento do diagnóstico, prognóstico, orientação quanto as adaptações e materiais necessários e sugestões de intervenções psicopedagógicas adequadas as suas necessidades. Temos atuado junto as Secretarias de Educação e escolas buscando contribuir no processo de formação dos professores neste contexto da escola inclusiva.

Como educadores consideramos fundamental esta parceria entre saúde e educação para contribuirmos na concretização de uma escola de qualidade, igualitária, justa, acolhedora para todos, uma escola adaptada a humanidade real.

Vania Loureiro Silva é Pedagoga do Hospital Sarah de Belo Horizonte, Minas Gerais.

OFICINAS

Planejando, desenvolvendo e avaliando o trabalho na classe hospitalar

Eneida Simões da Fonseca

 

Para efetivamente, planejar, desenvolver e avaliar nossas atividades na classe hospitalar (ou mesmo em qualquer outro local de ensino) precisamos estar cientes de que:

- o tempo de aprender é o tempo do aluno;

- a interação entre as crianças é tão importante quanto a mediação do professor nas atividades desenvolvidas;

- a sala de aula tem o tamanho do mundo e, no caso da sala de aula da classe hospitalar, serve de mediadora à possibilidade da criança de plugar-se com o mundo fora do hospital;

A classe hospitalar permeia-se de uma ecologia particular e é, dessa forma, exemplo de atenção a diversidade.

O profissional do atendimento escolar hospitalar precisa estar comprometido com seu papel naquele ambiente e sua presença para a criança que atende como aluno é muito importante. Imprevistos ocorrem mas, o professor não pode ser mais uma incerteza na vida da criança hospitalizada.

A observação é o meio pelo qual obtemos informações sobre algo. O professor da classe hospitalar deve treinar-se para observar (evitar colocações tendenciosas). Aquilo que o professor observa e registra durante um período de observação deve ser o mais próximo possível do que realmente esteja acontecendo no ambiente em que a observação acontece. O professor pode e deve exercitar o hábito de, entre uma atividade e outra ou quando o grupo parece mais concentrado ou trabalhando de forma mais independente, usar esses momentos para fazer os registros, sempre tendo em mente:

- o porque está anotando;

- que objetivo têm com isso;

- a que quer responder com o registro do que foi observado;

- se o registro retrata o mais fidedignamente, e com o mínimo possível de inferências e preconceitos, o que foi observado.

Em geral, não se tem que registrar tudo, até porque não é algo simples de ser feito. Mas o professor pode atentar para situações específicas de uma proposta que, por exemplo, tenha feito ao aluno. Como tudo na vida, observar se aprende vivendo este processo em toda a sua abrangência ou seja, observando.

Para um efetivo atendimento pedagógico-educacional hospitalar, é importante estar ciente e exercitar a premissa de que cada dia de trabalho na classe se constrói com atividades que tem começo, meio e fim quando desenvolvidas. A classe hospitalar deve estar disponível à criança. Se a criança precisa sair antes estratégias de fechamento para concluir o que estava fazendo e que, havendo possibilidade, poderá retornar à mesma mais tarde ou no dia seguinte. Se a criança chega depois estratégias de inclusão para não se sentir perdida dentro do que está acontecendo na sala de aula e sim, perceba que é um elemento importante e que sua chegada e participação não apenas acrescentam ao desempenho do grupo mas vai além, é fundamental; isto deve ser uma afirmativa e não apenas uma polida e paliativa desculpa. O trabalho diversificado é relevante na sala de aula.

O espaço físico utilizado pelo professor deve ser cuidado. Se o professor não dispõe de espaço físico próprio pode criar um ambiente de escola até mesmo em um cantinho da enfermaria, colocando em exposição os trabalhos das crianças.

A avaliação do trabalho é contínua. Ë preciso estar atento para o fato de que a criança não trabalha de forma isolada; contrai novos conceitos, reformula-os e os aprimora diante das trocas que faz com o professor e os colegas. E isto é o exercício claro da zona de desenvolvimento proximal (Vygotsky) de cada um dentro do contexto de sala de aula, mesmo que no ambiente hospitalar.

Brinquedos e brincadeiras no trabalho pedagógico com bebês

Aidyl Macedo de Queiroz Pérez-Ramos

Eneida Simões da Fonseca

 

Aidyl Macedo de Queiroz Pérez-Ramos (UNESP e USP – SP)

Nesta oficina apresenta-se, discute-se e realizam-se exercícios práticos sobre o uso do kit Brinquedos e Brincadeiras para crianças do nascimento aos dois anos de vida (Pérez-Ramos & Pera, 1995).

Trata-se de um recurso de natureza pedagógica destinado aos profissionais que atendem a criança nos seus primeiros anos (psicólogos, psicopedagogos, educadores, terapeutas ocupacionais, pediatras, entre outros) e também aos pais. É recomendado o seu emprego no ambiente do lar, nas creches, nos postos de saúde e em hospitais, como nos alojamentos conjuntos e unidades pediátricas, principalmente. É valida sua inclusão nos programas pedagógicos hospitalares como tem sido comprovada a sua aplicação por pesquisa realizada pela Dra. Eneida Simões da Fonseca, coordenadora deste Encontro.

O kit é fruto de longa experiência dos autores no campo e também resultado de reflexões sobre contribuições teóricas e de pesquisas relacionadas com o desenvolvimento da criança nos seus primeiros anos, com a estimulação precoce e com a Pedagogia aplicada à primeira infância, entre outros campos da prática educacional.

O kit contém um manual explicativo, um conjunto de materiais lúdicos estimuladores e, também, uma série de fichas orientadoras para o uso desses recursos educacionais. O material consta de várias unidades que inter-relacional conceitos teóricos com estratégias e recursos de ordem prática. Começa com uma visão geral sobre o desenvolvimento infantil nos dois primeiros anos de vida, dentro de uma perspectiva cronológica baseada na abordagem teórica dos desenvolvimentalistas, para facilitar a penetração no processo evolutivo da criança, no qual os autores fundamentam o trabalho. Tais unidades integram cinco etapas do desenvolvimento da criança levando em consideração os progressos mais significativos que vão sendo por ela alcançados: do nascimento aos 4 meses; dos 4 aos 8 meses; dos 8 aos 12 meses; de 1 ano a 1 ano e meio e de 1 ano e meio a 2 anos de idade. Cada uma delas contém uma visão geral desses progressos, seguidos de sugestões de atividades a serem realizadas com a criança, utilizando-se para tal fim, brinquedos específicos. Uma escala de avaliação das suas realizações complementa cada unidade. O jogo de materiais que compõe o kit compreende 28 tipos de brinquedos que são distribuídos conforme as unidades que os referem; o conjunto de fichas, já indicadas, especificam o uso desse material lúdico.

Os resultados da aplicação do kit têm sido promissores, inclusive na situação hospitalar, em relação ao processo evolutivo da criança, na ajuda aos pais e principalmente, como auxílio didático para os educadores que se ocupam de programas pedagógicos nos hospitais e nos centros e postos de saúde.

Referência bibliográfica:

PÉREZ-RAMOS, A.M.Q. & PERA, C. Brinquedos e Brincadeiras para o Bebê: kit para crianças nos seus primeiros dois anos de vida. São Paulo: Vetor. 1995.

 

Eneida Simões da Fonseca

O kit de brinquedos e brincadeiras para crianças do nascimento aos dois anos de vida (Pérez-Ramos & Pera, 1995) foi utilizado durante o ano de 1999 com crianças hospitalizadas. Pretendeu-se assim, verificar a adequabilidade do mesmo à realidade hospitalar e se este recurso era útil ao relatório de desempenho das crianças em especial aquelas portadoras de necessidades especiais permanentes. A analise dos resultados demonstrou um aumento no número de itens no relatório de desempenho das crianças e uma proximidade nesse quantitativo se considerando o grupo de crianças com necessidades especiais com aquelas consideradas normais. Especificamente falando das crianças com necessidades especiais, 27% da variação no número de itens constantes do relatório de desempenho destas dizia respeito à utilização do kit nas atividades pedagógico-educacionais a eles propostas. Este estudo poderá ser consultado em sua totalidade em Fonseca (2000) não sendo necessário duplicá-lo aqui.

Referências bibliográficas:

FONSECA, E.S. Atendimento pedagógico-educacional de bebês especiais no ambiente hospitalar. Revista Temas sobre Desenvolvimento, v.9, n.49, p.9-15, março-abril. 2000.

PÉREZ-RAMOS, A. & PERA, C. Brinquedos e Brincadeiras para o Bebê: kit para crianças nos primeiros dois anos de vida. São Paulo: Vetor. 1995.

 

O jornal na sala de aula

Maria Luiza Steenhagen Mendez

 

Para falarmos no uso do jornal na sala de aula temos que falar em hemeroteca, sua organização e função. O termo hemeroteca (do grego hemera: dia/theke: depósito) quer dizer local onde se guardam e colecionam periódicos, diários e revistas (Buonocore, 1963). Esse termo foi proposto por Enrique Martin, conservador da Biblioteca de Paris, durante o Congresso Internacional de Bibliotecas, em 1900.

Tendo como objetivo uniformizarmos nossa compreensão sobre o termo, a palavra hemeroteca será sempre utilizada para designar uma coleção de recortes de jornais/revistas classificados e indexados, tendo como por objetivo auxiliar a leitura e pesquisa dos usuários, em nosso caso, professores, professoras, alunos, alunas ou funcionários das classes hospitalares.

Essa prática de preservar recortes de jornais com essa finalidade é hoje comum em nossas bibliotecas públicas, sendo que algumas escolas já possuem suas hemerotecas. Nosso objetivo é disseminar esse hábito entre as instituições que participam do Programa de Jornal na Educação O Dia na Sala de Aula. Muitas vezes essas hemerotecas são elaboradas com o único intuito de suprir a carência de atualização de nossas bibliotecas, assim, os assuntos guardados são selecionados visando a complementação do livro didático. No nosso caso, é oportuno ressaltar que a forma atraente que escolhemos para a montagem das hemerotecas tem como principal objetivo: atrair a todos, seduzir, disseminar o interesse pela leitura informativa e de entretenimento. Evidentemente que concomitantemente à elaboração dessa hemeroteca, a escola estará executando o Programa de Jornal na Educação O Dia na Sala de Aula. Nessa perspectiva, a hemeroteca escolar deverá ser elaborada de modo que facilite a consulta de seus usuários e possibilite a leitura e pesquisa para a execução dos trabalhos escolares por parte dos alunos e das alunas e permita ao professor e a professora utilizá-la na aplicação do Programa. Procurando atender essas necessidades, ela deverá ser baseada numa classificação simples, para que o processo de recuperação seja rápido e eficiente.

Projeto Hemeroteca: Apresentação: em grupo os participantes escolhem uma manchete e se apresentam entre si; no grupão dizem os critérios que determinaram a escolha da manchete e cada participante fala o seu nome e de onde veio. A formação dos grupos é determinada pela cor do papel que os participantes receberam. Atividade: Propor aos grupos que escolham uma caixa da hemeroteca e desenvolvam atividades dentro da realidade de cada um. Ao final os grupos apresentam suas atividades aos demais grupos e é passado um vídeo sobre Hemeroteca. A palestrante sugere à organização do encontro que as atividades produzidas pelos grupos, seja organizada e enviada posteriormente a cada participante da oficina. São sorteadas 10 apostilas de Hemeroteca produzidas por professores e professoras do Programa O Dia na Sala de Aula. Avaliação: Preenchimento de uma ficha.

Referência bibliográfica :

BUONOCORE, D. Dicionário de Bibliotecologia. Argentina: Editorial Castellán. 1963.

PALESTRAS

Produzindo Referências em Educação Especial

Maria de Fátima Cardoso Telles

 

A produção de referências em Educação Especial tem como objetivos expandir e melhorar a oferta da Educação Especial no Brasil; divulgar experiências inovadoras e trabalhos relevantes com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais; e, atualizar e orientar a prática pedagógica dos professores nos diferentes níveis e modalidades de educação e ensino.

A Série Diretrizes é constituída de onze volumes contendo informações, sugestões e orientações para a elaboração de planos de trabalho a serem desenvolvidos por estados e municípios.

A Série Institucional divulga textos oficiais relacionados à política educacional da SEESP/MEC e produções de outros órgãos gestores nacionais e internacionais.

Já a Série Atualidades Pedagógicas divulga as ações e os programas da SEESP que também envolve a capacitação de recursos humanos do ensino regular à distância e estimula ações pedagógicas inovadoras.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais dizem respeito às adaptações curriculares não significativas e significativas ou seja, estratégias para a educação de alunos com necessidades educacionais especiais que abrangem objetivos, conteúdos, metodologia e organização didática, avaliação e temporalidade. Os níveis de adaptações curriculares ocorrem no âmbito do projeto pedagógico, no currículo desenvolvido na sala de aula e no nível individual segundo as necessidades específicas (DA, DM, DV, ...) com os objetivos de subsidiar a prática docente e atender à diversidade.

A Revista Integração tem as finalidades de divulgar artigos técnico-científicos sobre Educação Especial através de entrevistas, resenhas de livros sobre o tema e relatos de experiência e formar e capacitar, à distância, os professores e demais profissionais, inclusive pais. A revista tem uma tiragem de 30 mil exemplares para um cadastro nacional e internacional de assinantes com, aproximadamente, 26.400 assinaturas. A revista é composta, administrativamente da Organização Editorial, do Comitê Editorial, Colaboradores e Coordenação Editorial.

O Programa de Capacitação à Distância para Recursos Humanos do Ensino Fundamental é uma realização da SEESP em parceria com a secretaria de Educação à Distância, Secretaria de Ensino Fundamental/MEC. Tem 13 cursos em andamento com participantes nos Estados (MA, BA, AC, RO, PB, PA, AL, MT, PE e AP) e Municípios (São Paulo/SP, Bragança Paulista/SP, São Luís/MA). Os objetivos deste programa são a sensibilização, capacitação da comunidade e envolvimento da sociedade. Os temas são: Deficiência Mental, Deficiência Auditiva, Deficiência Física, Deficiência Múltipla e Altas Habilidades.

O site da SEESP na Internet é: www.mec.gov.br/seesp

 

Classes hospitalares: onde, quantas e por quê?

Ricardo Burg Ceccim

Eneida Simões da Fonseca

Ricardo Burg Ceccim

O reconhecimento de que todas as crianças apresentam necessidades educacionais próprias ao seu desenvolvimento integral implica o reconhecimento de que o projeto terapêutico disponibilizado às crianças hospitalizadas inclui o atendimento pedagógico no ambiente hospitalar durante sua internação para tratamento de saúde.

As necessidades educacionais se traduzem em desenvolvimento psíquico e desenvolvimento cognitivo da criança, assim o atendimento pedagógico realizado no ambiente hospitalar estaria operando com os processos intelectivos (aprendizagens complexas) e processos afetivos (vivências corporais) que, não só não se interrompem frente ao adoecimento e à hospitalização, como ganham contornos próprios dessa experiência.

Entendemos que esta constatação não é novidade na história da melhoria da qualidade da atenção hospitalar pediátrica, entretanto sua sistematização ainda se encontra em uma fase bastante incipiente. Pode-se dizer que, numa primeira visão, o atendimento pediátrico-hospitalar se expressa pelo atendimento às necessidades médicas (o tratamento) e às necessidades de enfermagem (o cuidado), mas, numa segunda visão, esse atendimento se expressa pela atenção integral à saúde e, então, novas necessidades despontam no cenário assistencial.

Entre essas novas necessidades, a proteção emocional e a proteção ao desenvolvimento psíquico e cognitivo passaram a ser objeto de pesquisa psicológica e de pesquisa pedagógica. A proteção emocional tem sido assegurada pela inclusão da família no acompanhamento durante a internação e pela inclusão do apoio psicoafetivo na prática assistencial, efetivados pelo trabalho do assistente social e do psicólogo na unidade de internação pediátrica. A proteção ao desenvolvimento emocional no tocante à intersecção com o desenvolvimento psíquico tem sido assegurada pela inclusão da recreação terapêutica nessas unidades de internação, efetivada pelo trabalho dos recreacionistas (professores de educação física, pedagogos e terapeutas ocupacionais). A proteção ao desenvolvimento cognitivo tem sido postergada na maioria das vezes, mas a proposta de classes educacionais em ambiente hospitalar viria preencher essa lacuna. O atendimento pedagógico, por operar com as aprendizagens complexas e com a mediação didático-educativa, próprias do trabalho escolar, traria ao ambiente hospitalar a garantia de proteção ao desenvolvimento psíquico e cognitivo, apropriando recursos de ensino-aprendizagem no projeto terapêutico.

Na história, o hospital tem sido apontado como ameaçador do crescimento e desenvolvimento integral de criança pela exclusão da família, do brincar, dos amigos, da rua e da escola. As medidas registradas na história para contornar e modificar esse quadro foram a introdução de visitas mais freqüentes e longas dos familiares, a permanência de um dos pais por tempo integral, a constituição de enfermarias pediátricas com decoração e móveis apropriados à infância, a instalação de salas de recreação e trabalho recreativo no leito, a introdução de terapias recreativas e desenvolvimento de classes escolares hospitalares.

As pesquisas mais freqüentes sobre a hospitalização na infância apontam um quadro de lesões psicológicas expressas pela vivência do abandono, medo, perda e ruptura do apego, entre outros registros, mas a pesquisa bibliográfica praticamente não registra a ocorrência de lesões pedagógicas. Cada vez mais claras nos estudos em educação ou psicopedagogia, as pesquisas sobre lesões pedagógicas não registram a variável adoecimento e hospitalização, se não pelo viés psicoafetivo (lesões psicológicas).

Ocupados com o estudo do atendimento pediátrico e do atendimento pedagógico com vistas à atenção integral, ocupamo-nos de questionar a presença das classes hospitalares na rede hospitalar brasileira: quantas, onde e porque.

Três questões são primárias ou antecederam essas perguntas. 1) Há alguma diferença de desempenho cognitivo-afetivo entre crianças hospitalizadas que recebem atendimento em classe hospitalar e aquelas que não recebem? 2) Há alguma diferença nas vivências terapêuticas das crianças hospitalizadas que recebem atendimento em classes hospitalares e aquelas que não o recebem? 3) Há diferença de performance entre as crianças hospitalizadas e que se referem à idade/série escolar, diagnóstico, tempo de hospitalização e número de internações?

Essas perguntas estão, agora, em aberto na pediatria, psicologia e pedagogia, uma vez que foram formuladas ao campo de investigação e produção intelectual na área da infância e da hospitalização pediátrica.

Neste informe, pretendemos trazer apenas alguns dados de base:

1. Dados de freqüência na hospitalização de crianças:

a) Dos 5 aos 12 anos:

maioria meninos;

faixa etária mais comum entre 6 e 10 anos;

duração média das internações de 11 dias

atraso escolar idade/série em 33% das crianças internadas (5% atraso maior de 3 anos na relação idade/série escolar, 16% atraso de 1 a 3 anos na relação idade/série escolar e 12% evasão escolar);

20% de casos de reinternação.

b) Menores de 5 anos:

maioria de meninos;

faixa etária mais comum de menores de 2 anos;

duração média das internações de 22 dias;

c) Relação tempo de internação e atendimento em classe hospitalar:

redução de 30% no número de dias de internação quando há atendimento pedagógico;

satisfação da criança e dos pais pelo atendimento pedagógico, mesmo que nas internações muito breves.

2. As classes hospitalares no Brasil:

a) quanto à forma de atendimento:

atendimento escolar: ênfase na aprendizagem escolar e construção dos processos de aprendizagem;

atendimento recreativo: educação lúdica e lazer;

atendimento psicossocial: ludoterapia e jogos de socialização;

atendimento clínico psicopedagógico: ênfase nas condutas emocionais.

b) quanto ao vínculo dos professores:

professores contratados pelo hospital;

professores cedidos pelas Secretarias Estaduais de Educação;

professores cedidos pelas Secretarias Municipais de Educação;

professores vinculados aos projetos de pesquisa e extensão universitária;

professores pertencentes aos projetos de voluntariado.

c) quanto à estrutura escolar hospitalar:

atendimento exclusivamente no leito;

atendimento com salas de aula na unidade de internação;

atendimento com salas de aula na unidade de internação, mais salas de apoio e sala de direção escolar.

Entendemos que as necessidades educacionais são atendidas pelas classes hospitalares porque a existência dessas classes restabelece ligações com a vida em casa e na escola (como no cotidiano e com colegas), realizam a mediação didático-educativa do desenvolvimento, promovem maior segurança aos pais e às crianças, asseguram atenção profissional ao desenvolvimento e às aprendizagens complexas e, finalmente, oportunizam a manutenção ou recuperação ou, ainda, o início dos vínculos com a escolaridade.

A realidade nacional mostra que a maior demanda infantil em ambiente hospitalar se volta à faixa etária menor de 2 anos (educação infantil) e à faixa etária dos 6 aos 10 anos (as chamadas séries iniciais), evidenciando a necessidade de atendimento pedagógico. Para muitas crianças, talvez o trabalho de pedagogos no hospital seja a oportunidade de recuperar os laços com o aprender e mobilizar energias para o desejo de cura ou retomada de projetos afetivos com o viver e com a recriação da vida e saúde, uma vez que o trabalho pedagógico instaura uma relação propriamente educativa (de desenvolvimento psíquico e cognitivo) e de autorização ao aprender-crescer-desenvolver-se. A classes hospitalar pode propor à criança/aluno um projeto de saúde para olhar de frente a doença, a hospitalização e o seu tratamento, olhando de frente para si mesma (em processo permanente de crescimento e desenvolvimento, mesmo doente e/ou hospitalizada).

 

Eneida Simões da Fonseca

O mapeamento nacional de classes hospitalares concluído em 1998 (Fonseca, 1999) cadastrou 30 hospitais com atendimento escolar hospitalar, distribuídos em 11 Unidades Federadas, tendo 1500 crianças atendidas por mês e 80 professores.

Desde este estudo, outras classes foram detectadas e também vimos esta modalidade de atendimento iniciar-se em diversos hospitais. Hoje, aproveitando este Encontro, estamos atualizando estes dados o que serve de incentivo ao nosso empenho pela melhoria de nossa atuação.

Conforme veremos na listagem a seguir, temos hoje 64 hospitais com atendimento escolar hospitalar em 15 Unidades Federadas. E dois outros hospitais, um no Espírito Santo e outro no Rio Grande do Sul estarão disponibilizando num futuro próximo atendimento escolar para sua clientela hospitalizada Oito classes hospitalares estão sendo ou foram implantadas por ONGs em suas casas de apoio, em sua maioria, para crianças com câncer. E esta iniciativa reitera a validade da proposta educacional no ambiente hospitalar não apenas para a continuidade dos estudos mas como auxílio na recuperação da saúde daqueles que não perdem a condição de cidadão mesmo em face a doença.

Hospitais com atendimento escolar no Brasil:

- Região Norte

Acre: Hospital Infantil de Rio Branco, Hospital de Saúde Mental do Estado do Acre, Fundação Hospitalar do Acre, Lar dos Vicentinos, Hospital Souza Araújo e Hospital Infantil Yolanda Costa e Silva.

 

- Região Nordeste

Bahia: Hospital Sarah de Salvador e Hospital Infantil Maryag

Ceará: Hospital Infantil Albert Sabin, Instituto do Rim e Hospital do Coração

Maranhão: Hospital Sarah de São Luís

 

- Região Centro-Oeste

Distrito Federal: Hospital de Base de Brasília, Hospital materno Infantil, Hospital de Reabilitação Asa Norte, Hospital de apoio (Oncologia), Hospital Gama, Hospital Regional de Ceilândia, Hospital de Taguatinga e Hospital Sarah de Brasília

Goiás: Hospital do Câncer de Goiânia

Mato Grosso do Sul: Hospital Santa Casa de Campo Grande e Hospital Universitário de Campo Grande

 

- Região Sudeste

Espírito Santo: Hospital de Clínicas de Vitória

Minas Gerais: Hospital Sarah de Belo Horizonte, Hospital Universitário de Juiz de Fora, Hospital Municipal de Governador Valadares e Hospital Sofia Feldman

Rio de Janeiro: Hospital Municipal Jesus, Hospital São Zacarias, Hospital de Jacarepaguá, Hospital da Lagoa, Hospital de Bonsucesso, Instituto Nacional do Câncer, Hospital dos Servidores do Estado, Hospital Universitário Pedro Ernesto, Hospital Universitário Antônio Pedro, Hospital Getúlio Vargas Filho e Hospital em Itaboraí

São Paulo: Hospital da Santa Casa, Hospital Pênfigo Foliáceo, Hospital do Câncer (A.C. Camargo), Hospital de Clínicas de São Paulo, Instituto de Oncologia Pediátrica, Hospital Infantil Darcy Vargas, Hospital de Clínicas de Ribeirão Preto, Hospital de Defeitos da Face em Bauru, SOBRAPAR Anomalias Craniofaciais, Hospital Boldrini, Hospital de Clínicas da Unicamp, Hospital Mário Gatti, Hospital em Marília, Hospital de Base de São José do Rio Preto, Hospital Municipal de Paulínea, Instituto do Coração

 

- Região Sul

Paraná: Hospital Pequeno Príncipe e Hospital Erasto Gaertner

Santa Catarina: Hospital Infantil Joana de Gusmão, Hospital Universitário de Santa Catarina e Hospital Infantil Seara do Bem

Rio Grande do Sul: Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Hospital Santo Antônio, Hospital Universitário de Santa Maria e Hospital de Guaíba.

 

As classes hospitalares que tiveram ou estão tendo sua implantação geridas por ONGs são: Casa Peter Pan (CE), Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (MA), Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (PE), Associação de Assistência à Criança com Câncer (MS), Lar para Crianças com AIDS - LALEC (SP), Associação de Assistência à Criança com Câncer (SP), Casa Hope (SP), COA (PR).

Os dois hospitais em vias de implantação do atendimento escolar são: Hospital Santa Terezinha em Erechim (RS) e o Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória (ES).

Referências bibliográficas:

FONSECA, E.S. A situação brasileira do atendimento pedagógico-educacional hospitalar. Educação e Pesquisa. USP. São Paulo. v. 25 (01). p. 117-129. janeiro-junho. 1999.

FONSECA, E.S. Atendimento pedagógico-educacional para crianças e jovens hospitalizados. Série Documental. Textos Para Discussão. Brasília: MEC/INEP. 25p.1999.

 

 

Educação infantil e hospitalização

Maria Carmem da Silveira Barbosa

 

As práticas pedagógicas realizadas na Educação Infantil (0 a 6 anos) apresentam vários pontos de interseção com aquelas desenvolvidas nos atendimentos pedagógicos realizados no ambiente hospitalar. Selecionei quatro questões fundamentais para refletir acerca desta inter-relação.

i. A inovação da LDB (lei 9394/96) propiciando educação de 0 a 6 anos precisa necessariamente ser estendida ao ambiente hospitalar. Mesmo não sendo obrigatória, esta oferta deve ser feita em caráter suplementar pois a educação é um direito da criança;

ii. As relações entre cuidados e educação são pertinente em ambos os espaços educativos; uma visão pedagógica convencional não dá conta da complexidade do trabalho educativo realizado nestas instituições;

iii. É preciso construir de uma visão de aprendizagem como condição de vida e isto implica em não polarizar entre o brincar e o estudar,

iv. Investir em um educador com sensibilidade de acolhimento das crianças em sua singularidade, de escutá-las e de incluí-las em novos e diferenciados ambientes de aprendizagem.

 

COMUNICAÇÕES ORAIS

 

Formação do Professor e Classe Hospitalar

Giuliana Reis Diniz, Katia Regina Moreno Caiado, Márcia Inez Perissinotto e Maysa de Oliveira Correa (PUC Campinas-SP)

 

A Faculdade de Educação da PUC Campinas oferece o Curso de Pedagogia – Formação do Professor para Educação Especial: deficiência mental e deficiência da audio-comunicação em quatro séries articuladas entre disciplinas de fundamentação teórica, formação específica, práticas orientadas de ensino e atividades de pesquisa desenvolvidas ao longo do curso. Nesses dez anos de funcionamento, os docentes que ministram aula nesse Curso foram, sistematicamente, avaliando as propostas de trabalho e programas das disciplinas com o objetivo de proporcionar uma formação que atendesse as reais necessidades sociais e históricas, sempre se pautando numa postura crítica e compromissada com a maioria da população excluída dos direitos sociais. Assim, hoje, a perspectiva de formação do professor para educação especial assume a dimensão da educação inclusiva, trabalhando com as potencialidades dos alunos, nos diferentes níveis e modalidades da educação, explorando todas as formas de atendimento e serviços educacionais na área.

Nesse sentido, a formação do professor para atuar na classe hospitalar tem sido trabalhada acompanhando o processo de humanização da saúde e do direito à educação para todos. Embora várias disciplinas do Curso enfoquem essas perspectivas com conteúdos pertinentes ao seu campo de conhecimento, será nas disciplinas que desenvolvem projetos de pesquisa e as práticas de ensino que nosso aluno poderá conhecer, estudar e atuar no atendimento escolar hospitalizado. Os relatos das alunas que constituem este texto revelam os caminhos que temos traçado.

Importante ainda destacar que, a Faculdade de Educação tem trabalhado nos projetos de educação continuada, com cursos oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação aos professores da rede, e a temática sobre o atendimento escolar hospitalar tem sido solicitada e desenvolvida nesses últimos três anos.

Classe hospitalar: estágio curricular e monografia - Márcia Inez Perissinotto: Em 1972 ao concluir o curso do magistério, já havia interesse da minha parte de trabalhar com alunos especiais, mas não foi possível. Anos depois fiz o curso de Instrumentação Cirúrgica; foram quatro anos de trabalho gratificante em função das pessoas com quem trabalhei, pelo tipo de trabalho em si e, principalmente, pelo relacionamento e envolvimento com os pacientes. Em 1997 comecei a cursar a Pedagogia: Educação Especial na PUC Campinas; realizando assim um sonho muito antigo que acalentava: trabalhar com alunos especiais. Mesmo sem conhecer todas as possibilidades de trabalho na área eu já entrei no curso pensando em aliar minha experiência na área de saúde com a formação que iniciava na área de educação. Na primeira série do curso, tomei conhecimento que a Brinquedoteca da Faculdade de Educação desenvolvia projetos em hospitais da cidade. Vi na Brinquedoteca uma possibilidade para meu projeto educacional no ambiente hospitalar. Nas duas séries iniciais do curso dediquei-me à literatura sobre o assunto, complementando com o estágio na Brinquedoteca. Na terceira série surgiu a oportunidade de realizar o estágio curricular, da disciplina "Prática Supervisionada para o ensino de deficientes mentais I", na classe hospitalar. Embora a disciplina aponte para o trabalho pedagógico com alunos deficientes mentais há abertura para conhecermos, também, os vários serviços de atendimento educacional na Educação Especial (conforme Política Nacional de EE, MEC/ SEESP, 1994). Assim, realizei esse estágio na classe hospitalar do "Centro Infantil de Investigações Hematológicas Dr. Domingos A Boldrini", especializado em hematologia e oncologia pediátrica. Desenvolvi um projeto sobre jogos educativos para alfabetização privilegiando o conteúdo escolar. Todas as atividades realizadas na classe hospitalar eram registradas e, semanalmente, socializadas e discutidas nas rodas de estudos da disciplina que orienta esse estágio. Hoje, na quarta série do curso continuo realizando meu estágio curricular nessa classe hospitalar e também desenvolvo o Trabalho de Conclusão de Curso nessa temática. Meu projeto atual é discutir a relação entre a classe hospitalar e a escola regular de origem do aluno. Um dos objetivos da classe hospitalar é garantir a continuidade da vida acadêmica desse aluno mesmo considerando longos períodos de internação. Nesse sentido, busco estudar como se dá a relação entre a escola e o hospital e entre os dois professores das duas classes (regular e classe hospitalar) com vistas a contribuir com a construção de uma relação que garanta o direito à educação para a criança e jovem hospitalizados e seu efetivo desenvolvimento acadêmico. Esta pesquisa está sendo realizada a partir de entrevistas com os alunos, os pais, professores das classes, observações diretas e análise documental e bibliográfica, segundo a proposta de pesquisa qualitativa em Educação.

Brincar e aprender no espaço hospitalar - Giuliana Diniz e Maysa Correa: Como alunas da Faculdade de Educação, da PUC Campinas do curso de Pedagogia – Formação de Professores para Educação Especial – Deficiência Mental e da Audio-comunicação, realizamos o estágio da 1º série na disciplina de Prática Profissional Supervisionada I, nas enfermarias pediátricas no Hospital Municipal Mário Gatti e Hospital das Clínicas da Unicamp. Nesses dois hospitais há pedagogos desenvolvendo trabalho educativo. O projeto que desenvolvemos foi intitulado "A criança hospitalizada e o brincar: um novo espaço pedagógico". A classe hospitalar é uma modalidade de atendimento da Educação Especial (SEESP, 1994) inicialmente organizada pois às crianças com deficiência sempre estiveram muito mais sujeitas às internações hospitalares. Hoje, esse serviço educacional vem sendo pensado levando-se em conta todas as crianças e jovens em situação de internação. O direito à saúde e à educação estão integrados nessa nova proposta da classe hospitalar. Assim, organizamos o nosso projeto visando estudar e atuar na continuidade da escolaridade durante o período de internação. As atividades propostas sempre deram ênfase no brincar, pois através das brincadeiras as crianças aprendem, se divertem e vivem o direito à infância mesmo estando hospitalizadas. Consideramos também, nesse projeto que o brincar é um recurso pedagógico que permite o trabalho com os conteúdos escolares. Num primeiro momento do estágio fizemos observação e entrevista com as pedagogas, enfermeiras, pais e crianças hospitalizadas. Aos poucos iniciamos nossa participação junto às crianças nos leitos ou nos espaços disponíveis para o trabalho pedagógico. Durante o estágio pudemos constatar que a equipe de profissionais do hospital mostrou muito respeito com o trabalho pedagógico. No relatório final, apresentado para avaliação da disciplina, relatamos que pudemos aprender como o papel da pedagoga é importante no ambiente hospitalar. Importante porque a vida da criança continua: escola, brincadeiras, risadas, trocas são momentos da infância preservados apesar da doença.

 

Acompanhamento Escolar Intra-Hospitalar

Mônica Graciela Di Nunzio (Hospital Sarah São Luís–MA)

 

O acompanhamento escolar na Enfermaria Pediátrica do Hospital Sarah - São Luís é oferecido aos pacientes que permanecerão internados por um período superior a uma semana, seja qual for a razão da internação: tratamento clínico, intervenção cirúrgica ou processo de reabilitação abrangendo as diversas patologias atendidas nesta instituição.

O profissional responsável por este atendimento é o Professor Hospitalar, contratado pela instituição, que compõe a equipe interdisciplinar que atua junto aos pacientes. O Professor Hospitalar participa, juntamente com pediatras, enfermeiros, fisioterapeutas, Psicólogos e Professores de Educação Física, das discussões em equipe referentes aos pacientes, das avaliações destes, bem como do acompanhamento no processo de reabilitação das crianças e adolescentes portadores de deficiências física ou que apresentem alterações no desenvolvimento. O Professor Hospitalar também realiza, junto à equipe, as atividades ludo-pedagógicas e de socialização, onde o atendimento interdisciplinar destinado ao paciente não está focado apenas na patologia, uma vez que criança é vista de maneira global, levando-se em conta os seus aspectos psico-emocional, social e educacional.

Para que o citado acompanhamento ocorra de forma efetiva, quando o paciente interna realiza-se uma abordagem junto ao paciente e acompanhante para colher dados referentes à escolarização da criança (se está inserido no sistema público ou privado de ensino; a série que está cursando; se incorreu em repetência e/ou evasão; se está em idade escolar, mas não está inserida na escola, e as causas). Quando o paciente é procedente da capital, São Luís, entra-se em contato com a escola no sentido de comunicar a internação, caso a família não o tenha feito, bem como solicitar a relação dos conteúdos que estão sendo aplicados à classe na qual a criança está inserida, além do material didático utilizado pela escola, o que pode ser feito via relatório enviado através da família, por contato telefônico ou ainda através de visita à escola. No caso do paciente que é procedente do interior, ou de outros estados, tenta-se o contato com a escola, caso a família consiga fax ou telefone da mesma, e adota-se o mesmo procedimento citado em relação às crianças da capital. Caso este contato com a escola seja inviável, realiza-se uma avaliação pedagógica junto à criança no sentido de sondar que conteúdos, referentes à série que está cursando, a criança domina ou não, e se a mesma apresenta dificuldades específicas de conteúdos para que desta forma seja montado o programa de acompanhamento da sua escolarização focado nas dificuldades apresentadas.

Quanto à proposta metodológica vale ressaltar que dentro do acompanhamento escolar intra-hospitalar, apesar de tentar-se seguir a proposta curricular adotada pela escola, procura-se adotar uma metodologia que respeite as individualidades, a criatividade, bem como as dificuldades, inerentes a cada criança, numa perspectiva sócio-construtivista. Dentro desta proposta está também a idéia de interferir na formação global da criança, sem se deter apenas à educação formal. Para tanto utilizam-se variados recursos, dentre os quais jogos pedagógicos, programas de computador e vídeos, que vão auxiliar o professor nas atividades de cunho pedagógico e educacional. Caso a criança não tenha sido inserida na escola, porém apresente idade para ser alfabetizada, é dado inicio ao processo de alfabetização durante a sua internação. O processo de alfabetização também se destina àquela criança, que chega ao hospital com história de sucessivas repetências na 1ª série, por não conseguir ser alfabetizada, o que ocorre com muitas delas. O citado acompanhamento escolar, destinado aos pacientes, pode ser realizado em grupo ou individualmente, a depender das necessidades específicas de cada criança.

Quanto a inserção e reinserção escolar para aquelas crianças que evadiram, adota-se o mesmo procedimento citado anteriormente: avaliação pedagógica e acompanhamento relativo às dificuldades detectadas na avaliação. Sempre que o paciente sai de alta, além de estar de posse do atestado médico para justificar as faltas, é enviado relatório para a escola comunicando o que foi realizado junto à criança durante o período de internação, bem como as dificuldades apresentadas pela mesma, onde são oferecidas, também, sugestões de como ajudar a criança a superar tais dificuldades. Também é elaborado relatório com objetivo de auxiliar a família na inserção escolar da criança que apresente algum comprometimento motor ou cognitivo em classe de educação infantil ou de alfabetização, a depender da idade e do potencial da criança em questão. Neste relatório informa-se a patologia da qual a criança é portadora, bem como as avaliações realizadas pela equipe ( psicólogo, fisioterapeuta, pediatra e pedagogo), onde é citado o potencial de aprendizagem da criança, apesar das suas possíveis limitações a nível motor e/ou cognitivo. As razões que ocasionam a evasão escolar dentre os pacientes atendidos no Hospital Sarah de São Luís, não diferem em muito daquelas existentes nas escolas públicas brasileiras, contudo encontram-se aquelas relativas às sucessivas internações durante o ano letivo e o tempo prolongado durante uma única internação.

Concluimos que o acompanhamento escolar neste hospital visa não somente a reinserção da criança hospitalizada ao ambiente escolar como também a sua reintegração social, viabilizando desta forma a continuidade do processo de aprendizagem e formação global desta criança e possibilitando-lhe a transposição dos conteúdos trabalhados para outros contextos.

 

Teia do Conhecimento

Kátia Aparecida Coelho Siqueira e Tânia de Freitas Siqueira (Hospital do Câncer de São Paulo-SP)

 

A proposta educacional apresentada é um trabalho de atendimento grupal com o objetivo de oportunizar ao aluno/paciente, transforma-se em " ensinante " ( A. Fernandes ) no processo ensino-aprendizagem.

Essa dinâmica possibilita a circulação do conhecimento no grupo participante

( alunos/pacientes, acompanhantes, voluntárias e professores).

A Teia do Conhecimento é realizada através de 3 fases: primeira: Sensibilização para a descoberta de "novos talentos"; segunda: oficinas Pedagógicas; terceira: culminância – criar e Inventar.

 

Classe hospitalar: mudanças da concepção de profissionais de saúde após implantação de um serviço de atendimento escolar

Eduardo José Manzini e Adriana Garcia Gonçalves (UNESP Marília-SP)

 

Em 1995 desenvolvemos um estudo (Pires-Júnior et al., 1996) na cidade de Marília, região centro-oeste paulista, com o intuito de verificar qual era perspectiva dos profissionais de saúde de um hospital sobre o atendimento educacional em classe hospitalar. O estudo revelou que os profissionais concebiam a classe hospitalar como um local cujo serviço auxiliaria a criança na sua adaptação ao hospital, ajudando no processo de recuperação ao manter uma parte da vida dessa criança preservada: a realidade educacional. O estudo apontou que os profissionais não tinham claros quais eram os objetivos do atendimento escolar no hospital, porém todos concordavam sobre a importância desse serviço e colocaram-se dispostos a ajudar na implementação do mesmo.

Em 1998, depois de elaboração de um projeto de implantação, foi criada a classe hospitalar nesse mesmo hospital (Gonçalves, 1999).

O presente estudo insere-se, justamente nesse contexto, ou seja, depois de algum tempo do funcionamento da classe hospitalar ocorreriam mudanças na perspectiva ou na concepção dos serviços da classe hospitalar pelos profissionais da saúde?

Nesse sentido, delineamos um pequeno estudo no qual participaram seis profissionais: dois médicos, uma psicóloga, uma nutricionista, uma assistente social, uma enfermeira.

A entrevista semi-estruturada foi escolhida por se tratar de uma pesquisa adequada frente ao objetivo proposto (Manzini, 1989). Elaboramos um roteiro, no qual constavam seis questões abertas: 1- Você tem contato com os serviços ou setor da classe hospitalar? Você conhece o serviço?; 2- Você participou da implantação desse serviço aqui no hospital?; 3-Você acha importante o atendimento educacional dentro do hospital? Por que?; 4- Quais objetivos você presume que esse atendimento deva ter?; 5- Existe alguma colaboração sua com o setor? Existe troca de experiências? Ajuda etc...; 6- Esse setor faz parte da equipe técnica do hospital?

Essas questões foram estabelecidas tendo como base as perguntas formuladas na pesquisa anteriormente citada (Pires-Júnior et al., 1996), pois, dessa forma, poderíamos confrontar os dados encontrados antes da implantação do serviço de atendimento da classe hospitalar com os dados encontrados após a implantação da classe.

As entrevistas foram realizadas no próprio local de trabalho dos participantes, cuja duração variou de cinco a 15 minutos. As falas, transcritas, foram tratadas segundo a análise de conteúdo.

Os resultados indicaram os mesmos conjuntos de classes de análise do estudo anterior. Ou seja, os participantes teceram comentários sobre a importância da classe hospitalar, os objetivos que esta deveria ter, o contato profissional realizado com os serviços da classe hospitalar, o auxílio na implantação dos serviços, e os resultados dos serviços da classe hospitalar.

Todos os participantes enalteceram a importância do atendimento da classe hospitalar, frisaram que as crianças falam da professora e mostram-se ansiosas para irem até o espaço da classe. O que mais fica evidente nos relatos é que os participantes identificam que o atendimento da classe hospitalar traz prazer para as crianças, estas se mostram mais tranqüilas quando comparada a crianças que não participam da classe.

Sobre os objetivos da classe hospitalar, a maioria dos participantes indicou como objetivo a continuidade escolar, em menor número de relatos identifica-se o objetivo de recuperação das condições de saúde da criança ao trazer para dentro do hospital uma atividade que a criança fazia antes de ser internada.

O contato entre os participantes da pesquisa com a classe hospitalar foi indicado por quase todos os profissionais, cada um dentro de sua especificidade, porém para atender ao bem estar da criança durante a sua permanência no hospital. Isso parece confirmar-se quando os profissionais relatam suas contribuições junto aos serviços da classe hospitalar. Percebe-se nos relatos a indicação de atividades em comum entre os profissionais, tais como, festinhas, projetos, auxílio nos atendimentos diferenciados.

Ao comparar o estudo atual com o estudo anterior podemos verificar a mudanças de algumas concepções. Uma delas tem relação com os objetivos da classe hospitalar. Na pesquisa realizada em 1996 verificou-se que os profissionais não tinham claros os objetivos desse tipo de serviço, porém, no presente estudo, os objetivos da classe hospitalar parecem estar mais incorporados aos diversos setores.

Outro dado significativo é que nos relatos do presente estudo podemos perceber a descrição de atividades baseadas nas vivências dos profissionais, ou seja, os relatos trazem exemplos de situações concretamente vivenciadas na classe hospitalar ou com as crianças. Já no estudo anterior, podia-se perceber somente a perspectiva dos profissionais sobre uma possível realidade que ainda não haviam experienciado, mas que, apesar disso, apontavam para a importância e para a necessidade de serviços dessa natureza, ou seja, eles vislumbraram a importância de um serviço futuro, mas que, hoje, podem comprovar essa importância e aprová-lo a partir de suas vivências concretas.

Referências bibliográficas:

GONÇALVES, A. Classe hospitalar em Marília. Diário de Marília, 05/11/99. Caderno 1, p. 02 (opinião)

MANZINI, E. A entrevista na pesquisa social. Didática, São Paulo, v. 26/27, p. 149-158. 1990-1991.

PIRES-JUNIOR;H; MANZINI, E.; CORNELIAN-JUNIOR, D.; & ZANCO, A. A perspectiva dos profissionais de saúde sobre o atendimento educacional em classe hospitalar. Didática (São Paulo), v. 31. p .175-197. 1996.

 

Poesia no Hospital: o texto poético no atendimento educacional de crianças hospitalizadas

Adriana Garcia Gonçalves e Eduardo José Manzini (UNESP Marília-SP)

 

A grande maioria dos estudos teóricos sobre poesia infantil é encontrada em capítulos de livros sobre a própria literatura infantil, nos quais são tematizados vários assuntos referentes à constituição da poesia em seus aspectos específicos, como nos estudos históricos, sociais e ideológicos do gênero, poesia e escola, entre outros.

Ressaltam-se os trabalhos de Bordini (1981, 1991) que talvez seja a única autora brasileira a dedicar um livro inteiramente sobre poesia infantil brasileira, de caráter teórico-crítico definido e muito bem estruturado sobre o assunto.

Tendo como referência importante na constituição do presente trabalho, encontra-se a tese de doutorado de Balestriero (1998), que faz um estudo minucioso sobre poesia infantil, englobando aspectos totalitários, desde uma visão histórica, passando por textos críticos sobre literatura infantil, textos voltados à metodologia da poesia em sala de aula, bibliografias analíticas e antologias poéticas, análise de textos poéticos nos livros didáticos, até chegar a uma proposta fundamentada que vai auxiliar professores no trabalho em sala de aula com poesias para as crianças. A proposta que Balestriero adaptou para as crianças brasileiras tem origem nos estudos de professores franceses como Georges Jean, Jean-Hugues Malineau, Jean-Pierre Balpe, Jacques Charpentreau, S. Christophe/C. Grosset-Bureau, e Josette Jolibert, que utilizam os jogos de linguagem e jogos poéticos, como forma de estimular o imaginário e o funcionamento poético da língua, fornecendo aos alunos uma ‘sustentação’ lingüística, e permitindo-lhes chegar ao texto poético.

Portanto, o estudo sobre poesia infantil brasileira está longe de se esgotar, apresentando uma gama imensa de possibilidades de estudos acadêmicos e científicos.

Nesse sentido, o presente estudo faz uso da poesia infantil como instrumento e recurso no atendimento educacional de crianças hospitalizadas, com o OBJETIVO de analisar as experiências vivenciadas por essas crianças no interior do hospital.

Participaram deste estudo quatro crianças, sendo que uma delas estava hospitalizada na enfermaria pediátrica e as outras três estavam sendo atendidas no ambulatório do Hemocentro de Marília. Somente uma criança das três que estavam sendo atendidas no Hemocentro nunca tinha sido internada, pois estava iniciando o tratamento médico.

A coleta de dados foi realizada na classe hospitalar do Hospital de Clínicas e Hemocentro de Marília . Inicialmente, as crianças leram o poema intitulado Leilão de jardim, de Cecília Meireles, por propiciar condições efetivas de verbalização e comunicação expressiva.

As crianças reproduziram e criaram seus próprios poemas tendo como referencial o poema acima, que Balestriero (1998) denomina-o de texto detonador.

Assim, a partir do presente poema, as crianças puderam destacar o que gostariam de comprar para o hospital, e o que elas gostariam de vender do mesmo, ou seja, as impressões referentes à vivência no hospital.

Através da produção do texto poético, todas as crianças puderam relatar situações e condições, pelas quais estavam sendo submetidas no interior do hospital.

A criança Ju. ficou hospitalizada durante 25 dias e ficou todo este período acamada, com monitor cardíaco, soro, alimentação parenteral. Podemos notar em seu texto a descrição de objetos que estavam presentes em seu quarto, começando por aqueles que pareciam significativos em sua internação, ou seja, a descrição da cama e o colchão,

"Quem me compra esta cama e este colchão..."

Também descreve objetos pertencentes ao seu quarto no hospital (o guarda roupa, o banheiro, a televisão).

"Quem me compra este guarda-roupa e este banheiro

Quem me compra esta televisão e estes sofás..."

Outro objeto significativo que a criança descreve é a porta:

"Quem me compra esta porta e este quarto"

A porta sendo a via de acesso para a entrada e saída das pessoas (acompanhante, médicos, enfermeira, professora, visitas), mas que a própria criança não podia passar por ela.

Portanto, Ju., enfatiza a sua situação de reclusão, já que ficou por um período considerável sem sair do leito. É importante ressaltar que em seu texto a criança não citou e não descreveu os procedimentos médicos e de enfermagem, a qual foi submetida (ex.: preparação para cirurgia, as várias punções de veias para colocação de soro, medicamentos).

Por fim, Ju. concluiu seu texto, citando a função primordial do hospital que é o de salvar vidas, pois a dela já estava salva:

"Quem me compra essa ala inteirinha,

Que salvou a vida de muita gente.

(Este é o meu leilão)"

As crianças Fr. e Ma. faziam o tratamento médico por período prolongado (3 e 2 anos respectivamente), com consultas regulares e história de várias internações anteriores. O diagnóstico de LLA (Leucemia Linfóide Aguda) requer um tratamento sistemático e bastante cuidadoso para a efetiva cura da doença. A criança Fr. já estava em fase de manutenção do tratamento e, portanto, os retornos para as consultas eram de 30 em 30 dias, ou seja, uma vez por mês. A criança Ma. estava em tratamento e retornava para as consultas de 15 em 15 dias e ainda havia internações para realização de quimioterapia.

Na produção do texto poético das duas crianças, é importante ressaltar a descrição do procedimento médico mais experimentado por elas: a punção de veias, ou seja, as "furadas" de várias espécies (injeções, punção para exame de sangue, exame do liquor, punção de veia para a quimioterapia):

"Quem quer comprar...um carrinho ou um brinquedinho,

As agulhas que nos dá furadas,

Mas não compra nossas gargalhadas." (criança Ma.)

 

"Quem me compra uma injeção

para aplicar no meu irmão." (criança Fr.)

Outro fato a ser destacado, é a descrição dos objetos que não são exclusivos do hospital: os brinquedos. Essa descrição deve ter ocorrido porque estávamos na sala onde acontece o atendimento educacional no Hemocentro, sala esta bastante conhecida e freqüentada pelas crianças. Esta sala possui mesas e cadeiras infantis, lousa, material escolar (giz, papel, tinta, lápis de cor, etc) e brinquedos.

"Quem quer comprar uma batedeira com uma cadeira, um dinossaurinho ou um aviãozinho..." (criança Ma.)

 

"Quem me compra uma linda bola para brincar na escola." (criança Fr.)

A criança Ed. estava iniciando o tratamento médico no Hemocentro de Marília e relatou que nunca havia sido internado. A médica responsável pelo caso havia informado à criança sobre seu diagnóstico e da grande probabilidade da cura da doença.

Em sua produção de texto, Ed. descreveu o ambiente que estava conhecendo e se familiarizando ,pois já sabia que o tratamento que estava iniciando iria ser por um tempo considerado longo (por mais de um ano) e, portanto teria que conviver neste novo ambiente.

"Quem me compra o hemocentro com sala de quimioterapia, sala de transfusão, com sala de brincar e também sala para consultar. Este é o meu leilão!"(criança Ed.)

Apesar de já saber da necessidade do tratamento quimioterápico e de como este era realizado, não há o relato dos procedimentos médicos e de enfermagem na produção de texto da criança Ed., pois só havia feito um exame de sangue para a investigação do diagnóstico.

Através da análise dos textos poéticos produzidos pelas crianças hospitalizadas foi possível constatar que a poesia serviu como instrumento importante para a representação das condições e situações vivenciadas pelas crianças no interior do hospital, ou seja, as crianças usufruíram da poesia como forma de comunicação com o mundo. Nesse sentido, Averbuck (1991) valoriza a exploração da imaginação das crianças, "desenvolvendo a criatividade da expressão e da compreensão da linguagem como representação da experiência humana"(p.68).

Portanto, a poesia pode representar um entre os vários recursos pedagógicos utilizados nas classes hospitalares, propiciando a expressividade das crianças e, assim, contribuir para a recuperação integral da criança hospitalizada.

Referências bibliográficas:

AVERBUCK, L. A poesia e a escola. In ZIBERMAN, R. (org.). Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 10a ed., Porto Alegre: Mercado Aberto. p.63-84. 1991.

BALESTRIERO, M. A criança e a poesia: um encontro possível. a poesia na 5º série. Tese de Doutorado. Marília: UNESP. 1998.

BORDINI, M. Poesia Infantil. 2º ed. São Paulo: Ática. 72p. 1991.

GONÇALVES, A. Atuação do pedagogo em ambiente hospitalar: relato de uma experiência. Trabalho apresentado II Congresso Brasileiro Multidiscipli-nar de Educação Especial. Londrina-PR. 03 a 06 de novembro. 1999.

 

Contos e encontros na Enfermaria

Célio Diniz Ribeiro e Karina Gaspar de Oliveira (LerUERJ-RJ)

 

O LerUERJ é um Programa de extensão universitária que integra uma série de ações de promoção da leitura cujo principal objetivo é criar condições para a formação de uma sociedade leitora. Acreditando que a leitura é direito de todo cidadão, atua junto ao público de instituições conveniadas tais como escolas, bibliotecas, abrigos e hospitais, desenvolvendo atividades através de diferentes linguagens: contos, crônicas, poesias, imagens, vídeos, músicas, etc.

Pensando no redimensionamento do espaço hospitalar, o Programa de Leitura foi convidado, em 1996, a integrar o trabalho desenvolvido pela equipe multidisciplinar do NESA (Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente), a princípio com sessões de contadores de histórias para os adolescentes internos na enfermaria. A partir de março de 1999 o projeto Contos e Encontros na Enfermaria assumiu um caráter mais intenso, devido a avaliação e solicitação feita pela Saúde Mental, que verificou a importância da atuação do programa na travessia hospitalar dos adolescentes. "... no seu sentido mais antigo as histórias são uma arte medicinal." (Estés, 1994)

Atualmente são realizados dois encontros semanais, com duração média de 90 minutos cada, onde procura-se valorizar a auto-estima dos pacientes respeitando o acervo de conhecimento que cada integrante traz, de forma a estimular a participação de todos além de despertar o interesse pela leitura.

As ações visam, ainda, a possibilitar o contato mais estreito entre diversas práticas leitoras existentes e os adolescentes, promovendo maior integração desses com o mundo a sua volta.

Quando o jovem é acometido por uma doença crônica ou é portador de alguma deficiência, ele experimenta privações que agravam o quadro complexo que é a adolescência. Cannon & Bottini salientam que a saúde do indivíduo, nas várias fases de sua vida, depende do impacto positivo ou negativo de fases anteriores (Assis, 1998). Nesse sentido, o cuidado com o adolescente adoentado deve ser redobrado.

A experiência do NESA evidencia uma troca salutar: os jovens internados exercitam sua cidadania, redescobrindo o sabor da identidade e afirmando a ligação com a vida, e os bolsistas de extensão (agentes de leitura) têm a chance de se tornarem profissionais mais sensíveis e comprometidos com a sociedade.

Referências bibliográficas:

ASSIS, M. Educação em Saúde e qualidade de vida: para além dos modelos, busca da comunicação. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, 1998.

ESTÉS, C. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

 

Projeto Arte Despertar nos Hospitais

Maria Helena da Cruz Sponton e Regina Vidigal Guarita

(Associação Arte Despertar - SP)

 

A Associação Arte Despertar é uma organização sem fins lucrativos ( ONG), constituída formalmente em Janeiro de 1998, e destinada ao desenvolvimento de indivíduos e comunidades através da Arte associada à Educação. Partindo do universo de linguagens artísticas integradas, a idéia é levar os participantes a despertarem para si próprios e para a realidade em que estão inseridos, contribuindo para a sua socialização, valorização e resgate da sua identidade como indivíduos e cidadãos.

A Associação trabalha com equipes definidas a partir das propostas temáticas diferenciadas, contando com uma assessoria específica para cada tipo de linguagem e uma coordenação geral. Essa forma de organização funcional, estruturada de acordo com a demanda de cada situação específica, permite maior agilidade e mobilidade de atuação.

Em relação ao Projeto Hospital contamos com as parcerias do: InCor- HCFMUSP, Instituto do Coração e do IOP- Instituto de Oncologia Pediátrica- UNIFESP- Escola Paulista de Medicina.

No final de 1998 o projeto Arte Despertar foi aprovado pelo Ministério da Cultura, permitindo que qualquer empresa ou pessoa física que venha a colaborar com a Associação se utilize dos benefícios fiscais advindos da Lei Rouanet.

Os recursos para o desenvolvimento dessas atividades são provenientes de doações pontuais de pessoas físicas e de empresas. Para este ano a Associação conta com o patrocínio do Laboratório Novartis.

Justificativa do projeto: Frente ao processo de hospitalização, a criança/adolescente fica prejudicada, em grande parte, no seu desenvolvimento e no processo de escolarização, bem como nas atividades e brincadeiras, além da separação de parentes e amigos que acabam interferindo na sua inserção social. Emergem os sentimentos de medo, angústia, ansiedade e depressão provenientes do mal estar, da dor e dos procedimentos muitas vezes invasivos e dolorosos; afetando inclusive o equilíbrio emocional, afetivo e o processo de cognição. Em contato com a Equipe Hospitalar e constatações próprias, a Associação Arte Despertar elaborou o projeto e iniciou os trabalhos nos dois hospitais tendo como objetivo levar os pacientes a refletirem sobre sua própria experiência e a abertura para a diversidade de pontos de vista e maneiras de expressão, propiciadas pelo contato com as diferentes linguagens artísticas, e dessa maneira colaborando no processo de reabilitação, autoconfiança e auto estima, culminando com melhoria na qualidade de vida e na humanização dos hospitais.

Os objetivos específicos do projeto são: i. possibilitar o contato do grupo com os materiais, processos e produtos artísticos; ii. criar, no ambiente hospitalar, um espaço de expressão no qual o paciente compartilhe ao lado de outros, momentos de criação importantes na sua reabilitação; iii. desenvolver os processos mentais: flexibilidade, elaboração, originalidade e fluência, possibilitando o contato com o imaginário e com os aspectos intuitivos e sensoriais; iv. garantir ao grupo o direito de conhecer, apreciar e fazer arte; v. organizar espaços no hospital, deixando acessíveis os mais variados instrumentos, ferramentas e suportes para a utilização nos projetos pessoais e grupais; vi. propiciar às crianças/adolescentes/ acompanhantes um ambiente físico e psicológico onde o imaginário o criativo e a liberdade se tornem elementos verdadeiramente possíveis, encorajando-os a participarem e experimentarem novas formas de olhar e pensar o mundo através da arte.; vii. integrar pais/acompanhantes dos pacientes no trabalho, visando o fortalecimento desse vínculo benéfico para ambas as partes.

A metodologia utilizada parte de uma aprendizagem significativa objetivando a interação dos pacientes com o campo da arte através de experiências onde os três eixos são abordados: conhecer, apreciar e fazer arte.

O papel dos educadores é de desvelar, ampliar e propor desafios estéticos, desenvolvendo atividades lúdicas e cognitivas, sensíveis e afetivas enfatizando com isso o caminho do conhecimento da arte. A interseção das linguagens expressivas (musical, plástica, teatral e literatura) permeiam todas as propostas abordando os aspectos da sociabilidade (eu no grupo), identidade ( quem sou eu), emocional( de quem eu gosto) e alteridade(quem é o outro).

As atividades, neste ano, estão sendo planejadas, tendo em vista o projeto maior que enfatiza os 500 anos de Descobrimento do Brasil. Iniciamos com a pré-história no Brasil, arte indígena e no momento, estamos desenvolvendo a arte negra, prosseguindo com os períodos: colonial, barroco, rococó, missão holandesa, academia, modernismo e contemporaneidade.

A literatura é desenvolvida através da contação de histórias e registros com a utilização de diferentes técnicas, contando com o acompanhamento musical (flauta, violão e instrumentos de percussão). Na linguagem musical, abordamos a música erudita e popular, enfatizando as cirandas, cantigas, trabalhos com diferentes instrumentos musicais, e resgate cultural das origens dos pacientes e acompanhantes, de músicas regionais e folclóricas. A linguagem plástica é trabalhada respeitando o tripé citado acima e utilizando diferentes técnicas de pintura, desenho, gravura, escultura, modelagem, tecelagem reciclagem de materiais, elaboração de pigmentos naturais, máscaras, colagens etc. Na linguagem teatral, o uso de jogos dramáticos, fantoches, improvisações, elaboração e dramatização de histórias e poesias permeiam o universo hospitalar.

O trabalho é desenvolvido nos dias da semana, no período de duas horas e meia, contando sempre com dois educadores para cada linguagem. Participam também alunos de dois colégios particulares que fazem estágio dentro da disciplina de Ética e Cidadania (Colégio Santa Cruz e Colégio Equipe).

No Hospital do Coração - InCor, atuamos no sétimo andar em uma sala ao lado da enfermaria infantil e no IOP - Instituto de Oncologia Pediátrica o trabalho é desenvolvido na brinquedoteca, salas de quimioterapia, quartos e na unidade de transplante de medula óssea. Trimestralmente é elaborado o jornal Despertarte, que contém noticias e acontecimentos significativos do cotidiano.

O público com o qual atuamos é composto de crianças, adolescentes e adultos acompanhantes, de baixo poder aquisitivo , vindos de diferentes regiões do Brasil e América Latina.

O trabalho é avaliado durante todo o processo, através de instrumentos metodológicos elaborados pelos educadores que são: Relação dos Pacientes com nome e idade, Planejamento da Ação, Observação e Registro. Cabe a coordenação do projeto além de acompanhar o trabalho dos educadores, elaborar relatórios para a alta administração da Associação e Patrocinador e quinzenalmente fazer reuniões com a equipe para discussão, reflexão e instrumentalização das ações desenvolvidas. A equipe de assessoria se reúne para avaliar, fundamentar e tratar as linguagens dentro de uma interseção necessária ao desenvolvimento do projeto arte educativo.

A equipe do projeto hospital conta com dez educadores e quatro assessores das linguagens: plástica, música, teatro e literatura. Além disso tem uma coordenação do projeto e a presidência da Associação.

 

Educação em âmbito hospitalar: o mito da descontinuidade

Sandra Maia Farias Vasconcelos (Hospital Infantil Albert Sabin-CE)

 

O projeto de estudo consistiu em fazer relevar as dificuldades encontradas na escola pela professora responsável pelo grupo e assisti-la nas estratégias e caminhos a tomar, tendo em vista sempre o aproveitamento funcional e intelectual dos alunos, aqui chamadas crianças por questões didáticas. Embora já se tivesse em mente a necessidade de um trabalho dirigido, durante o desenvolvimento do estágio, os objetivos foram ficando mais delimitados e explícitos.

A partir do período de observação foi possível perceber a necessidade de fazer o reconhecimento do grupo e agir como modelo para a professora, o que não significava assumir a sala de aula. Fazer sempre uma avaliação diária do processo junto à professora, relevando falhas e acertos. Assessorá-la no estabelecimento de uma rotina para referenciar o espaço da sala de aula. Tentar criar, junto às crianças, a necessidade de ir para a escolinha, redescobrindo uma possibilidade de aprendizagem.

O trabalho orientava-se em fazer levantamento das potencialidades das crianças dentro dos limites da doença. Conscientes das limitações inerentes à doença, criar um novo olhar e conhecer o contexto em que vivem as crianças, considerando sua luta diária contra a morte.

Convém aqui distinguir o contexto hospitalar do contexto familiar. Muitas vezes a criança tem em casa um comportamento diferenciado daquele adotado no hospital, seja por timidez ou por questões mais ligadas à própria enfermidade. É necessário que se tenha em mente um modelo didático que provoque uma aprendizagem significativa ou rotineira, ou seja, a aprendizagem deverá ter sentido para a criança. O significado será tão importante quanto a defasagem entre o hospital e a escola.

Dentro de uma visão psicopedagógica, criar atividades que estimulassem a integração das crianças, relevando a importância do conhecimento do outro. Organizar jogos de regras a fim de delimitar espaços. Restaurar a auto-estima da criança através do conhecimento do próprio corpo com exercícios de respiração e toques. Perceber a existência do companheiro através de atividades que utilizem o corpo do outro. Sair do meramente escolar, das atividades repetitivas, do copiar, do reproduzir para o criar.

Desenvolver atividades de continuidade a fim de quebrar o estigma da descontinuidade - de certa forma rotulado pelo grupo assistente - com desenhos de figuras a serem, inicialmente completadas pelas crianças e, em seguida, criadas por elas. Fundamentando na continuidade, trabalhar a noção de fechamento para que as crianças saibam que um trabalho deve ser sempre terminado - ainda que a noção de terminado não seja a mesma para a professora.

Dentro das abordagens acima descritas, orientar a professora para que as ponha em prática, tornando possíveis atividades que antes sofriam bloqueios, obviamente trabalhando os obstáculos existentes.

O trabalho foi realizado inicialmente com um período de observação da sala e contato direto com a professora de quatro horas semanais divididos em duas vezes por semana, às quintas e sextas-feiras, de 13h30min às 15h30min. Os passos do projeto consistiram em dar aproveitamento educacional de escrita, leitura e construção de aprendizagens diversas. Ou seja, a pesquisa não se fixou apenas nos conteúdos ditos escolares. Extrapolando a sala de aula, dirigiu a atenção para as habilidades manuais de cada indivíduo, resguardando as faculdades físicas de cada um.

Optou-se pelo uso corrente da apropriação da aprendizagem, diante da qual, toda construção deverá ser integrada à criança de forma socializadora, ou seja, para cada processo, a criança deverá ter posse do que construiu, a fim de poder desenvolver a auto-estima suficiente para acreditar em suas possibilidades. Foram desenvolvidas e valorizadas as atitudes grupais, antes deixadas a desejar. Até então, as crianças eram reunidas numa mesma sala, em torno de mesas comuns, mas sem se integrarem. No decorrer da intervenção psicopedagógica, os momentos de leitura envolveram uma participação ativa em que cada criança contava uma parte de sua história, ou intervinha na história do outro.

Durante os períodos de contato direto com os alunos, foram executadas atividades de troca de tarefas e de atribuição de papéis aos participantes. Em atividades de montagem de quebra-cabeça, havia uma criança responsável pelo encaixe das peças e outras que eram designadas a encontrar as peças e os locais corretos para encaixá-las. Grande parte das atividades não será apresentada aqui dada a realidade de movimentos das crianças. Grande parte fez alternância com trabalho corporal, a partir de exemplos citados por Schilder (1981).

Foram desenvolvidas atividades de conhecimento do corpo, partindo da curiosidade em reconhecer-se e adivinhar o outro. Cada criança deveria mostrar no seu próprio corpo a parte do corpo do outro, como num jogo de espelhos. Algumas atividades tinham por objetivo o descobrimento dos limites corporais, inicialmente, e em seguida o conhecimento dos limites do outro, no que diz respeito ao desempenho de papéis sociais e de pessoa. À criança era designado um espaço, seu terreno, e ela deveria protegê-lo do ataque dos outros. A atividade era desenvolvida em uma folha de papel dada a limitação de movimento de alguns participantes. Vale ressaltar que foi feito todo o possível para evitar atividades que excluíssem parte das crianças presentes, visto que algumas delas portavam o catéter de soro, outras eram até mutiladas.

A compreensão psicopedagógica de que se serve a pesquisa, inspirou-se nos educadores, psicólogos e psicopedagogos que construíram um pensamento psicopedagógico baseado no diálogo, na tarefa amorosa de educar, na crença no amanhã, na confiança no fazer coletivo, na arte de sonhar construindo pontes de humanidade, juntando as peças do quebra-cabeça que a vida nos apresenta. Como nos enfatiza Fagali (s.d) "Isto supõe, por parte do psicopedagogo, a observação de si próprio, assumindo a influência de sua própria subjetividade (...) reconhecermo-nos como sujeitos atuantes e podermos vivenciar este movimento, reconhecendo a nossa subjetividade, diferenciando-a, relativizando-a, para alcançar a complexidade do outro".

O espaço reservado aos portadoras de câncer do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), bloco C, recebe crianças e adolescentes em idades que variam de 0 a 17 anos. Os pacientes são pessoas geralmente muito frágeis, que foram obrigadas a abandonar os estudos em vista da gravidade da doença. Algumas jamais foram à escola, ou por serem ainda muito pequenas, ou por questões sociais que as impediram de freqüentar um colégio. São, na maioria, provindas de uma classe social baixa, raramente de classe média-baixa, cujos pais muitas vezes são analfabetos, ou têm escolaridade primária incompleta.

Vale ressaltar que a professora é formada em Letras pela Universidade Federal do Ceará e atualmente cursa Serviço Social na Universidade Estadual do Ceará. Além de professora do projeto ABC + saúde, ela exerce as funções de secretária e datilógrafa do setor de Assistentes Sociais do hospital. Antes do projeto, a professora nunca havia entrado em sala de aula, salvo para os estágios obrigatórios do curso de Letras.

O grupo apresentou, em princípio, não apenas distúrbios e dificuldades no processo de aprendizagem; mas dificuldades de relacionamento ou integração, o que comprometia seriamente sua aprendizagem. Esse problema não foi percebido pela professora que, ao contrário, contentava-se em dizer que as crianças não brigavam, que eram bastante quietas e que faziam tudo corretamente, como ela mandava, mas na medida de suas escolhas. Isto é, cada criança escolhia aquilo que desejava fazer naquele dia. A professora aceitava as vontades das crianças por se queixar da dificuldade em trabalhar com a descontinuidade das aulas no bloco, visto que a presença dessas crianças é aleatória e o público é incerto. Por essa razão, todos os passos do processo eram tão aleatórios quanto o público, não possibilitando uma continuidade do processo.

Segundo Maia (1994) "Através da interação do indivíduo com a sociedade, da ação de um sobre o outro e vice-versa, a criança é, aos poucos, introduzida na intricada rede de relações sociais e culturais que formam o mundo social. Por meio da mediação social existente nesta interação dá-se o processo de interiorização, de apropriação dos objetos e conceitos que existem a princípio sob a forma de eventos externos ao indivíduo. Posteriormente, aquilo que era função interpsicológica converte-se em intrapsicológica. Assim, para que o sujeito se constitua enquanto sujeito é preciso que, via mecanismo da internalização, ele se aproprie, interiorize objetos e conceitos presentes no meio físico e social, identificando as características, propriedades e finalidades dos mesmos, o que só pode ser alcançado na e pela interação com as pessoas a sua volta.(...) Portanto, sem a interação com outras pessoas, com adultos ou crianças mais experientes, a criança não seria capaz de adquirir aquilo que obtém por intermédio dessa interação, num processo em que a linguagem é fundamental."

Pela observação feita em sala, foi constatado que a aprendizagem sofria desvios de objetivos: a professora agia segundo o arquétipo junguiano da Grande-mãe, segundo o qual a escola adota uma posição de aceitabilidade, protegendo a criança de toda e qualquer forma de pressão. Foi verificado que as crianças escolhiam a atividade e muitas vezes dominavam o trabalho, não realizavam, assim, completamente as tarefas, ocasionando uma perda de controle de sala. Pôde-se constatar também a ausência de demarcação de limites, por causas óbvias, segundo a professora. Daí termos optado por uma interação inicial de choque às estruturas existentes. As primeiras ações desenvolvidas correspondiam ao arquétipo oposto, ou seja, o Grande-Pai, em que as normas são impostas de maneira, por vezes, até demasiadamente rígidas, a fim de intuir uma direcionalidade no processo que, ao contrário do que se podia esperar, era flutuante.

Outro fator contribuidor das dificuldades do processo de ensino-aprendizagem no hospital, e perceptível, desde o primeiro momento, diz respeito a certa despreocupação das pessoas envolvidas no projeto ABC + saúde com a operacionalidade do grupo ali presente. De acordo com as teorias de Pichon-Rivière, o indivíduo, a partir de sua experiência pessoal, constrói o mundo e se constrói nesse mundo em que está inserto. É a partir dessa inserção que o sujeito aprende visto que aprendizagem é sempre uma leitura crítica da realidade, uma apropriação ativa, uma constante investigação em que a resposta conquistada já se constituiu em princípio de nova pergunta. Deve-se então considerar que a aprendizagem é uma relação psicossocial que necessita de um entorno humano, mas que supõe também uma competência lingüística, além de levar em conta as relações interpessoais, os objetivos da interação e as expectativas dos sujeitos.

Seria necessário que se visse aqui a intenção da escola de acordo com as expectativas do próprio hospital. Há, sem dúvida, uma questão de apoio às crianças sofredoras de câncer; por outro lado, até que ponto há um engajamento por parte das pessoas concernidas no processo de aprendizagem no hospital? Educar é uma missão impossível, na visão de Freud (Kupfer, 1997). Então como interferir num processo impossível tendo já como ponto de partida um agravante físico e biológico como a doença grave, por vezes mortal, o câncer?

Segundo Piaget (1970), um dos principais objetivos da educação é a construção da autonomia moral e intelectual do aluno. A escola deve ensinar de modo a levar o aluno à autonomia, à autoconfiança e à capacidade de decisão, evitando tornar-se um local de submissão, passividade e dependência do professor. Tradicionalmente, o objetivo da escola tem sido levar o aluno a apresentar respostas certas, obter notas altas, repetir o que o professor ensina etc.

Outra visão redimensionadora da concepção de aprendizagem é representada pelo modelo vygotskyano, segundo o qual haveria dois níveis de desenvolvimento: o nível real e o nível potencial. De acordo com Scoz (1994), "A distância entre o nível de desenvolvimento efetivo (real) e o nível de desenvolvimento potencial é chamada zona de desenvolvimento proximal. Através dela, podemos dar conta não só dos processos de maturação já completados, mas também dos processos em vias de se desenvolver, demonstrando que o que uma criança pode fazer com assistência hoje, poderá fazer amanhã sozinha."

O que eqüivale a dizer, ainda na visão da autora, que uma criança nunca será incapaz de aprender, mas que terá seus ritmos diferenciados a serem vencidos com a intervenção do adulto. Ou seja, toda criança estará prestes à aquisição de conceitos levando-se em conta o ambiente em que ela está inserida e considerando a aprendizagem como um momento privilegiado no processo de desenvolvimento da criança.

Sendo a realidade do hospital bem diferente de uma escola, foi necessária uma adaptação do trabalho psicopedagógico no ambiente de acordo com as possibilidades do grupo. Em vez de trabalhar simplesmente a professora em sala, a intervenção psicopedagógica foi feita em contato direto com as crianças.

A partir das primeiras observações, ficou claro que a descontinuidade de que se queixava a professora não passava de um mito criado pelo próprio ambiente, cuja justificativa era a incapacidade atribuída às crianças de entrarem num processo possível de aprendizagem. Ora, visto que havia uma mitificação processual, digredimos aqui para uma pequena explanação sobre a noção de Mito.

Segundo o dicionário Aurélio (1986), Mito. [do gr. mythos, ‘fábula’, pelo lat. mythus]. S. m. 4. Pessoa ou fato assim representado ou concebido. 5. Idéia falsa, sem correspondente na realidade. 7. Imagem simplificada de pessoa ou de acontecimento, não raro ilusória, elaborada ou aceita pelos grupos humanos, e que representa significativo papel em seu comportamento. Parte-se então das idéias de mitificação do grupo do Bloco C do HIAS, e daí conflui-se para um estudo mais aprofundado do caso.

Não é de estranhar que as assistentes sociais, bem como a professora do projeto, agissem de forma protetora sem impor limites nem exigir do público concernido uma maior atenção e consequentemente um melhor resultado pelo aproveitamento do processo. Muito freqüentemente foi observado que as crianças deixavam a tarefa incompleta e trocavam de atividade. A professora nunca intervinha nesse momento preciso, deixando passar uma oportunidade de desenvolver com seus alunos a noção de fechamento da tarefa. Ora, não raro as crianças trocam seus pontos de interesse. A intervenção psicopedagógica foi feita nesse momento, junto à professora. Foi-lhe aconselhado atribuir aos alunos a condição primeira de finalizar a tarefa antes de começar uma outra.

Os conceitos de terminado e não-terminado foram estipulados a partir da visão mais disciplinadora: a criança só poderia iniciar uma segunda tarefa, após haver concluído a primeira. Mesmo que para ela terminar consistisse em pequenos detalhes, era preciso criar o limite de estar fazendo uma tarefa por vez, de forma organizada e responsável.

Muitas dessas crianças vivem ali um processo reeducativo. Não se pode negligenciar o fato de que toda reeducação deve manter uma dimensão socializadora a fim de contribuir para o desenvolvimento integral do sujeito. Logo, atribuir-lhe a incapacidade de aprender e de apreender uma realidade diferente a partir do que se lhe oferece é eliminar a camada real de sua própria existência. O contato com nossas dificuldades na pessoa do outro é que nos faz perceber como, e por quantas vezes, fingimos ou nos mascaramos em nosso papel.

O fato de estar internado por doença grave não exclui o sujeito do ambiente social, nem o priva de sua cidadania. Simplesmente dizer que as crianças não estão ali para um processo escolar e, por via disso, não há uma responsabilidade por parte da professora em que essas crianças aproveitem seu potencial é discriminatório e opróbrio. Sistematizar que uma criança, por estar privada de saúde, não é capaz de desenvolver seu potencial exploratório é viabilizar o próprio fracasso como educador. Como disse Paulo Freire (1998), "Eu agora diria a nós, como educadores e educadoras, ai daqueles e daquelas, entre nós, que pararem com sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e anunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e o agora, ai daqueles que em lugar desta viagem constante do amanhã, se atrelam a um passado de exploração e rotina."

Ainda considerando-se a noção de aprendizagem explorando-a como processo de mudança de comportamento, relevado pelo ambiente, a pesquisa fundamentou-se nas visões piagetiana de desequilíbrio, assimilação e acomodação e finalmente equilibração. São processos cognitivos abrangentes de teor não apenas teórico, mas prático e permissível em qualquer indivíduo independente de sua classe social e econômica. Seria, então, o ponto comum entre os homens: a capacidade de desenvolver o conhecimento.

Conforme a teoria de Piaget, os esquemas já existentes no indivíduo são modificados pela adaptação aos novos aspectos do problema emergente. À luz piagetiana, o déficit são as deficiências situacionais do indivíduo determinadas pela falta de troca entre seu organismo e o meio. Acomodação e Assimilação se complementam mutuamente e são elementos do processo de abordagem dinâmica e ativa do ser humano a um problema. Enquanto através da Acomodação os esquemas são alterados, através da segunda Assimilação eles sofrem uma estabilização, a Equilibração.

No caso específico do hospital, foram consideradas as dificuldades físicas, espaciais, biológicas e emocionais do grupo, dado o contexto em que se inserem. Foram levados em consideração os elementos verbais da família, visto que geralmente os pais acompanhavam as crianças em sala, o que inegavelmente pesava positiva e negativamente ao mesmo tempo. Positivamente por proporcionar à criança certa segurança pessoal. A presença do pai ou da mãe assegurava à criança o ambiente doméstico, livrando-a de possíveis agressões a que ela se sentisse exposta. Por outro lado, negativamente, quando a criança se tornava inteiramente dependente das atitudes do pai/mãe negligenciando a postura do professor e, mesmo, levando o pai/mãe a fazer as atividades em seu lugar.

O grande desafio, inicialmente considerado pertinente ao contato professor-psicopedagogo foi sendo esmagado por uma situação inesperada. À medida que se desenvolvia o trabalho junto às crianças, a professora era parcialmente afastada do setor. Com a presença psicopedagógica, pouco a pouco houve certo eclipsamento da professora que era freqüentemente solicitada pelo setor de Serviço Social a fim de desenvolver tarefas distanciadas da escola.

Embora o trabalho tenha sido continuado junto às crianças, não se pode afirmar que a professora terá tirado proveito das intervenções psicopedagógicas. Entretanto, e isso é o que traz a valia do trabalho, pode-se afirmar a existência de um mito hermético e discriminatório no que concerne à aprendizagem das crianças.

Na verdade, as crianças não eram nem são incapazes. Elas têm dificuldades físicas e emocionais que podem ser atenuadas se refletidas sobre seu próprio saber, sua boa vontade e sua auto-estima, elevadas pelo respeito encontrado em sala de aula. Ora, dentro da realidade da classe de baixa renda, dentro de uma família já usurpada de seus direitos, vivendo a dura, e lamentavelmente infinda, experiência da exclusão, a criança portadora de câncer é primordialmente privada de seu direito de ser criança entre uma gama de outras privações. Daí se constituir uma aliança necessária entre a aprendizagem e a afetividade.

Desde que se possa dar ao grupo a possibilidade de construção e de apropriação da aprendizagem, a operação se faz satisfatória. Em todas as atividades desenvolvidas com as crianças do setor de oncologia do HIAS, em nenhuma ocasião houve recusa ao trabalho. Ao contrário, todas as crianças se engajavam nos jogos, nos exercícios de respiração, na construção de objetos, na colagem de figuras entre tantas outras atividades desenvolvidas. Houve uma melhor aceitação do outro e a cada sessão as crianças eram capazes de reconhecer, muitas vezes pelo nome, os colegas de infortúnio.

Concluímos que existe claramente a necessidade de acompanhamento e tutoria junto à professora dada sua imensa dificuldade de orientar o aprendizado das crianças, até porque não é essa a intenção.

O trabalho desenvolvido no setor às vezes intimidou pela desestruturação dos objetivos da escola. Pôde-se observar que, por vezes, o objetivo do trabalho não foi plenamente atingido, visto que a professora, por ser bastante solicitada no hospital, dada sua posição de secretária, muitas vezes ausentou-se de sala, deixando de seguir o movimento das crianças, o que leva à questão de saber se o processo continuará sem a intervenção psicopedagógica.

Não raro, a pesquisa teve o caráter de creche e ficou parcialmente prejudicada, dada a visão, por parte do pessoal do setor, de que o trabalho consistia em substituir a professora designada. Não se pode dizer que houve integração satisfatória das partes – professor e psicopedagogo – muito embora o relacionamento tenha sido favorável ao acesso psicopedagógico à sala de aula. Todas as pessoas envolvidas no Bloco C foram de grande simpatia e de invulgar aceitabilidade.

As crianças puderam ter uma noção diferente do aprender, partindo de uma nova perspectiva. Ficou evidente a quebra do mito da descontinuidade por estratégias de apropriação do saber. Embora alguns dos alunos não tenham acompanhado até o final do estágio, cada um deles foi uma nova experiência e uma válida construção do processo psicopedagógico institucional e profissional

Será imprescindível dar continuidade ao trabalho começado no setor de Oncologia do HIAS se há o objetivo da criação de uma nova maneira de olhar o paciente de câncer como pessoa. Será necessário dar-lhe uma dimensão prazerosa da vida muito superior ao concedido às crianças normais, promovendo situações de entusiasmo, de alegria, a fim de robustecer-lhes as esperanças. Somente assim estaremos rompendo com o continuísmo pálido das atividades pontuais e fragmentadas do ensino tradicional.

Referências Bibliográficas:

FAGALI, E. Diagnóstico psicopedagógico: uma visão integrativa. mimeo. sd.

FREIRE, P. Educação, um sonho possível. In LEAL, R. Proposta pedagógica para adolescents privados de liberdade: reflexões iniciais. Fortaleza: UNICEF. 22p. 1998.

KUPFER, M. Freud e a Educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione, 1997.

MAIA, C. O jogo enquanto estratégia cognitiva para a formação de um conceito matemático num aluno com atraso no desenvolvimento. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: 1994. Tese de Mestrado. p. 19.

PIAGET, J. L’Épistémologie Génétique. Paris: Presses Universitaires de France. Col. Que Sais-je?, 1970.

SCHILDER, P. A imagem do Corpo: As energias construtivas de psique. São Paulo: Martins Fontes. 1981

SCOZ, B. Psicopedagogia e Realidade Escolar: o problema escolar e de aprendizagem. 2ª ed. Petrópolis: Vozes. 1994.

 

O câncer infantil e a aprendizagem:

uma proposta psicopedagógica de intervenção

Andréa Cavani Jorge e Rita de Cássia R. Mittempergher

(Instituto de Oncologia Pediátrica – GRAACC – UNIFESP - SP)

 

O Instituto de Oncologia Pediátrica – GRAACC/UNIFESP atende crianças e adolescentes com câncer. Esse atendimento acontece preferencialmente em regime ambulatorial, visando minimizar o impacto desse tratamento sobre a dinâmica de vida do paciente e de sua família. Apesar disso, o tratamento oncológico, devido à suas características associadas às terapêuticas utilizadas e seus efeitos colaterais, precoces ou tardios, acaba por interferir de forma significativa nas atividades habituais da criança que por ele passa, em particular em suas atividades escolares.

Foi pensando nisso que, a partir do segundo semestre de 1995, deu-se início a um trabalho psicopedagógico junto a esses pacientes, sob a forma de oficinas psicopedagógicas abertas a todos os pacientes que estivessem presentes à instituição no horário em que estas aconteciam.

Como foi brevemente abordado anteriormente, todo o processo de doença oncológica, desde o diagnóstico, passando pelo tratamento e chegando, quando este tem sucesso, até a sobrevida e cura, interfere em toda a dinâmica de vida do paciente e sua família. Sendo assim, a criança acaba afastada das vivências mais corriqueiras da infância livre de doença, entre as quais a escola. Muitas crianças prosseguem o trabalho escolar durante todo o tratamento, o que em grande parte dos casos tem efeitos positivos mas, mesmo nesses casos, a escola passa a ser uma preocupação menor no todo do desenvolvimento da criança, ao contrário do que habitualmente acontece.

É, entretanto, importante pensar no significado da escola para a própria criança, significado que pode ir muito além da própria aprendizagem de conteúdos, acrescido que é de todas as possibilidades de contato social que favorecem o desenvolvimento global da mesma, afetiva e cognitivamente. É interessante observar que muitas crianças em tratamento estão ansiosas para retomar as atividades escolares ou para se envolver nelas com mais intensidade. Algumas delas, entretanto, mostram-se relutantes em retornar à escola ou enfrentam dificuldades na aprendizagem de conteúdos escolares. Os motivos para isso são variados, oscilando entre dificuldades de aprendizagem propriamente ditas e passando por questões de auto-imagem prejudicada até mesmo por efeitos associados ao próprio tratamento, em particular a queda de cabelos e seqüelas ligadas a procedimentos cirúrgicos ou à própria ação do tumor. É importante ter-se em mente que nem todas essas dificuldades poderão ser solucionadas pela ação psicopedagógica, mas, após cinco anos de trabalho junto a essa população, pode-se afirmar que esta pode oferecer uma importante contribuição em tais casos.

Entre essas contribuições destaca-se a organização de oficinas psicopedagógicas e de grupos de atendimento psicopedagógicos dentro da própria instituição, com o intuito de resgatar o vínculo das crianças e adolescentes me tratamento com a aprendizagem formal, bem como trabalhar dificuldades específicas de aprendizagem, particularmente as associadas a períodos de afastamento ou redução de investimento no trabalho escolar durante o tratamento. A idéia geral dessa proposta seria a de preparar e acompanhar, por um período determinado, a reinserção das crianças e adolescentes em tratamento no universo escolar.

Para a realização desse acompanhamento, passaram a ser oferecidos, então, os seguintes serviços aos pacientes do Instituto de Oncologia Pediátrica – GRAACC/UNIFESP: Oficinas Psicopedagógicas, que consistem em atividades criativas que possibilitam aos participantes a construção de novos conhecimentos. Essas atividades são desenvolvidas dentro da Brinquedoteca Terapêutica Senninha, localizada dentro do próprio Instituto e destinam-se a todos os pacientes que se encontram nesse espaço no horário a elas destinado; Diagnóstico Psicopedagógico, que é realizado sempre que algum paciente do IOP apresenta alguma dificuldade de aprendizagem, tendo por objetivo localizar essas dificuldades e suas possíveis causas, com o intuito de planejar o melhor encaminhamento para a resolução dos problemas em cada caso. Esse encaminhamento pode variar desde a indicação de serviços externos ao IOP, outros serviços do próprio instituto ou indicação de um atendimento psicopedagógico específico; Grupos de Atendimento Psicopedagógico, cujo objetivo é o de atender os pacientes que apresentam dificuldades específicas na área da aprendizagem; Orientação Familiar e Escolar, ponto chave da atuação psicopedagógica, pois visa orientar as famílias e escolas nas quais estão matriculados, ou serão, os pacientes do IOP . Essas orientações giram em torno da importância da escola na vida de uma criança, em particular daquela que se encontra em tratamento, pelas suas características de "projeto a longo prazo", o que motiva a criança até mesmo em seu tratamento, e de possibilidade de atividades sociais, motivo de satisfação e desenvolvimento global da criança. Por outro lado, é importante que as escolas sejam orientadas sobre o tratamento oncológico e suas implicações, buscando instrumentalizá-las para enfrentar uma situação nova como a de receber uma criança que está sendo tratada de câncer; Intervenção de caráter psicopedagógico proposta para os pacientes internados na Unidade de Transplante de Medula Óssea, que visa, acima de tudo, manter um vínculo da criança com a aprendizagem, formal e informal, buscando despertar o desejo de saber, de fazer, de aprender, visto que, normalmente, esses pacientes passam um longo período internados em isolamento; O apoio psicopedagógico oferecido aos pacientes que estão internados gira em torno de propostas que, sem a pretensão de substituir os trabalhos escolares, estimule na criança ou adolescente internados o desejo de conhecer.

Nos trabalhos realizados com os pacientes internados, quer seja em enfermaria, quer seja para transplante de medula óssea são descobertas, num primeiro momento, as áreas de interesse do paciente que viabilizem sua expressão e possibilitem sua participação ativa naquilo que foi proposto. Através dessas atividades, poderão ser detectadas possíveis dificuldades e, como conseqüência, serão propostas atividades com conteúdos mais específicos para cada caso, de acordo com o interesse e a disposição do paciente. Essas atividades podem ser relacionadas com experiências vivenciadas no ambiente escolar, auxiliando no resgate de competências e habilidades de cada paciente.

Como se pode observar, a interação com o psicopedagogo, que deve sempre colocar-se em posição de propiciar a aprendizagem, é fundamental para auxiliar os pacientes em tratamento a demonstrar sua própria capacidade de continuidade, através da criação de algo que servirá a alguém, de sua própria capacidade de aprender e de ensinar também, o que pode exercer papel determinante para que este possa constituir uma auto imagem positiva, mesmo durante um tratamento longo e doloroso como aquele pelo qual está passando.

 

Adolescentes e jovens no hospital de reabilitação:

a necessidade da abordagem educacional e vocacional

Adriana Luna Leitão (Hospital Sarah de São Luís - MA)

 

O Hospital SARAH desenvolve programas de reabilitação destinados a pessoas portadoras de alterações no aparelho locomotor resultantes de diversas patologias. O objetivo dos programas é proporcionar ao paciente a possibilidade de desenvolver, ao máximo, suas capacidades, seu potencial de funcionalidade, para que possa ter condições de retomar seus papéis sociais e atividades nas áreas : afetiva, social, educacional e profissional. Para concretização da proposta o Hospital conta com equipes multidisciplinares, incluindo o professor hospitalar.

As abordagens educacional e vocacional aos adolescentes e jovens hospitalizados em programa de reabilitação formam um complexo que será dividido, abaixo, somente para fins didáticos. Acompanhar o processo de reabilitação de cada adolescente ou jovem é acompanhar como o paciente vai reestruturando em seu interior a retomada de atividades produtivas, de estudo e trabalho, em sua vida, após uma lesão medular ou cerebral.

A abordagem educacional : De acordo com a proposta do hospital e também com os direitos do paciente adolescente (garantidos por legislações do MEC/SEESP, Estatuto da Criança e do Adolescente etc), a atuação do professor será levar o paciente a perceber que, mesmo com as alterações motoras decorrentes da lesão, é possível e é um direito seu reestruturar sua vida, social, educacional e retomar planos inclusive de formação profissional. Concordamos com autores como Fonseca e Ceccim(1999) e Wiles (1987), quando detectamos que a inserção do professor vem demonstrando que as experiências de aprendizado no hospital interferem no auto-conceito do paciente, representam uma injeção de ânimo, infusão de confiança, de crença nos seus progressos e na sua potencialidade; sendo estes aspectos significativos para seu tratamento de reabilitação.

O acompanhamento começa com uma entrevista de admissão com o paciente. Convidamos para participar do grupo pedagógico de adolescentes da enfermaria. Caso o jovem esteja inserido em escola fazemos contatos com a mesma . Se não estiver inserido em escola o jovem desenvolverá os conteúdos junto ao grupo que já está ativo, tendo participação no planejamento.

Organizamos os adolescentes em dois grupos: a) alfabetização e primeiras séries; b) ensino fundamental e ensino médio. Quanto às estratégias e recursos didáticos, procuramos não reproduzir um modelo de ensino tradicional, buscando atividades lúdicas, vivência de experiências etc. Os grupos são operacionalizados com conteúdos programáticos das escolas de origem dos alunos, com outros selecionados no próprio grupo e ainda com outros conhecimentos de interesse dos jovens. O grupo é aberto, tendo uma rotatividade devido às altas e internações periódicas. Há, sem dúvida, um pano de fundo no funcionamento deste grupo: toda a questão do enfrentamento da nova condição motora após a lesão cerebral ou medular. Além dos objetivos pedagógicos, poderão haver outros objetivos para participar do grupo: alguns irão para buscar superar a dificuldade de ir para a escola com a cadeira de rodas, outros para terem certeza de que conseguem aprender, outros para fazer amigos após a lesão, outros para tentar vencer o receio de usar equipamentos diferentes para conseguir escrever etc.

Durante o acompanhamento do jovem, o professor hospitalar realiza contatos com o colégio do paciente ou com um colégio no qual um paciente quer inserir-se. Regulariza sua situação escolar. Conforme o paciente vai sentindo um maior desejo de voltar a estudar, iniciamos um trabalho de percepção das facilidades e das dificuldades que poderá enfrentar. Professor hospitalar, paciente, equipe, família e colégio passam a contribuir para a elaboração e formas de superação destas dificuldades. Passamos a planejar com o colégio a concretização da reinserção. Continuamos o acompanhamento após a reinserção, observando o surgimento de demandas e dando prosseguimento ao trabalho vocacional para a questão profissional.

Nos casos de não aceitação da possibilidade de retomar a vida escolar, o professor mantém contato com o colégio, sinalizando o processo de enfrentamento do jovem e procurando manter uma disponibilidade do colégio para uma reinserção futura. Nestes casos continuamos trabalhando incentivando no jovem a descoberta de outras possibilidades para sua vida, dentro deste complexo formação escolar - formação profissional – trabalho.

A abordagem vocacional: O resultado de um programa de reabilitação só pode ser visto através do retorno às chamadas atividades de vida diária, de vida prática e à condição de vislumbrar seu futuro e planejar sua vida. Muitos adolescentes estão exatamente na fase de vislumbrar um futuro, planejar sua vida adulta. Após uma lesão medular ou cerebral que ocasionam alterações físico-funcionais o jovem, certamente, passa por todo um processo de desequilíbrio de seus planos.

O professor hospitalar no programa de reabilitação trabalha com os jovens a noção de que é possível ter uma vida ativa e produtiva mesmo com a seqüelas motoras. Abordagens em grupo e individuais são realizadas para trabalhar esta noção de vida com algum nível de produção. O grupo de acompanhamento pedagógico descrito no item acima é um espaço onde esta problemática é muito debatida. E se o jovem vem trabalhando a noção de que ainda é capaz de muitas coisas mas não sabe, na prática, o que fazer?

Aí, então, começa o trabalho que denominamos vocacional. Em muitos centros de reabilitação no exterior este trabalho é chamado de reabilitação vocacional ou reabilitação profissional. A abordagem vocacional em reabilitação, que estamos construindo, é contribuir para que o paciente encontre-se enquanto um portador de uma condição motora diferente, com uma realidade social, uma história profissional ou de formação, gostos, anseios e conhecimentos; e que conseguindo articular todos estes aspectos venha a replanejar sua vida ocupacional e profissional.

A partir de um momento de aceitação o jovem poderá voltar a planejar sua vida ocupacional. Ele poderá sentir a necessidade de mudar de campo de formação e atuação profissional ou de adaptar sua forma de trabalho anterior. Nos dois casos o professor continuará a apoiar o jovem. Na estruturação de adaptações o professor buscará o apoio da equipe, com suas recomendações para o jovem. Com a estruturação de adaptações ( que podem ser aparelhos manuais, estratégias alternativas manuais, mudança de horário de trabalho, adaptação do espaço de trabalho etc), passamos a trabalhar com a conscientização da família e do ambiente de trabalho do jovem sobre toda a sua capacidade e potencialidade.

No caso do jovem precisar ou querer mudar de área, tendo ciência da necessidade de novos aprendizados, passamos a apoiá-lo nas novas escolhas. A sua experiência, seus interesses, sua realidade social e sua capacidade físico-funcional deverão ser analisadas conjuntamente. Poderemos apoiá-lo na busca de cursos de formação profissional. Poderemos incentivá-lo no aprendizado com o professor hospitalar ou com colegas, e aqui podemos utilizar setores do funcionamento do hospital como a marcenaria, a costuraria, a jardinagem, os computadores, a cozinha, etc. Aqui trabalho e estudo estão mais ligados, pois voltar a trabalhar está exigindo novos aprendizados que poderão levar o jovem para alguma atividade de estudo.

Por toda a complexidade, somente em uma internação do jovem esta proposta não é concluída. O professor hospitalar continuará o trabalho com o paciente através de revisões, novas internações, marcação de atendimentos ambulatoriais, visitas domiciliares e contatos telefônicos.

Na rede de hospitais SARAH estamos construindo um modelo de atuação do professor hospitalar. Seu trabalho está voltado para o retorno do paciente à vida cotidiana. Desta forma, procura desenvolver uma mediação entre o hospital, ambientes sociais, instituições de ensino e ambientes de trabalho, tendo o sujeito como centro ativo. Estamos em busca de ideal que não traz a classe para o hospital e, ao mesmo tempo, não leva o hospital e o estigma de hospitalizado ou doente para a escola, ambiente de formação profissional ou ao trabalho. Buscamos fundamentação na idéia de que o sujeito hospitalizado é o centro do processo, não está à parte da sociedade, tem seus direitos, seus deveres e deve continuar sua participação social.

Referências bibliográficas:

ALLAIRE, S.; PARTRIDGE, A.; ANDREWS, H. et al. Management of work disability resources for vocational rehabilitation. Arthritis Reumatol.,v.36, n.12, p.1663-70, Dec,1993.

CECCIM, R. Programa Escolar Hospitalar: pesquisa de intervenção e proposição assistencial. Porto Alegre, Faculdade de Educação/UFRGS- Serviço Pediatria/HCPA,1998.

DELISA, J. Medicina de reabilitação: princípios e prática. São Paulo: Manole, v.1, 1992.

FONSECA, E. Classe hospitalar: ação sistemática na atenção às necessidades pedagógicas-educacionais de crianças e adolescentes hospitalizados. Temas sobre Desenvolvimento, v.8, n.44, p32-37. maio-junho. 1999.

FONSECA, E. & CECCIM, R. Atendimento pedagógico-educacional hospitalar: promoção do desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança hospitalizada. Temas sobre Desenvolvimento. v. 7, n.42, p. 24-36. janeiro-fevereiro. 1999.

WILES, P. The schoolteacher on the hospital ward. Journal of Advanced Nursing. n.12, p. 631-40. 1987.

 

Atenção psicossocial e educacional à criança portadora de deformidade craniofacial em uma classe hospitalar

Cristina McFadden, Maria Carolina Lizarelli Bento de Rezende, Silvia Regina Teixeira Pinto de Albuquerque e Vera Lúcia Adami Raposo do Amaral

(SOBRAPAR-SP)

 

O tema escolaridade hospitalar tem sido uma preocupação recente dentro de alguns hospitais, onde a concentração de pacientes em tratamentos prolongados se dá na faixa etária escolar.

Ante a relevância do problema tratamento-escolarização é que se vem desenvolvendo e se instalando esta assistência em entidades hospitalares voltadas a longos tratamentos infantis, uma vez que se verifica que ou os pais abreviam o tratamento que não se completa, ou por algum outro motivo, estas crianças abandonam precocemente a educação escolar, ou nem mesmo chegam a entrar na escola.

É evidente portanto, uma nítida incompatibilidade entre o tratamento necessário médico-hospitalar e a freqüência às aulas, uma vez que ambos estão ocorrendo ao mesmo tempo. Em muitos casos, o tratamento de reabilitação requer vários anos de dedicação e assistência, dependendo da patologia envolvida.

Estando pois, a criança doente passando por um processo que tem influência multifatorial, ela não pode ser assistida e tratada de forma unilateral, atentando-se apenas para o seu aspecto físico e descartando-se os demais.

A reabilitação completa do paciente infantil deve partir para uma abordagem que realmente os aspectos psicossociais sejam considerados e assistidos da melhor forma possível. Cabe ressaltar aqui um estudo de Barbosa (Temas de Pediatria N.º 09) que fez uma revisão referente aos aspectos psicossociais de assistência à criança, em que analisou a literatura existente sobre a influência da hospitalização e tratamentos médicos prolongados sobre o paciente pediátrico. Neste estudo, a autora ressaltou a importância dos recursos de recreação e instrução no meio hospitalar, como forma de amenizar os prejuízos causados à criança que se submete a longos períodos de tratamento médico-hospitalar.

Outra referência que se tem deste tipo de trabalho é de 1988, envolvendo a Associação Hospitalar de Proteção à Infância Raul Carneiro, mantenedora dos Hospitais Pequeno Príncipe e César Perneta, em Curitiba. Sobre este trabalho, foi realizada uma pesquisa em forma de Dissertação de Mestrado em que foram aplicados formulários em cinco grupos de sujeitos-crianças: pais ou responsáveis, professoras da escola de origem, profissionais das equipes técnicas e diretoras da Associação mantenedora dos Hospitais envolvidos na pesquisa (Muggiatti, 1989). Os resultados desta pesquisa mostraram que: "O tratamento médico-hospitalar prolongado e a freqüência escolar são processos antagônicos"; "O trabalho de hospitalização escolarizada favorece a recuperação do doente-escolar"; "O processo pedagógico que se dá neste tipo de trabalho é fator de favorecimento da normalização da vida da criança, em seu reencontro com o meio extra-hospitalar"; "O trabalho de hospitalização escolarizada possui valor terapêutico"; "O trabalho de hospitalização escolarizada corresponde aos interesses dos sujeitos implicados e merece continuidade".

Desta forma, a classe hospitalar torna-se um fator essencial no tratamento das crianças que sentem, freqüentando um ambiente propício, que não estão sozinhas em seu sofrimento e que as pessoas lhe dão atenção especializada. Quando a reabilitação se refere à pessoa portadora de deformidade facial os problemas têm conotações específicas. Por exemplo: a criança portadora de deformidade craniofacial é estigmatizada resultando numa rejeição pela escola; a discriminação, muitas vezes, ocorre pelo fato de a deformidade craniofacial ser confundida com a deficiência mental; os próprios pais para salvaguardarem os filhos portadores de deformidade craniofacial evitam colocá-los na escola.

Diante do exposto, foi proposto a instalação de uma classe hospitalar no Instituto de Reabilitação de Deficiência Craniofacial SOBRAPAR, cujos objetivos são: propiciar um processo de alfabetização dirigido a suprir as múltiplas dificuldades da criança com deformidade craniofacial, visando primeiramente a reabilitação e a prevenção de problemas; capacitar estas crianças nas áreas de maior prejuízo, a fim de reinseri-las em seu ambiente escolar de origem; desenvolver competências psicossociais que permitam às crianças enfrentarem as demandas de seu ambiente; avaliar periodicamente cada um dos pacientes – alunos nas áreas: psicológica, pedagógica, fonoaudiológica e social; a médio prazo avaliar e treinar crianças na faixa etária de recém-nascido a 3 anos, em programa de estimulação precoce.

A instalação desta classe hospitalar, especializada em educação de crianças portadoras de deformidade craniofaciais, é fundamental porque, em um ambiente escolar adequado às suas necessidades, a criança pode produzir mais. Havendo um local que receberá as crianças com problemas de adaptação social à escola, decorrentes de tratamentos freqüentes e prolongados, evitam-se muitos casos de evasão escolar em idade precoce. Acredita-se que, por meio da assistência especializada de uma equipe, (Psicologia e Pedagogia, por exemplo) pode-se detectar muito cedo a dinâmica do problema da criança e fornecer-lhe a ajuda necessária em momento oportuno.

No Hospital SOBRAPAR cerca de 65% da população atendida tem menos de 14 anos. Este fato nos faz deparar com casos de crianças com problemas de adaptação à escola devido às múltiplas deficiências de que são portadoras (dificuldades verbais, motoras e adaptação social); como também enfrenta-se casos de crianças cujos tratamentos freqüentes e longos são incompatíveis com uma freqüência escolar regular.

Dois postulados fundamentais norteiam o presente trabalho: o esforço é positivo e preventivo, não se limitando a combater doenças, mas priorizando a promoção da saúde; busca-se uma forma de trabalho que procura a harmonia biopsicossocial da criança.

Método: Local: SOBRAPAR – Sociedade Brasileira de Pesquisa e Assistência para Reabilitação Craniofacial. A SOBRAPAR é um centro de tratamento e reabilitação de pacientes com deformidades craniofacial congênitas ou adquiridas. O espaço físico onde funciona a classe hospitalar é a sala de recreação da SOBRAPAR, medindo 7,05m por 4,65 m, bem arejada e iluminada.

Sujeitos: todas as crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem e/ou não freqüentam a escola por motivos já expostos.

Recursos Humanos: uma pedagoga responsável pelo funcionamento da classe hospitalar, programa pedagógico e atividades, uma professora voluntária para auxiliar nas aulas, uma assistente social para viabilizar a presença das crianças às aulas, uma psicóloga para avaliar e dar assistência psicológica à criança e sua família.

Recursos materiais: sala de aula, 4 mesas e 16 cadeiras, sendo 2 mesas pequenas e 2 de 80 cm de altura para atender às crianças. Uma lousa de 3m x 1,20m, Apagador e giz, mural, livros e brinquedos, canetas, tesouras sem ponta, lápis, borracha, giz de cera, massa para modelar, tintas, papel sulfite, ventilador, revistas para recorte, material para sucata, 4 colchonetes.

Procedimento: Avaliação Psicológica: cada sujeito é avaliado individualmente, utilizando-se as provas de inteligência (Colúmbia, Raven-Escala Especial e Goodenough), coordenação viso-motora (Bender Infantil) e duas provas de avaliação psicopedagógica inicial (APPI e Teste Metropolitano de Prontidão), observando-se também comportamentos dessas crianças durante sua permanência na SOBRAPAR e entrevistas com os pais. Ao fim do semestre, a psicologia reaplica as provas utilizadas na avaliação individual para comparar os resultados. É oferecido assistência aos pacientes que apresentarem distúrbios de comportamento e os pais serão orientados. Avaliação Pedagógica: a professora mantém os registros individuais de desempenho do paciente-aluno, com vistas a um efetivo controle de seu aproveitamento. É utilizado um protocolo de avaliação pedagógica que conta com itens referentes aos aspectos cognitivos, motores, linguagem e sociais. Avaliação Social: essa profissional tem, por objetivo eliminar as barreiras sociais que possam interferir na freqüência da criança à escola, realizando reavaliações periódicas para verificar qualquer dificuldade que possa prejudicar a assistência da criança na classe hospitalar.

Concluimos que o tipo de assistência oferecido à criança em uma classe hospitalar é o ideal para crianças que passam anos de suas vidas em tratamento, com sérios prejuízos ao seu aproveitamento escolar. Acredita-se que a atividade de aprendizagem é maior num ambiente mais acolhedor e mais dirigido às necessidades individuais de cada criança.

Por meio de pesquisas sobre o desempenho escolar dos pacientes, alunos, pretende-se contribuir para a bibliografia tão escassa sobre o tema, bem como incentivar a formação de outros trabalhos similares.

 

Acompanhamento pedagógico às crianças internadas nas enfermarias de pediatria do Hospital Universitário de Juiz de Fora

Flávia Souza Ciccarini, Gerlúcia Gonçalves de Paiva e

Janaína Rocha Pinheiro (UFJF - MG)

 

O projeto de acompanhamento pedagógico às crianças internadas nas enfermarias de Pediatria tem como unidade proponente o Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com o Colégio de Aplicação João XXIII (Ensino Médio) e o Departamento de Psicologia, e faz parte do 7º Programa de Treinamento Profissional da Pró-Reitoria de Graduação (PROGRADE).

Trata-se de um trabalho integrado para o acompanhamento pedagógico às crianças internadas nas enfermarias de Pediatria, na faixa de 0 (zero) a 12 (doze) anos, sob supervisão pedagógica e psicológica. Participam do presente trabalho 03 (três) alunas bolsistas, sendo 02 (duas) do 3º ano do Magistério e 01 (uma) acadêmica do curso de Psicologia da UFJF.

As crianças internadas têm assistência médica, de enfermagem, psicológica e social. Objetivamos ampliar esses cuidados, oferecendo-lhes também atividades de caráter pedagógico, já que algumas crianças necessitam de internação hospitalar prolongada, o que as mantêm afastadas de seu meio familiar, social e escolar, interferindo em suas atividades habituais e na capacidade para desenvolvê-las. Este acompanhamento é realizado de 2ª a 6ª feira, no horário de 16:00 às 17:30 hs.

A partir da regulamentação do Estatuto da Criança e do Adolescente, as crianças adquiriram o direito de internarem com o acompanhamento da mãe e/ou responsável. Pretendemos assim, junto à criança, fortalecer o laço estabelecido com a aprendizagem e a escola e, em relação à família, desejamos implicá-la na busca do direito do filho freqüentar uma sala de aula. Afinal, sabemos que algumas escolas não aceitam ou desestimulam o ingresso de crianças com doenças crônicas ou graves. Desse modo, o nosso trabalho busca a preservação do vínculo com o processo educativo, de modo a minimizar o impacto da separação criança-escola, às vezes feita de modo abrupto.

Os objetivos iniciais deste projeto, que está sendo realizado desde o mês de Setembro de 1999, têm se ampliado a cada dia, nos remetendo a novas questões e possibilidades de atuação, relacionadas aos pais, professores e às crianças. Podemos destacar a possibilidade de estreitamento do contato com a escola, através do envio de uma carta ao professor da criança internada ou até mesmo visitar a instituição escolar, a fim de que haja um esclarecimento sobre sua patologia e os responsáveis por sua educação se tornem nossos aliados. Em relação aos pais e/ou acompanhantes, destacamos a sua importância neste processo, já que, se bem orientados e cientes da dificuldade de seu filho, podem continuar a estimular a criança nos estudos, para que ela não se deixe vencer por dificuldades muitas vezes simples, mas que interferem diretamente na sua vida escolar e social.

Quanto à nossa atuação, num primeiro momento, procuramos desenvolver atividades, sempre de acordo com a faixa etária de cada criança, para que sejamos capazes de detectar, se esse for o caso, alguma dificuldade de aprendizagem ou até mesmo dificuldades motoras e perceptuais, muitas vezes presentes em crianças pré-escolares. O fato do acompanhamento ser individual faz com que tenhamos um contato mais estreito com a criança e seu responsável, o que facilita detectarmos a dificuldade e trabalharmos de modo adequado com cada uma. As atividades pedagógicas são realizadas através de oficinas de leitura, dramatização, jogos, trabalho corporal, trabalhos manuais, dentre outros, sempre levando em consideração a idade da criança, o seu meio social e sua condição física.

Dentre os nossos principais objetivos, destacamos também a possibilidade de fazermos o encaminhamento da criança para um profissional especializado, a fim de que este seja capaz de trabalhar com a criança e sua família e dar, de alguma forma, continuidade ao nosso trabalho.

Durante o período de trabalho pedagógico desenvolvido na Pediatria, tivemos a oportunidade de vivenciar momentos de escrita espontânea de uma criança de 07 (sete) anos, que ficou internada durante quatro dias no Hospital Universitário, com o diagnóstico de pneumonia. A criança J. freqüentava a escola, cursando, naquele momento, a 1ª série do Ensino Fundamental.

No primeiro dia, conversamos um pouco com J. e lhe propusemos, após a leitura do livro "O Gato de Botas", que fizesse uma variação dessa estória, a partir da qual pudemos constatar que a criança apresentava uma falta de segmentação da escrita, ou seja, percebia uma frase como um bloco tonal.

Partindo desta constatação, procuramos promover atividades que possibilitassem a criança vencer essa etapa no processo de aquisição da escrita. Após alguns contatos com literatura e o comentário feito por outra criança sobre o modo que J. escrevia, pudemos perceber que ele começou a refletir sobre a língua e sua segmentação. Após dois dias, foi proposto a J. que fizesse uma produção de texto baseada na estória "Chapeuzinho Vermelho", que o mesmo havia folheado, não lido. Após essa seqüência de atividades, a criança começou a perceber e apresentar em seu texto a segmentação da escrita, demonstrando algum progresso nesse período.

Outro caso que nos chamou a atenção, foi o da criança R, de cinco anos, a qual não freqüentava a escola. Ficou internada durante quatro dias no HU, por problemas respiratórios. Neste período, R. demonstrou muito interesse em "reconhecer os números" e, a partir da sua curiosidade, iniciamos um trabalho de associação de quantidades aos símbolos numéricos e reprodução dos mesmos, onde o algarismo que lhe era mostrado, era apresentado em quantidades. Após essa associação, invertemos a atividade, onde a quantidade era mostrada e a reprodução do número era solicitada. R. possuía uma coordenação motora desenvolvida e noção de quantidades sólidas.

Os objetivos propostos à criança R. tiveram êxito, já que R. passou a compreender a relação de número e quantidade, podendo assim, ao entrar na escola ou com o estímulo dos familiares, construir os demais conceitos sobre números.

A partir desses dois relatos, e do acompanhamento de várias outras crianças internadas, podemos afirmar que a nossa atuação proporciona momentos em que a atenção individual possibilita mais facilmente a constatação de problemas na aprendizagem e, principalmente o avanço no desenvolvimento global dessas crianças, que apesar de pertencerem a meios sociais muitas vezes diferentes (estimuladores ou não), demonstram interesse e sentem-se motivadas a participarem das atividades.

Este projeto é pioneiro na UFJF e busca abrir um novo campo de trabalho na área hospitalar. O trabalho, duplamente supervisionado (Psicologia e Pedagogia), sustentado na prática e fundamentado em pressupostos teóricos, permite a ampliação de conhecimentos, de recursos disponíveis e a criação de estratégias para se trabalhar com crianças em situações especiais, promovendo ainda a multidisciplinaridade. A participação em programas alternativos possibilita novos estudos, pesquisas, bem como a construção de novos caminhos no exercício profissional.

 

Dez anos do programa de apoio pedagógico hospitalar

no Hospital de Clínicas de Porto Alegre: mascas do processo histórico

Claure Terezinha da Silva e Rosani Girardi (HCPA-RS)

 

A Escola Estadual de 2º Grau no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Escola Técnica em Saúde, completa 10 anos de atividade no ensino profissionalizante na área da Educação e Saúde e com ela o efetivo funcionamento do Programa de Apoio Pedagógico (PAP) neste Hospital.

A partir dos relatórios do PAP apresentados à Escola Técnica em Saúde de 1990 a 2000, foi possível reescrever seu processo histórico. O projeto denominado Programa de Apoio Pedagógico propõem se a cumprir o Protocolo de Intenções de 12 de janeiro de 1989, firmado entre a Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do sul e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

O presente documento versa sobre a colaboração mútua entre as duas instituições, no sentido de promover o ensino, a pesquisa e a prestação de serviços, favorecendo a ambas o pleno aproveitamento dos recursos humanos e materiais disponíveis para o desenvolvimento de novas tecnologias e experiências em Saúde e Educação. Prioriza as ações pedagógicas continuadas em classe escolar hospitalar, constituindo-se em uma prática diferenciada de Escola, inserida no Hospital, oferecendo, às crianças hospitalizadas, o acompanhamento do currículo escolar da série que freqüenta em sua Escola de origem.

O Hospital de Clínicas de Porto Alegre, como hospital universitário de atenção múltipla, tem por objetivo a assistência, o ensino, a pesquisa e a promoção da saúde como critério de cidadania. O HCPA tem se caracterizado pela constante busca da atenção humana e integral às necessidades de seus pacientes.

No serviço de Pediatria, desde sua implantação na década de 70, os familiares dos pacientes podem permanecer em contato constante com as crianças. Esta possibilidade foi tornada obrigatória, pelo art. 12 do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei no. 8069, de 13/07/90, atualmente ratificada pelo Ministério da Justiça, através do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Resolução no. 41 de outubro de 1995, que amplia, ainda, art. 8, "direito de ter conhecimento adequado da sua enfermidade, dos cuidados terapêuticos e diagnósticos, respeitando sua fase cognitiva, além de receber amparo psicológico quando se fizer necessário", art. 9, "direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do currículo escolar durante sua permanência hospitalar" e art. 14, "direito a proteção contra qualquer forma de discriminação, negligência ou maus tratos".

O atendimento pediátrico no HCPA é prestado por uma equipe multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, recreacionistas e nutricionistas. Este atendimento é realizado dentro de uma perspectiva transdisciplinar, isto é, o paciente é abordado globalmente em suas diferentes características bio-psico-sociais. A presença de um educador é indispensável para compor esta equipe e fazer um elo de ligação entre o paciente e sua principal ocupação fora do hospital: estudar. O professor, que por sua formação profissional, pode desenvolver junto a equipe ações pedagógicas continuadas e mais humanizantes, ampliando assim as possibilidades de um atendimento integral ao paciente, levando-se em consideração as suas necessidades e as suas reais possibilidades, enquanto estiver doente.

Até então, as atividades pedagógicas eram consideradas importantes, mas trabalhadas informalmente.

Desta forma, principalmente os pacientes crônicos com internações prolongadas e repetidas, crianças com Fibrose Cística ou Câncer, assim como, as gerais, como asma brônquica, doenças cardíacas, renais, psiquiátricas, ortopédicas, transplantados, eram as que mais necessitavam desse atendimento, pois perdiam mais tempo escolar regular.

A Secretaria de Educação, através da Escola Estadual de 2ºGrau no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Escola Técnica em Saúde, comprometeu-se em designar um professor para assumir este compromisso não apenas com o Hospital de Clínicas, mas com a comunidade gaúcha, estendendo-se também aos pacientes de outros Estados brasileiros internados neste hospital.

Ao Hospital de Clínicas coube providenciar o espaço físico, isto é, a sala de aula e pessoal de apoio: higienização, manutenção e materiais escolares necessários para a execução do PAP.

O Programa foi organizado de forma a possibilitar a participação das crianças internadas no Serviço de Pediatria do HCPA em atividades individuais ou coletivas, que desenvolvam diferentes aspectos, tais como: linguagem oral e escrita, compreensão, memória, percepção, espaço, tempo, sociedade-natureza, pensamento lógico-matemático, representação gráfica. Tais atividades possibilitam a avaliação e o acompanhamento do desenvolvimento cognitivo das crianças hospitalizadas, com o objetivo de acompanhar plenamente o processo de aprendizagem, estabelecendo, de forma concreta um sistema de referência e contra-referência pedagógica, bem como, fornecer aos professores subsídios para o entendimento da doença , com isso favorecendo a aceitação e reintegração do aluno, facilitando o retorno do mesmo à sua Escola de origem, sem prejuízo no desenvolvimento das atividades curriculares.

Este atendimento pedagógico não tem realizado suplência escolar dentro de uma linha tradicional, mas sim um acompanhamento, através de uma dinâmica diferenciada de Educação.

A demanda desta atividade surgiu da Equipe Multiprofissional da Internação Pediátrica que vinha constatando que grande parte das crianças que faziam internações prolongadas ou recorrentes acabavam excluindo-se da Escola. Estes profissionais acreditavam que a existência de técnicos da área educacional na Pediatria poderia favorecer o desenvolvimento cognitivo e a permanência das crianças na Escola, após a alta hospitalar.

Com a vinda de diversos profissionais da Secretaria de Educação/RS para a organização da Escola Técnica em Saúde foi possível realizar uma ação inter-institucional integrada. Os primeiros passos na elaboração e implantação do PAP foram: a realização de observações participativas das práticas e rotinas hospitalares e entrevistas com diferentes profissionais para ouvir a demanda e as expectativas com relação ao Programa. Faz-se necessário destacar, que as observações foram fundamentais, pois os profissionais da área da educação não têm nenhum contato, na sua formação, com instituições hospitalares, dificultando a compreensão do seu funcionamento. Além disto, o professor não possuía um papel socialmente definido nestas instituições.

A partir do mês de setembro de 1990, tiveram início as primeiras sessões de trabalho pedagógico com as crianças internadas.

Com a construção da Unidade de Internação do Serviço de Oncologia Pediátrica do HCPA, pelo Instituto do Câncer Infantil, em 1995, o Programa de Apoio Pedagógico precisou estender-se a estas crianças e adolescentes, que eram atendidos no Serviço de Pediatria.

Também, de 1995 a 1998, o Programa de Apoio pedagógico contou com a participação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, num projeto de extensão universitária, com a finalidade de pesquisa.

A Escola Técnica, juntamente com Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, integram-se, hoje, para discutir e formalizar o programa, na qualidade de Escola de Ensino Fundamental e Médio, que garanta ao paciente, a validade de sua freqüência e avaliação realizadas no PAP, como ensino regular contínuo, principalmente para aqueles crônicos, que fazem internações prolongadas e recorrentes. Implicando necessariamente, na estruturação e inclusão do atendimento escolar hospitalar, nos currículos dos Cursos de Magistério e Pedagogia.

 

A educação além dos muros da escola

Ana Lúcia Tarouquella Schilke

(Fundação Municipal de Educação-Niterói e Hospital Getúlio Vargas Filho-RJ)

 

O hospital é um lugar com espaço e tempo que garante ao ser humano uma possibilidade de vida saudável. Este objetivo é desenvolvido através de diversas atividades que visam a promover mudanças efetivas na saúde. Nesta perspectiva, o hospital, juntamente com outras instituições ligadas a saúde pública, não pode ter sua atuação restrita ao atendimento urgencial da sua clientela. O que se percebe é que o problema da saúde não pode ser resolvido dissociado de problemas de saneamento básico, baixa qualidade de vida, falta de escolarização e desemprego.

De acordo com a ótica acima proposta, devemos buscar na educação uma pedagogia transformadora que contribua para o processo de promoção da saúde, pois este caminho não é só físico, ele esta permeado por questões sociais, políticas e econômicas. Assim, a educação surge como mais uma possibilidade de auxílio à criança internada.

A hospitalização é um acontecimento que modifica completamente a vida da criança e de seus familiares, pois a sua rotina é alterada, e a criança sofre freqüentes intervenções dolorosas.

Durante a internação a criança é colocada em enfermarias com outras crianças com patologias variadas. Se seu diagnóstico apontar para uma enfermidade contagiosa a criança fica em enfermaria isolada. Este período a criança e seus familiares convivem com situações de medo e tristeza. A criança fica afastada das sua referências cotidianas como ir a escola, brincar com amigos e parentes. Este novo espaço demanda muito sofrimento oriundo de várias intervenções invasivas e desconhecidas a criança e a sua família.

O desconhecimento dos fatores que geram determinada enfermidade e toda uma nova rotina do hospital, favorecem para o surgimento de um clima de desconfiança e incerteza. Criança e acompanhantes não se reconhecem com sujeitos do seu processo de promoção de saúde , sentindo-se a margem deste momento novo, delicado e transformador.

A proposta educativa pensada no Projeto Classe Hospitalar no Getulinho - Projeto de Educação e Saúde desenvolvido há cinco anos no Hospital Getúlio Vargas Filho, Hospital Público de referência pediátrica de Niterói e Adjacências, em parceria entre a Fundação Municipal de Educação de Niterói e o referido hospital - é a utilização de atividades pedagógicas realizadas no ambiente hospitalar objetivando contribuir para a diminuição dos efeitos traumáticos da internação. O professor atua como mediador entre a criança e seus familiares com os objetos e pessoas deste novo ambiente, estimulando o pensamento, construindo, destruindo e reconstruindo situações decorrentes das relações vivenciadas no ambiente hospitalar.

Nesta perspetiva, a abordagem pedagógica é entendida como instrumento redutor do impacto causado pelo distanciamento da rotina da criança, principalmente no que se refere ao afastamento escolar. O período de internação é transformado, então, num tempo de construção de conhecimento e aquisição de novos significados, não sendo preenchido apenas pelo sofrimento e o vazio do não crescimento.

Referências bibliográficas:

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa – 7ª ed. Coleção Literatura. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

GARCIA, R. Cartas londrinas e outros lugares sobre o lugar da educação. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1998.

REZENDE, A. Saúde: dialética do pensar e do fazer. São Paulo: Cortez. 1986.

SCHILKE, A. A conquista da saúde: uma possibilidade pedagógica. Niterói, RJ: Universidade Federal Fluminense. Monografia de Conclusão de Curso de Pedagogia. 1999.

 

 

Pedagogia hospitalar

Elizete Lúcia Moreira Matos e Margarida M. T. de Freitas Muggiati

(Hospital Infantil Pequeno Príncipe - PR)

 

O presente trabalho refere-se ao Projeto Mirim de Hospitalização Escolarizada, o qual foi estruturado no Hospital Infantil Pequeno Príncipe mediante um convênio com as redes Estadual e Municipal de Educação do Estado do Paraná.

O projeto objetiva a continuidade da escolarização para crianças/jovens em idade escolar que, por enfermidade, necessitam ficar longos períodos afastados da escola, gerando atrasos no aprendizado e ou abandono da escolaridade.

Em paralelo a este trabalho, buscou-se levantar dados teóricos científicos para alicerçar este atendimento dentro de um contexto acadêmico na PUC/PR, preparando, para tanto, o profissional de nível superior – o pedagogo – nessa tarefa junto à realidade hospitalar.

Por meio do estudo e da observação do Projeto Mirim de Hospitalização Escolarizada e por uma demanda social, levantou-se dados que demonstraram a emergente necessidade de uma Pedagogia Hospitalar, cuja peculiaridade requer um novo processo alternativo de ensino e ludicidade que ultrapasse o contexto formal da escola.

O trabalho, portanto, levanta parâmetros para o atendimento das necessidades do educando especial com necessidades transitórias, as quais estabelecem as bases para o desenvolvimento de um novo campo de atuação para o pedagogo em ambiente hospitalar. Este docente irá elaborar sua prática para atender as necessidades existentes de maneira específica, interagindo paciente, escola e família. Trata-se de conceber uma nova realidade inter, multi e transdisciplinar no contexto hospitalar com características lúdicas e educativas.

 

RESUMO DE PÔSTERES

 

Escola Especializada Schwester Heine

(Departamento de Pediatria do Hospital do Câncer – Fundação Antônio Prudente - Rua Antônio Prudente, 211 – Liberdade – SP)

 

Horário de Funcionamento: 8 às 17h. Corpo Administrativo: Um (1) diretor. Corpo Docente: Oito (8) professores. Número Médio de Alunos Atendidos: 40 alunos/pacientes - dia (internação) e 60 aluno/pacientes - dia (hospital-dia). Faixa Etária: 0 a 6 anos, 7 a 12 anos, 12 a 18 anos. O acompanhamento escolar é realizado enquanto em tratamento. Séries: Educação Infantil e Ensino Fundamental e Médio. Metodologia: Numa abordagem pedagógica cognitiva/ interacionista, realizamos o acompanhamento escolar do aluno/ paciente. A principal proposta é atender aos diferentes níveis de aprendizagem. As atividades propostas partem de oficinas pedagógicas, com o objetivo de oportunizar ao aluno/paciente transformar-se em ensinante (A. Fernandes) no processo ensino-aprendizagem, possibilitando circular o conhecimento, na dinâmica a qual denominamos de: "Teia Do Conhecimento". Espaço Físico: Uma sala (9mx5m) no 5º andar – Internação, Uma sala (2mx3m) no 1º andar – CQT e Uma sala (10mx10m) no térreo – Ambulatório

 

Atendimento escolar hospitalar da Santa Casa de Campo Grande – MS

 

Em 1996, iniciou-se o atendimento escolar hospitalar na Santa Casa de Campo Grande, hospital geral, o qual é filantrópico, referência na região Centro-Oeste e a quarta maior no Brasil. O trabalho se realiza por intermédio de Classes Hospitalares consistentes em ambientes próprios que possibilitam o acompanhamento educacional de crianças e adolescentes que necessitam de atendimento escolar diferenciado por se encontrarem em tratamento hospitalar (Política Nacional de Educação Especial, 1994). O objetivo do atendimento é possibilitar a continuidade da escolarização de crianças e adolescentes internados na unidade, bem como o início desta para crianças e adolescentes que não estejam freqüentando o sistema regular de ensino; minimizar possíveis perdas ou atrasos no desenvolvimento da criança como conseqüência da hospitalização; intervir junto à criança internada de modo a diminuir o impacto emocional causado pela internação; atuar com fim de propiciar à criança melhor e mais rápida adaptação ao ambiente hospitalar, já que o trabalho pedagógico contribui para que as crianças e suas famílias mantenham elo com o mundo fora do hospital. O referido atendimento é realizado por três pedagogas (Jucélia Linhares Granemann, Teresinha de Jesus Abreu de Souza e Maura Regina P. Martins, cedidas pela Secretaria de Educação do Estado), com Especialização em Educação Especial e Psicopedagogia que atendem 120 educandos ao mês, com até 12 anos, oriundos da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Estes educandos são atendidos no leito, no espaço pedagógico e em uma sala de recreação, por uma equipe técnica da Unidade de Apoio à Inclusão ao P.N.E. (psicólogo e pedagoga). A metodologia utilizada neste trabalho estimula a interação espontânea existente entre crianças e pode fazê-las elaborar sua própria necessidade de hospitalização e sua relação com a aprendizagem. Neste sentido, a criança tem oportunidade, se de forma organizada, de entender aquilo que estão passando através do conhecimento da aprendizagem (abordagem-perspectiva - existencial - humanista - sócio-interacionista). Tal perspectiva deve-se por se perceber que a criança hospitalizada nos seus instantes de existência expressa emoções, motivos, interesses, esperança, uma história a ser contada (social), ficando nítido o aumento progressivo de reações que estão passando através do conhecimento e da aprendizagem. As atividades lúdicas oferecidas às crianças através de jogos e brincadeiras ajudam as crianças a ganharem mais confiança e suportarem seu processo de recuperação. Já acompanhamento pedagógico às crianças que já estão em idade escolar mantém o vínculo das mesmas com a aprendizagem, deixando-as menos ansiosas com o retorno à escola. Acreditamos, assim, que um o trabalho pedagógico atento, decidido e amigo, pode ajudar senão muito, o suficiente para suavizar de algum modo essas horas sofridas da vida de uma criança hospitalizada.

 

Classe Hospitalar Jesus – RJ

Rua Oito de Dezembro 717, Maracanã 20550-200 Fone: (21) 569-4088 ramal 276

Através de um convênio firmado entre a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria Municipal de Educação foi implantado, no Hospital Geral Jesus, hoje, Hospital Municipal Jesus, a modalidade de atendimento da Educação Especial denominada Classe Hospitalar em 14 de agosto de 1950. O objetivo deste serviço educacional, institucionalmente garantido pela Secretaria Municipal de Educação/ Instituto Helena Antipoff (Educação Especial) é atender pedagógicamente as crianças e adolescentes internados, minimizando os prejuízos educacionais, sociais e emocionais decorrentes da hospitalização. A Classe Hospitalar Jesus é estruturada para atender pedagógicamente o Segmento de Educação Infantil e o 1o Segmento do Ensino Fundamental, funcionando de 2a à 6a feira, de 12h45min às 17h15min, cumprindo carga horária semanal de 22 horas e 30 minutos, requisitados pelo Instituto Helena Antipoff. Os professores que atuam na Classe Hospitalar são efetivos da Rede Oficial de Ensino do Município, habilitados para lecionar no 1o Segmento do Ensino Fundamental (até a 4a série do 1o grau). O Hospital Municipal Jesus, compreendendo a importância do trabalho da Classe para as crianças e adolescentes investe na humanização da instituição disponibilizando espaços físicos que muito se assemelham aos espaços organizados nas escolas além de abrirem as portas das enfermarias, para que a Classe se organize de modo que possa atender as crianças em grupo ou individualmente também nas enfermarias. Somente as crianças e adolescentes que são autorizadas pela equipe de saúde a sairem das enfermarias é que podem freqüentar o ambiente escolar hospitalar. Cabe ressaltar que existe uma relação harmônica na instituição entre a Classe, o Hospital e seus respectivos serviços; entre a Classe, os pacientes e acompanhantes, a fim de que a Classe Hospitalar Jesus cumpra com qualidade o seu papel e possa contribuir para a recuperação da criança e do adolescente , do cidadão em formação. A Classe Hospitalar Jesus contempla a auto estima da criança, lhe dá um sorriso, segura a sua mão ,acredita e a faz acreditar que merece viver; que é capaz e se propõe a promover o encontro da criança com suas possibilidades de fazer, realizar, estudar, sorrir, sonhar, vencendo a dor, reencontrando o sentido da escola e o prazer de viver. A realidade da Classe Hospitalar Jesus foi a seguinte para o ano de 1999: Crianças atendidas: 1161; Faixa etária entre 0 e 14anos e 11 meses; 5 professoras, 1 elemento de apoio, 1 coordenador. Os segmentos educacionais atendidos foram Educação Infantil e 1o Segmento do Ensino fundamental (até a 4a série do 1o Grau). O espaço físico constitui-se de 2 salas de aula(1 funciona a secretaria), 1 salão adaptado em dois espaços e 3 enfermarias.

 

 

Classe Hospitalar em Marília – SP

 

A Classe Hospitalar localizada na cidade de Marília, interior de São Paulo, funciona no Hospital das Clínicas: Unidade II – Materno-infantil. Para fins administrativos a Classe Hospitalar está vinculada à Diretoria de Ensino de Marília, na escola mais próxima do hospital, a Escola Estadual Professora Carlota de Negreiros Rocha. Os objetivos da Classe Hospitalar em Marília são: impedir a interrupção do processo de aprendizagem da criança internada para no futuro ser integrada à sala de aula; contribuir para diminuir o trauma hospitalar ao trazer para o hospital uma parte de sua vida que é a escola; ampliar o serviço hospitalar ao fazer a junção da educação com a saúde; contribuir para a recuperação da criança ao atribuir-lhe responsabilidades educacionais; orientar o aluno, o professor da escola de origem, a família; e, proporcionar condições para a continuidade e alcance da terminalidade escolar, adequadas às características individuais. A Classe Hospitalar em Marília começou a funcionar em fevereiro de 1998, após aproximadamente um ano e seis meses de trâmite do processo. O interesse inicial para abertura da Classe Hospitalar foi do profissional, ou seja, professor devidamente habilitado (curso superior de Pedagogia, habilitado em Educação Especial – área Deficiência Física). Também foi necessário um parecer do diretor do hospital, do diretor da escola, laudo médico de pelo menos dez crianças hospitalizadas (os laudos apresentados foram das crianças do setor da Hematologia). A documentação foi encaminhada para a CENP (Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas) que aprovou a abertura da Classe Hospitalar. A Classe funciona 20 horas semanais e somente uma professora para realizar o trabalho. As crianças são pacientes que permanecem hospitalizados sem ter um período de internação estabelecido para o atendimento educacional, pois segundo a Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP, 1987) a classe hospitalar é o atendimento educacional oferecido às crianças e jovens hospitalizados para tratamento por período prolongado ou não. A faixa etária das crianças está entre 3 a 14 anos de idade, portanto, a escolaridade varia da pré-escola e ensino fundamental – I e II ciclos. Assim, as atividades desenvolvidas são diversificadas e condizentes com a idade e nível de desenvolvimento da criança ou adolescente. Em média são atendidas 7 crianças diariamente. Quando a criança fica hospitalizada por um período de tempo superior a duas semanas, a professora da Classe Hospitalar encaminha um relatório para a escola de origem da criança explicitando o desenvolvimento e desempenho da criança na execução das atividades pedagógicas. Não existe uma sala específica para o funcionamento da Classe, mas as atividades são desenvolvidas no refeitório que se encontra na enfermaria pediátrica, muito próximo dos leitos das crianças. Aquelas crianças que não podem se locomover até a sala, são atendidas no próprio leito.

 

Classe Hospitalar Lagoa – RJ

 

A Classe Hospitalar Lagoa está localizada no Hospital Geral da Lagoa à Rua Jardim Botânico, 501 – RJ, recentemente municipalizado.

A Classe Hospitalar Lagoa conta com duas professoras, sendo que uma delas acumula a função de coordenadora da Classe Hospitalar. A Classe é composta por duas turmas, sendo uma de Educação Infantil – que atende crianças de 4 e 5 anos e uma de Ensino Fundamental – que abrange alunos de 6 a 15 anos cursando as séries iniciais. Desde sua implantação em junho de 1999 até abril de 2000 a Classe atendeu a 142 alunos, com uma média de 14 alunos/mês. O atendimento pedagógico é individual e feito nos próprios leitos, em cada enfermaria. A Classe Hospitalar ainda não conta com salas de aula. Esta Classe Hospitalar é um anexo de uma Unidade de Ensino da 2ª CRE da SME/RJ (Escola Municipal Shakespeare), estando sob a orientação técnica do Instituto Helena Antipoff, órgão responsável pela Educação Especial e, portanto, está pautada no Currículo Multieducação concebido para toda a Rede Pública Municipal de Ensino, com as devidas adaptações curriculares impostas pela situação em que os alunos se encontram quando internados num hospital.

 

Atendimento Escolar do Hospital Infantil Albert Sabin – CE

 

A classe hospitalar do Hospital Infantil Albert Sabin é denominada PROJETO ABC + SAÚDE.

Conta com 6 professores. Atende a crianças na faixa etária entre 4 e 17 anos. As séries vão desde a alfabetização até o 2º ano do ensino médio.

Os alunos são atendidos em grupo ou individualmente no espaço físico da sala do ABC + SAÚDE e no leito do paciente quando impossibilitado de deixar a enfermaria.

 

 

Classe Hospitalar B-A-BA do Hospital Universitário de Campo Grande – MS

A modalidade de atendimento Classe Hospitalar prevista pela Deliberação 261/82 do Conselho Estadual de Educação/MS, foi implantada em 18 de abril de 1994, no Hospital Universitário de Campo Grande, através de parceria com a Secretaria Estadual de Educação, considerando-se o número significativo de crianças hospitalizadas por período prolongado. Este Hospital Escola com enfermaria pediátrica responsabiliza-se pelo espaço físico e material permanente. A secretaria de Educação responsabiliza-se pelos recursos humanos e materiais de consumo. A Classe Hospitalar BE-A-BA do HU está vinculada à Escola Estadual Amando de Oliveira, Av. Manoel da Costa Lima, 1435, Bairro Piratininga que é a escola referência da região. A Unidade de Apoio à Inclusão do Portador de Necessidades Especiais, é um órgão ligada à Secretaria Estadual de Educação/MS, onde os técnicos realizam a capacitação e acompanhamento aos 05 (cinco) professores (todos com curso superior completo) que atuam nesta classe hospitalar; nos períodos matutino (3 professores) e vespertino (2 professores). O atendimento pedagógico é desenvolvido no refeitório da pediatria, cedido para as aulas de 7 às 11h, e das 13 às 17h, de segunda a quinta-feira; também junto aos leitos nas enfermarias, oncologia e cirúrgica I e II, onde as crianças estão impossibilitadas de se locomoverem; na sexta-feira é realizado o planejamento semanal junto aos outros professores da escola de acordo com o calendário escolar. A metodologia é flexível devido a rotatividade e particularidade de cada atendimento, pois o mesmo visa dar continuidade ao ensino dos conteúdos da escola de origem, e conteúdos próprios à faixa etária e/ou série da criança hospitalizada; priorizando o Ensino Fundamental (7-15 anos) utilizando-se dos livros didáticos da criança de acordo com os Parâmetros Curriculares. A maioria da clientela é da Educação Infantil (0-6 anos), por isso procuramos envolver os acompanhantes nas atividades de recreação e no processo de confecção de jogos pedagógicos e alternativos o que se torna um meio de Terapia Ocupacional. O diagnóstico mais freqüente para internação é pneumonia seguida de problemas oncológicos e celulite. Quando da alta hospitalar a criança é encaminhada à escola de origem com os registros deste atendimento. Desde a implantação há 06 (seis) anos foram atendidas 4.500 crianças, sendo a média mensal de 60 crianças na faixa etária de 0 a 15 anos.

 

Classe Hospitalar do Instituto Nacional do Câncer – RJ

Praça Cruz Vermelha, 23 Centro – Rio de Janeiro

"...É importante para a criança doente perceber-se produtiva e em desenvolvimento, e a participação da criança com neoplasia em atividades escolares pode significar igualdade em relação às demais crianças da sua idade." (Gonçalves e Valle, 1998).

 

A Classe Hospitalar do Instituto Nacional do Câncer está implantada nas dependências do Hospital do Câncer, no Instituto Nacional do Câncer (INCA), através de convênio firmado no 1º bimestre do presente ano entre a Secretaria Municipal de Educação do RJ e o Instituto Nacional de Câncer (Ministério da Saúde). Seu trabalho é norteado pelas orientações da SME, através do Instituto Helena Antipoff (1ª Equipe), contando com uma coordenadora pedagógica e duas professoras; atendendo em média 40 crianças/mês na faixa etária de 4 a 14 anos, abrangendo desde Educação Infantil até a 4ª série da Educação Fundamental; funciona no horário das 13h às 17h30mim, de segunda à sexta-feira. A metodologia de trabalho consta de planejamento baseado nas articulações dos Princípios Educativos com os Núcleos Conceituais contidos no documento Multieducação, utilizando-se de projetos que se desenvolvem através de diferentes linguagens, contribuindo para a construção do conhecimento e do desenvolvimento das potencialidades de cada criança. As atividades escolares acontecem no Ambulatório de Quimioterapia (QT) no 11º andar e nas dependências da Enfermaria Pediátrica no 5º andar.

 

Programa de Apoio Pedagógico

do Hospital de Clínicas de Porto Alegre – RS

 

O Programa de Apoio Pedagógico é uma parceria entre a Escola Estadual de 2º Grau no HCPA/Escola Técnica em Saúde/SE-RS e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre /Serviço de Pediátria e Oncologia Pediátrica. Conta com 2 professoras que atendem uma média/mês de 16 crianças da oncologia pediátrica (0 a 18 anos) e 20 crianças internadas no serviço de pediatria (0 a 12 anos). A metodologia/intervenção do professor no hospital caracteriza-se por: dar aulas, na sala de aula e nos leitos; fornecer dados sobre o desenvolvimento cognitivo da criança e do adolescente à equipe interdisciplinar do Hospital; após o diagnóstico e tratamento determinados, encorajar o retorno do paciente a sua escola de origem e a retomada da sua vida social e cotidiana logo que clinicamente possível; manter contato com a Escola de origem do aluno, buscando dados que garantam a continuidade do processo escolar regular; interação com a Escola do paciente fornecendo esclarecimentos aos professores sobre a doença e seus cuidados, facilitando com isto a aceitação e reintegração do paciente da forma mais adequada e positiva às atividades escolares; e, manter-se em constante atualização e realizar pesquisa. O Programa de Apoio Pedagógico conta com uma sala de aula própria.

 

Classe Hospitalar Domingos A. Boldrini

Rua Dr. Gabriel Porto, 1270 - Barão Geraldo, Campinas/SP

 

O Centro Boldrini é especializado no tratamento e cura de crianças e adolescentes que sofrem de câncer ou de outras doenças sangüíneas. Conta com uma equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, serviço social, dentista, fisioterapeutas, psicólogas, pedagogas e brinquedista. Pacientes de todo o país procuram os serviços do Centro Boldrini. Em 1997 foi estabelecida uma parceria de trabalho com a Secretaria Municipal de Educação de Campinas. A partir desse ano os pedagogos que atuam na classe hospitalar são professores itinerantes da rede municipal, hoje o trabalho é realizado por 2 pedagogas especializadas em educação especial. O atendimento educacional é feito na classe (sala 197 no ambulatório convênio), nos leitos e domicílios aos alunos que fizeram transplante (TMO) e/ou que estejam impossibilitados de comparecer ao hospital. O serviço garante atendimento aos alunos da educação infantil e do ensino fundamental. Em média, são atendidos 120 alunos por mês na classe e 80 alunos nos leitos. Assim que o paciente ingressa no hospital, se tiver idade escolar, é orientado para procurar a professora da classe hospitalar. Os pais são entrevistados para verificação da situação escolar do aluno e orientação sobre o funcionamento do serviço. Os pacientes que chegam sem vínculo escolar recebem orientação para procurar a escola e efetuar matrícula. A partir daí, os professores da classe hospitalar estabelecem contato com a escola de origem do aluno buscando garantir a continuidade da escolaridade. A tarefa é dar prosseguimento na programação curricular e fornecer as informações e orientações necessárias aos profissionais da escola. Todo o trabalho pedagógico busca atender as necessidades escolares sempre levando em conta procedimentos adequados aos limites da situação de internação do aluno. Esta classe hospitalar realiza o trabalho de garantir a continuidade de escolaridade utilizando a Lei 1044 / 69 artigos 1o e 2o e, na Resolução no.41 de 13/10/95 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados.

 

Classe Hospitalar São Zacarias - RJ

Avenida Carlos Peixoto, 124 - Botafogo, (21) 275-1948

 

A Classe Hospitalar São Zacarias funciona neste hospital infantil da Santa Casa da Misericórdia. Durante o período de 1995 a 1999, inclusive, a equipe foi composta de uma coordenadora e mais três professoras regentes. O número médio de alunos atendidos é de 254/ano, na faixa etária de 5 meses à 15 anos. A seriação escolar diz respeito ao atendimento precoce, educação infantil e ensino fundamental (4 primeiras séries). De acordo com a metodologia adotada, a Classe Hospitalar São Zacarias realiza atendimento pedagógico em quatro enfermarias (no leito) e nos dois corredores adaptados para salas de aula (pequenos grupos). O atendimento pedagógico das turmas da Classe Hospitalar São Zacarias está baseado na proposta MULTIEDUCAÇÃO com as devidas adaptações curriculares. A Classe Hospitalar São Zacarias objetiva facilitar a adaptação da criança ao ambiente hospitalar, como também proporcionar uma educação capaz de promover o desenvolvimento e a aprendizagem assegurando a manutenção do vínculo escolar quando do retorno à escola de origem. O planejamento deve levar em conta a real necessidade do aluno, respeitando seus limites clínicos. É nosso objetivo que o acesso ao conhecimento aconteça como propulsor do desenvolvimento integral do aluno, assegurando a aquisição dos conteúdos escolares durante a hospitalização. Como espaço de contato social, preocupa-se em trabalhar conceitos que levem à construção de conhecimentos e valores numa visão crítica e transformadora, provocando uma mudança diante da vida. A Classe Hospitalar São Zacarias contribui para a formação de cidadãos transformadores.

 

Atendimento Pedagógico no Hospital Sarah de Belo Horizonte – MG

Avenida Amazonas, 5953 - Bairro Gameleira, Belo Horizonte

A Rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor é uma Rede de hospitais públicos que prestam serviços de ortopedia e de reabilitação. Atualmente é constituída por quatro unidades hospitalares localizadas em Brasília (DF), Salvador (BA), São Luís (MA) e Belo Horizonte (MG). O atendimento pedagógico na Unidade de Belo Horizonte é realizado pelo PATI (Programa de Atividades Integradas), composto por 2 pedagogas, 3 professores de educação física, 1 professora de artes e 1 professora nível médio (formação de 2º grau). Partimos do conceito de reabilitação como o desenvolvimento de uma pessoa até o mais completo potencial físico, psicológico, social, profissional, educacional, compatível com seu comprometimento fisiológico e limitações ambientais. Na reabilitação busca-se aumento da independência, redução das permanências hospitalares e melhora da qualidade de vida. Sendo assim, a função do educador no hospital é oportunizar diferentes situações significativas de aprendizagem que contribuam no processo de reabilitação e consequentemente no desenvolvimento dos pacientes. A especificidade de um paciente em reabilitação marca uma mudança na sua forma de estar no mundo e não na sua potencialidade humana. Essa diferença pode implicar numa singularidade na sua forma de comunicação e no seu processo de aprendizagem. Trabalhar afirmando o que os pacientes são capazes de realizar, ou seja, investir nas suas potencialidades, contribui para RESSIGNIFICAR essas diferenças. Clientela: crianças, adolescentes e adultos com alterações no aparelho locomotor. Faixa etária e série da clientela: de 0 anos a 16 anos e da creche ao 3º grau (cursos regulares e suplência). Espaço físico utilizado: dependências do Hospital (enfermaria, refeitório da enfermaria, centro de criatividade, quadra, biblioteca, auditório e piscina). PROGRAMAS: Programa de Reabilitação dos pacientes portadores de Lesão Medular Adulto, Programa do Lesado Cerebral Adulto e Ortopedia (enfermaria e atendimento externo para adultos). Ortopedia Infantil (enfermaria para crianças), Ginásio Infantil e Programa do Lesado Cerebral Infantil (atendimento externo para crianças). ATIVIDADES DESENVOLVIDAS POR CADA ÁREA: Pedagogia - acompanhamento psicopedagógico, encaminhamento escolar, comunicação alternativa, grupo de alfabetização, grupo de educação infantil, visita escolar, reeducação cognitiva, treino de escrita funcional, acompanhamento escolar. Educação Física - treino de cadeira de rodas, oficina de expressão corporal, jogos desportivos, atividade aquática, jogos cognitivos, recreação na enfermaria, condicionamento físico, grupo de relaxamento e manejo da dor, iniciação desportiva, atividade de relaxamento para acompanhantes, grupo de pais e pacientes. Artes - oficina de artes e oficina de brinquedos e jogos. Professor de nível médio - hora do conto, roda da leitura, filme e jogos e brincadeiras.

 

O Pedagogo no Hospital Universitário Antônio Pedro:

uma janela para o mundo

Rejane de Souza Fontes & Liliana Hochman Weller (UFF, Niterói – RJ)

 

O presente estudo teve por objetivo geral criar condições para implantação de uma Classe Hospitalar na sala de recreação da Enfermaria Pediátrica do Hospital Universitário Antônio Pedro – HUAP localizado em Niterói, criando mais um campo de pesquisa e prática pedagógica para os alunos da Faculdade de Educação da UFF. Como objetivos específicos o estudo procurou verificar a incidência de crianças portadoras de necessidades educativas especiais internadas no HUAP; levantar a demanda escolar dentre essas crianças e adolescentes; estabelecer contato com suas escolas de origem, a fim de garantir seqüência pedagógica durante a internação do educando; favorecer acompanhamento pedagógico do educando durante sua internação no HUAP, refletindo acerca do papel do pedagogo e de um novo conceito de educação a partir do atendimento pedagógico em âmbito hospitalar e estabelecer contatos com órgãos governamentais que se interessem em fazer parceria para implantação da Classe Hospitalar no HUAP. A metodologia utilizada foi a Pesquisa em Ação. Foram desenvolvidas, atividades pedagógicas com o objetivo de suprir a defasagem escolar provocada pelo período de internação. Amparadas na proposta de planejamento curricular da Secretaria Municipal de Educação de São Gonçalo, tais atividades buscavam identificar as dificuldades escolares das crianças e adolescentes internados no HUAP e a partir delas, trabalhar não somente suas defasagens cognitivas mas também, físicas, afetivas e sociais. Como o tempo de permanência das crianças no hospital era restrito, todas as atividades deveriam ter início, meio e fim, num curto período de tempo, aproveitando todas as oportunidades de produção de novos conhecimentos e revisão de antigos conceitos. Como o contato com a escola de origem da criança era precário, muitas informações que recebíamos de seu caminhar escolar, nos chegavam através de conversas com as crianças e seus acompanhantes. A filosofia com que se trabalhou foi a da Pedagogia da Inclusão, segundo a qual ninguém deve ser excluído da escolarização. Ao trabalharmos com o conteúdo do ensino regular, a única diferença era o método pedagógico que levava em consideração a condição clínica, a faixa etária e o tempo de permanência da criança no hospital. A partir da reflexão sobre a realidade da criança no hospital a prática pedagógica foi repensada à luz de teóricos psicopedagógicos e à sombra de autores construtivistas (Piaget e Freinet). O trabalho de acompanhamento pedagógico desenvolvido por uma única professora-pesquisadora (autora deste artigo) era dividido em três momentos: verificação junto ao prontuário dos dados pessoais e contato inicial com a criança e seu acompanhante; auxílio à criança na compreensão da sua doença e dos motivos da sua internação e promoção de atividades lúdicas que favorecessem o seu bem-estar juntamente com o desenvolvimento de atividades que dessem continuidade ao currículo escolar dentro das limitações do espaço hospitalar. Pretendíamos assim, facilitar o retorno da criança para a escola ao término de sua internação. Constatamos que o projeto obteve resultados satisfatórios no acompanhamento escolar das crianças e adolescentes internados, observados através de seus progressos na escrita e na leitura, de uma melhor socialização entre as crianças e da oportunidade de expressão mais livre de seus pensamentos e sentimentos em relação à hospitalização. Os dados foram levantados através de visitas de observação, interlocução e acompanhamento pedagógico na Enfermaria Pediátrica do HUAP. Com relação à incidência: constatou-se que cerca de 20% das 30 crianças e adolescentes internados mensalmente, eram portadores de necessidades educativas especiais (NEE). Todavia, deve-se considerar que esta clientela é variável e que devido ao processo de internação, as outras crianças e adolescentes também apresentavam NEE. Referente à faixa global de demanda de atendimento escolar constatou-se atrasos escolares devido à perda de conteúdos e afastamentos regulares da escola, motivados pelas freqüentes internações. No futuro, pretendemos desenvolver ações pedagógicas em convênio com instituições governamentais, enfatizando a implantação oficial da Classe Hospitalar no HUAP. Acreditamos que um atendimento pedagógico pautado nas potencialidades individuais da criança enferma respalda, com solidez, o projeto da "Classe Hospitalar" enquanto uma das várias alternativas simples e eficazes de não se romper o processo de escolarização em nosso país.

 

Classe Hospitalar Bonsucesso – RJ

 

A Classe Hospitalar do Hospital Geral de Bonsucesso, começou o atendimento em maio de 1999 através de um convênio firmado entre o Ministério da Saúde e a Secretaria Municipal de Educação, com o objetivo de atender crianças internadas neste Hospital nos setores de Pediatria. Esta Classe Hospitalar atende em média 10 alunos pôr mês, que são crianças na faixa etária entre 6 e 14 anos tendo inclusive alunos de outros Municípios do Estado do Rio de Janeiro. Nosso trabalho está diretamente ligado às necessidades das crianças, suas expectativas em relação à classe e a continuidade da rotina escolar. Sabendo da importância da Escola e seu desdobramento na vida, a criança internada tem, através da Classe Hospitalar, oportunidade de trabalhar e desenvolver conceitos, a criatividade e a auto-estima. A Classe Hospitalar do Hospital Geral de Bonsucesso trabalha com projetos concomitantes aos da Escola Municipal Rui Barbosa e isso se torna possível pois a professora participa dos Centros de Estudos e das Reuniões Pedagógicas da escola, e assim leva para o Hospital e principalmente para a Classe Hospitalar a possibilidade de uma prática pedagógica atuante e diversificada. Trabalhando prioritariamente com Projetos, vimos no Projeto "BRASIL 500 ANOS" que foi desenvolvido tanto na Escola Municipal Rui Barbosa como na Classe Hospitalar, um grande avanço e o trabalho culminou numa exposição no saguão do prédio central do hospital. Acreditamos que para manter esse entusiasmo que nos faz estar sempre procurando novas possibilidades e novos caminhos, devemos ressaltar o bom entrosamento entre o Hospital Geral de Bonsucesso, a Classe Hospitalar e a Escola Municipal Rui Barbosa.

 

Classe Hospitalar de Jacarepaguá – RJ

 

Esta Classe Hospitalar funciona há 25 anos, inicialmente com um convênio entre o Ministério da Saúde e a Secretaria Municipal de Educação. A partir de julho de 1999, com a municipalização do hospital, o convênio passou a ser feito entre as Secretarias Municipais de Saúde e Educação do Rio de Janeiro. Atualmente, funciona em duas salas próprias, na Pediatria, atendendo crianças de 0 a 14 anos, com patologias diversas, por se tratar de hospital geral. As professoras Viviane Novaes de Oliveira e Andréa Nascimento Mayrink atendem a uma média mensal de 20 crianças, entre Educação Infantil e Ensino Fundamental, até 4ª série. O atendimento pedagógico-educacional segue orientação e supervisão do Instituto Helena Antipoff, por se tratar de modalidade de ensino especial. As atividades desenvolvidas objetivam a continuidade do processo de construção do conhecimento e minimizam o "sofrimento" durante o processo de internação.

"O uso do raciocínio na aprendizagem reduz o sofrimento." Wallon

 

Apoio educacional do Hospital Universitário Pedro Ernesto – RJ

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) é o hospital-escola da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e trata de diversas especialidades médicas. Dentre elas, oncologia pediátrica. A enfermaria pediátrica conta com 18 leitos e 25% dos atendimentos, em média, destina-se às crianças com câncer. As crianças em tratamento têm idade entre 0 e 12 anos e contam com a companhia de um responsável ou familiar durante a internação. Em Abril de 1998, o atendimento escolar na enfermaria pediátrica do HUPE teve início, a pedido do próprio hospital. O trabalho é coordenado pelo PROALFA ( Programa de Alfabetização, Documentação e Informação) do Centro de Educação e Humanidades da UERJ. As atividades são desenvolvida, por duas bolsistas de extensão, alunas de graduação da Pedagogia da UERJ às segundas e quartas-feiras, no horário das 13 às 15 horas. O objetivo da proposta é dar continuidade, ou iniciar a rotina escolar das crianças estabelecendo um vínculo entre o hospital, a casa e a escola. Tais atividades visam acompanhar, complementar e enriquecer o currículo do ensino regular. No caso das crianças não alfabetizadas, são iniciadas no processo de aquisição da linguagem oral e escrita. No presente ano, uma média de 16 crianças têm sido atendidas por mês. O quantitativo de meninos excede ao de meninas e a média de idade é de 6 anos, que equivale a escolaridade da Educação Infantil ou ao 1o ciclo do Ensino Fundamental. As crianças atendem entre 2 e 5 aulas durante sua internação, o que caracteriza um período de hospitalização não muito curto para a realidade do HUPE.

Programa Psicopedagógico em crianças oncológicas

do Hospital de Base de São José do Rio Preto-SP

 

Quando a criança é internada ela é afastada de sua vida cotidiana e submetida a procedimentos invasivos, perdendo a confiança em si mesmo e apresentando comportamentos depressivos. A intervenção Psicopedagógica tem o objetivo de proporcionar o desenvolvimento cognitivo e manter o acompanhamento escolar. As crianças portadoras de câncer, na faixa etária entre 5 e 12 anos, de ambos os sexos, são atendidas por 2 pedagogos, individualmente ou em grupos, no leito e na sala de quimioterapia. São realizadas entrevistas, seguidas de intervenções utilizando materiais como jogos educativos, brinquedos pedagógicos, atividades escolares e recursos didáticos. Não há resultados comprovados estatisticamente, mas os pacientes têm mostrado interesse pelas atividades, facilitando a adesão ao tratamento oncológico e diminuindo os déficits cognitivos.

 

Classe Hospitalar Servidores do Estado – RJ

Rua Sacadura Cabral 178, Saúde – Rio de Janeiro

"Acreditamos ser, também nossa, a tarefa de afirmar a vida e sua melhor qualidade junto com essas crianças, ajudando-as a reagir, interagindo para que o mundo de fora continue dentro do hospital e as acolha com um projeto de saúde." (Ceccim et al., 1997)

 

 

A Classe Hospitalar que funciona no Hospital Geral dos Servidores do Estado iniciou atividades no 1o dia letivo do ano de 2000. Funciona de segunda à sexta-feira, no horário das 12h45min às 17h15min, numa sala no 3o andar (Pediatria), tendo uma freqüência média de 20 crianças/mês. Conta com uma professora que atende crianças na faixa etária entre 4 e 14 anos, abrangendo, portanto, educação infantil e o primeiro segmento do ensino fundamental. O trabalho pedagógico segue as diretrizes do Núcleo Curricular Básico (Multieducação) da Secretaria Municipal de Educação e os professores recebem orientações do Instituto Helena Antipoff (1a Equipe).

 

Programa LerUERJ – RJ

 

O LerUERJ é um Programa de extensão universitária que integra uma série de ações de promoção da leitura cujo principal objetivo é criar condições para a formação de uma sociedade leitora. Acreditando que a leitura é direito de todo cidadão, atua junto ao público de instituições conveniadas tais como escolas, bibliotecas, abrigos e hospitais, desenvolvendo atividades através de diferentes linguagens: contos, crônicas, poesias, imagens, vídeos, músicas, etc. Pensando no redimensionamento do espaço hospitalar, o Programa de Leitura foi convidado, em 1996, a integrar o trabalho desenvolvido pela equipe multidisciplinar do NESA (Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente), a princípio com sessões de contadores de histórias para os adolescentes internos na enfermaria. A partir de março de 1999 o projeto Contos e Encontros na Enfermaria assumiu um caráter mais intenso, devido a avaliação e solicitação feita pela Saúde Mental, que verificou a importância da atuação do programa na travessia hospitalar dos adolescentes. "... no seu sentido mais antigo as histórias são uma arte medicinal."(Estés). Atualmente são realizados dois encontros semanais, com duração média de 90 minutos cada, onde procura-se valorizar a auto-estima dos pacientes respeitando o acervo de conhecimento que cada integrante traz, de forma a estimular a participação de todos além de despertar o interesse pela leitura. As ações visam, ainda, a possibilitar o contato mais estreito entre diversas práticas leitoras existentes e os adolescentes, promovendo maior integração desses com o mundo a sua volta. Quando o jovem é acometido por uma doença crônica ou é portador de alguma deficiência, ele experimenta privações que agravam o quadro complexo que é a adolescência. Cannon & Bottini salientam que a saúde do indivíduo, nas várias fases de sua vida, depende do impacto positivo ou negativo de fases anteriores. Nesse sentido, o cuidado com o adolescente adoentado deve ser redobrado. A experiência do NESA evidencia uma troca salutar: os jovens internados exercitam sua cidadania, redescobrindo o sabor da identidade e afirmando a ligação com a vida, e os bolsistas de extensão (agentes de leitura) têm a chance de se tornarem profissionais mais sensíveis e comprometidos com a sociedade.

 

Brinquedoteca Terapêutica Senninha

do Instituto de Oncologia Pediátrica - GRAACC/UNIFESP – SP

 

A Brinquedoteca Terapêutica Senninha é o espaço, dentro do Instituto de Oncologia Pediátrica (IOP), no qual pacientes e acompanhantes aguardam consultas e procedimentos. O Projeto Brinquedoteca no IOP nasceu de uma parceria entre o Instituto Ayrton Senna e o GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). É uma sala de espera diferenciada contando com uma equipe profissional especializada, constituída por uma Coordenadora, uma Brinquedista, uma Psicóloga e uma Psicopedagoga, cujo objetivo é atender os pacientes e seus acompanhantes através de atividades variadas, dentro e fora do seu espaço físico. Sendo assim, além dos brinquedos que se encontram disponíveis, são realizadas inúmeras atividades conduzidas pelos profissionais da própria Brinquedoteca e por profissionais ligados a atividades artísticas que desenvolvem seus trabalhos nesse espaço em caráter voluntário. Entre os serviços oferecidos pelos profissionais da Brinquedoteca, estão oficinas psicopedagógicas, orientação psicológica dos pais, brincadeiras orientadas e atividades lúdicas desenvolvidas na internação. Além disso, através da Psicologia, a Brinquedoteca está envolvida em projetos multidisciplinares importantes para a melhoria da qualidade de vida de nossos pacientes envolvendo a preparação para procedimentos, com a utilização de um boneco terapêutico, e o Projeto de Profissionalização, voltado para nosso público adolescente. Além disso, outras atividades são desenvolvidas pela Brinquedoteca, entre as quais o empréstimo de livros , fitas de vídeo e festas de comemoração de datas significativas. A Brinquedoteca mantém, nos andares de internação, três carrinhos fixos com brinquedos, organizados e limpos diariamente pela sua equipe de voluntários. No andar em que acontecem as quimioterapias, no qual as crianças permanecem imobilizadas por um longo tempo, existe a Brinquedoteca Circulante.

 

Atendimento Escolar dos Hospitais Infantis

Joana de Gusmão (Secretaria de Estado da Saúde) e

Seara do Bem (Associação Beneficiente Seara do Bem) – SC

 

Os profissionais em exercícios estão assim distribuídos: 2 professores, 5 estagiários e 7 profissionais de equipe técnica. No Hospital Infantil Joana de Gusmão (Florianópolis) são atendidas crianças da pré-escola (4 a 6 anos) e ensino fundamental (1ª a 4ª séries). No Hospital Infantil Seara do Bem (Lages) são atendidas crianças da pré-escola (4 a 6 anos) e ensino fundamental (1ª a 8ª série). A metodologia utilizada tem como base a Teoria Histórico-Cultural. Prioriza-se a possibilidade do avanço no processo de apropriação do conhecimento do educando, referente à série em que o mesmo encontra-se matriculado. Viabilizam-se alternativas pedagógicas voltadas para o entendimento de diversidade, efetivando-se no cotidiano da classe hospitalar: trocas, interações, mediações, aprendizagens e conhecimentos e tendo como eixos os conceitos fundamentais da Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Ciências, Educação Física e Artes. Em relação à Educação Infantil constitui-se em eixos organizadores do trabalho com as crianças: as múltiplas linguagens, a brincadeira, as interações e a organização espaço-temporal. As classes dispõem de espaço físico próprio (sala de aula) estruturado para o trabalho com as crianças/adolescentes e que também se realiza nos leitos quando não puderem se deslocar.

 

Casa de Apoio Hope – SP

Escolarização inclusiva para menores carentes portadores de câncer

 

No final do ano letivo de 1998, professores e alunos das Faculdades Oswaldo Cruz, discutindo estágios supervisionados, chegaram a conclusão de que os mesmos eram obsoletos e não davam aos alunos a devida medida de uma Pedagogia Humanista, voltada para uma atuação responsável de assunção de uma postura ética para a ação neste milênio. Por outro lado, nós professores de Prática e Metodologia do Ensino Fundamental, buscávamos na ocasião, por motivos de ordem pessoal, desenvolvermos um trabalho voluntário com crianças hospitalizadas. Assim, da junção dessas duas vertentes surgiu uma pesquisa de campo que nos levou a tomarmos conhecimento de que havia em São Paulo casas de apoio ao menor carente com câncer. Essas entidades são ONGs, que atendem crianças e adolescentes carentes portadores de câncer que, em virtude de não encontrarem tratamento em suas cidades e estados de origem, necessitam permanecer em São Paulo para os longos tratamentos quimioterápicos, radioterápicos e/ou outros. Durante a pesquisa constatamos que estas crianças e adolescentes permaneciam nessas casas, acompanhados de um familiar adulto, recebendo toda assistência médica, odontológica, psicológica, social e financeira de que necessitam (extensiva aos acompanhantes), por períodos de 6 meses a 2 anos em média sem atendimento escolar, o que lhes causava atraso considerável em sua escolarização além de limitá-los a um cotidiano centrado na doença e nas dificuldades decorrentes de sua inserção em um "nicho ecológico" bastante diferenciado de seus locais de origem. A experiência tem mostrado aspectos altamente positivos da inserção dessas crianças e adolescentes no cotidiano da sala de aula. Percebemos e nos têm sido relatado pelos responsáveis pela casa, uma maior sociabilidade e uma diminuição da agressividade entre os hóspedes com influência até nos adultos. Percebemos também um crescente interesse pelas atividades escolares que se mostra muitas vezes no esforço que fazem para não perderem as aulas (alguns vão mesmo após seções de quimioterapia). Outro dado que nos parece bastante promissor é que as crianças que retornam para suas casas, por períodos de recesso, quando voltam à casa de apoio para exames de rotina ou para alguma série de tratamento já vêm munidas do material de estudo de suas escolas de origem. A intenção da inserção da sala de aula nas casas de apoio é atravessar o cotidiano dessas crianças com algo que as motive para a luta, dar esperanças de uma continuidade escolar futura, oportunizar aos estudantes de Pedagogia uma prática humana e diferenciada ao mesmo tempo em que desenvolvemos um projeto saído e elaborado em nossos corações.

 

SOBRAPAR –SP

 

A SOBRAPAR está localizada na Unicamp. É um Instituto sem fins lucrativos que atende à pessoas de nível sócio-econômico baixo de todo o Brasil, portadores de deformidades craniofacial congênita ou adquirida. O Instituto é composto pelos setores de Serviço Social, Cirurgia Plástica, Ortodontia, Fonoaudiologia, Classe Hospitalar e Psicologia. Criada em 1979, foi em 1982 que o setor de Psicologia da SOBRAPAR percebeu as dificuldades que as crianças portadoras de deformidade craniofacial encontram ao freqüentar uma escola regular (estigma é o maior deles). Assim. foi criada a Classe Hospitalar em uma das salas do Instituto. O trabalho é desenvolvido por uma professora cedida pela Prefeitura e com formação em Educação Especial e 3 estagiárias para o acompanhamento de crianças com distúrbios de aprendizagem e em período de alfabetização. Os alunos estão na faixa etária entre 5 e 15 anos. O nível de escolaridade dessa crianças e adolescentes varia muito. Alguns já são alfabetizados mas apresentam distúrbios em alguma área da aprendizagem. Outros nunca freqüentaram escola ou desistiram dela. O diagnóstico dessa população varia entre deformidades congênitas (Síndrome de Apert, Síndrome de Crouzon, Cranioestenose, tentativa de aborto, tentativa de suicídio pela mãe, Síndrome de Trachen Collins, Neurofibromatose, Microtia, Fissura Labial e palatina, Hemangioma) e deformidades adquiridas (queimaduras, acidentes automobilísticos, quedas, coices de cavalo, tiro, etc.). A Classe Hospitalar funciona na segunda-feira o dia toda e às terças e quartas-feiras pela manhã (dias em que existe maior movimento dessa população no Instituto). O atendimento da classe acaba por não ter uma população fixa já que existem alunos oriundos de diversas partes do Brasil e sua permanência em Campinas, depende da deformidade e do tratamento.

 

Núcleo de Apoio a Criança com Câncer – PE

 

O NACC foi fundado em outubro de 1985 por um grupo de pessoas sensibilizadas com o problema do câncer infantil. O NACC tem como objetivos: dar suporte aos Serviços de Oncologia Pediátrica da Cidade do Recife a fim de que todas as crianças portadoras de câncer tenham assegurado o seu tratamento; e, proporcionar aos pacientes e seus familiares as condições necessárias para que possam resolver todas as dificuldades inerentes ao tratamento. O NACC mantém um albergue em sua sede, situada à rua Bráulio Gonçalves, 72 - Bairro Madalena em Recife, Pernambuco, onde recebe crianças carentes provenientes do interior do Estado e de Estados vizinhos, e que estejam em tratamento nos Serviços de Oncologia Pediátrica credenciados à rede hospitalar do Estado de Pernambuco. Disponibilizamos: hospedagem ao paciente com direito a um acompanhante; transporte para levar o paciente ao seu hospital de origem; alimentação; auxílio-transporte para as crianças que residem no interior e não são beneficiadas com tratamento fora de domicilio; vale-transporte para as crianças que residem na periferia, a fim de que possam, nos dias certo, ir ao seu hospital para exames e tratamentos; cesta básica para as crianças mais carentes, após triagem feita pelas Assistentes Sociais dos hospitais credenciados pelo NACC e aprovação pela Assistente Social da própria instituição; leite e suplemento alimentar para as crianças desnutridas, quando solicitado pelo médico responsável; atendimento e acompanhamento psicossocial; atendimento de fisioterapia e terapia ocupacional; programa de reabilitação para pacientes amputados; programas educativos; programas profissionalizantes para pacientes adolescentes, pais e acompanhantes; elaboração de material educativo e informativo a respeito da doença e do tratamento para ser distribuído com os pais; implantação de unidades nas cidades do interior (projeto a ser desenvolvido com médicos para diagnóstico precoce). O paciente só poderá ser cadastrado no NACC, se for encaminhada por um serviço de Oncologia Pediátrica do Estado. Deverá chegar ao NACC com todos os formulários devidamente preenchidos pelo médico responsável. Antes do encaminhamento deverá ser feita uma consulta ao Serviço Social do NACC para confirmação da existência da vaga. O NACC não é uma entidade médica, portanto não trata dos pacientes. O tratamento é de responsabilidade do Serviço Médico aonde a criança é matriculada e atendida. O NACC oferece todo o tratamento de suporte. A manutenção do NACC é feita através de: contribuição mensal dos sócios; doações da comunidade, em dinheiro, objetos, gêneros alimentícios; etc.; campanhas e promoções; parcerias firmadas com empresas; e, com elaboração de projetos de trabalho.

 

PROJETOS ESPECIAIS

 

Redhes – RJ

Valéria Marques e Isabel Cristina Nascimento

 

O REDHES – Núcleo de Desenvolvimento Humano é uma associação civil, sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro, fundado em 06 de Junho de 1998, comprometido com a difusão e promoção dos direitos humanos da pessoa portadora de deficiência mental, buscando a melhoria da qualidade de vida, a auto-representação e a conquista da cidadania. Partimos do pressuposto que todos os homens são seres livres e têm direito a fazer opções de vida. No quadro atual, a pessoa portadora de deficiência mental necessita que seja garantido uma condição digna de sobrevivência e situações reais de exercício de escolhas.

O nome REDHES traz a marca da evolução da humanidade e destaca a questão dos Direitos Humanos. A marca de uma construção coletiva e ao mesmo tempo, individual. A rede simboliza este laço, que simultaneamente ao se tecer as suas próprias histórias traz consigo o ato que marca a espécie. Na atualidade vivemos o paradigma de valorizar a identidade pessoal sem perder o caráter holístico do universo. Na comunicação e na ação exercitar as parcerias e networks que possibilitem a realização destes ideais. Objetiva-se ampliar a discussão sobre Direitos Humanos e direitos da Pessoa portadora de deficiência mental, tendo com perspectiva a efetivação da inclusão em todos os seus aspectos: social, escolar, laborativa e de lazer.

Parceria é uma palavra-chave, privilegiando as ações desenvolvidas junto com outras organizações não-governamentais, organizações governamentais, instituições de ensino e pesquisa, associação de moradores, e principalmente as próprias pessoas portadoras de deficiência mental e seus familiares.

Em 1995, o REDHES, antes denominado Núcleo de Psicologia e Cultura, iniciou os seus projetos sociais, com destaque para o Projeto Fatos e Idéias que tinha como objetivo discutir temas polêmicos contemporâneos favorecendo gratuitamente o acesso a informação, a troca de experiência e o exercício da reflexão.

Devido ao sucesso alcançado, foi decidido não apenas dar prosseguimento à ele, mas sim, ampliar o seu espectro de ação, dirigido mais especificamente às pessoas com deficiência mental. Foi fundado então o REDHES. Sua meta é a discussão/ reflexão e o exercício dos Direitos Humanos e direitos da Pessoa portadora de deficiência mental, tendo com perspectiva a efetivação da inclusão em todos os seus aspectos : social, escolar, laborativa e de lazer.

Segundo a Organização Mundial de Saúde(OMS), 10% da população possui alguma deficiência, e grande parte é portadora de deficiência mental. Este número cresce assustadoramente quando se reúnem os "deficientes mentais circunstanciais", que são aquelas pessoas onde não se encontram questões orgânicas para explicar o seu insucesso escolar. As políticas de integração laborativa das pessoas com necessidades educativas especiais estão previstas tanto em âmbito internacional (Convênio no. 159 da Organização Internacional do Trabalho - OIT na América Latina) quanto no âmbito nacional nas três instâncias: Federal, Estadual e Municipal. Na reunião Técnica realizada na Colômbia em 1992, foram sugeridas algumas diretrizes que buscamos atender em nossos projeto. Alguns destes pontos são: o acesso à formação e à capacitação para o trabalho; o apoio necessário para a inserção ao mercado de trabalho; a inclusão dos planos de habilitação profissional de pessoas com necessidades educativas especiais nos planos gerais de capacitação, ainda que sejam necessários, planos e programas complementares; a sensibilização e conscientização a todos os setores da comunidade sobre o tema e a responsabilidade que compete à todos; a proposição de cursos profissionalizantes em convergência com a realidade local e o interesse da comunidade; O Brasil, signatário do Convênio n0.159 da OIT, faz valer estas diretrizes desde sua Constituição Nacional até em sua Política Nacional de Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. É necessário que se otimize a congregação de esforços retratados na união de ações governamentais, entidades privadas e entidades não-governamentais.

A missão do REDHES - Núcleo de Desenvolvimento Humano consiste, então, na difusão e promoção dos Direitos Humanos das Pessoas Portadoras de deficiência mental, em sintonia com o seu contexto sócio-histórico. Essa missão geral desdobra-se em missões específicas, cada qual com sua autonomia, peculiaridades e programações próprias. A Associação tem uma base de ação composta de três pilares: ação social, ação auto-representativa e ação formativa e informativa.

Ação Auto-representativa: abrange as ações desenvolvidas no intuito de desenvolver e aprimorar a capacidade auto-representativa da pessoa portadora de deficiência mental, tais como: grupos de encontro, cursos de auto-gerenciamento, curso de preparação para o trabalho, apoio à projetos propostos por pessoas portadoras de deficiência mental e exercício de liderança. O grupo se organiza e se auto-representa podendo ampliar a reflexão sobre questões inerentes a seus grupos de origem e de seus parceiros, possibilitando novos enquadres sociais. A pessoa com deficiência mental tem condição de participar segundo as suas próprias características e dar direções sobre o seu desejo e a sua demanda. É necessário que a própria pessoa reconheça suas necessidades, exponha e lute por elas. Esta é a direção mais eficaz e efetiva para uma transformação social.

Ação Formativa e Informativa: compreende os cursos, os centros de estudo e pesquisa, assessorias/consultorias e seminários sobre o potencial humano segundo as contribuições da leitura psicológica, psicopedagógica e psicanalítica. Objetiva-se abrir espaços para a atualização e especialização de leigos e profissionais interessados nas questões dos Direitos Humanos e das Pessoas portadoras de deficiência mental, ligados à área de saúde e educação.

Ação Social: focaliza as pessoas portadoras de deficiência mental no movimento da inclusão social. Baseia-se na Declaração dos Direitos Humanos, Direito da Pessoas portadoras de deficiência, no Estatuto da Criança e do Adolescente e nos conceitos de autogestão. Objetiva-se incentivar e apoiar as organizações populares e promover a formação de elementos multiplicadores nos entrelaçamentos da teoria e da prática para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e democrática. Sua ação voltada para os projetos sociais caracteriza-se pelo pressuposto que o saber acadêmico pode contribuir sobremaneira para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Busca-se, então, retirar a capa elitista dos conhecimentos científicos da psicologia e devolver não só este saber como os de outras áreas para a comunidade como um todo através de momentos de atualização, informação, reflexão e debate. Sua população alvo é composta de pessoas excluídas ou em condição marginal, profissionais e demais interessados nesta questão.

Podemos destacar as seguintes ações em cada área:

Ação social: Projeto Fatos e Idéias com representantes de diversos segmentos sociais, participantes ou não de outras instituições governamentais ou não governamentais. Este projeto visa valorizar a mudança através da divulgação e troca de experiências e resgatar os valores de convivência social, solidariedade e cooperação. Não é preciso ser igual para se viver em harmonia, é na diferença que se cresce; Programa Gente como Agente, patrocinado pela Comunidade Solidária, que engloba diversos projetos profissionalizantes sempre com a proposta inclusiva, agrupando jovens portadores de deficiência mental com outros sem este comprometimento. O Programa Gente como Agente reúne três cursos de capacitação profissional, desenvolvidos nos anos de 1998 e 1999, são eles: "Animadores de Eventos Culturais", "Delícias do Dia-a-dia", "Pensar e Criar é só começar" e "Informática". A faixa etária compreende-se a partir de 14 anos, adolescentes e jovens que preferencialmente estejam estudando e que não tenham completado o 1o grau . Cada curso tinha uma carga horária de 720 h, divididas em seis meses, com aulas de Segunda à Sábado. No primeiro ano em parceria com a Biblioteca Pública no Méier e no segundo ano em parceria com o Centro Comunitário do Centro Psiquiátrico Pedro II.

Ação Auto-representativa: Lançamento do livro de Duca Mendes: Vivendo e Aprendendo no Centro Cultural da Gama Filho. Relata a visão de mundo de um jovem portador de deficiência mental, seus sonhos e realizações; Edição do livro de Gersira Espírito Santo: Nós Mães Mulheres Especiais, com o apoio do Ministério da Cultura. Relata uma visão de uma mãe de um jovem portador de deficiência mental e seu re-encontro com o prazer de ser mulher. Publicação interna "Estudo para orientação sobre Interdição", Valéria Marques, lançado em conjunto com a Petrobrás, out./98. Livro explica o que é a interdição jurídica, seus benefícios e sua população alvo. Organizado sob a forma de perguntas e respostas diretas para melhor compreensão das pessoas leigas.

Ação Formativa/Informativa: Participação em diversos programas de rádio e T.V. discutindo sobre a questões da inclusão da pessoa portadora de deficiência mental; Realização juntamente com a Petrobrás da Jornada Interna do Programa de Assistência Especial- PAE, com os temas Interdição e Benefícios Previdenciários ao portador de Deficiência Mental. Estes temas foram escolhidos em plenária por pais, profissionais e as próprias pessoas portadoras de deficiência mental. Participação em Seminários, Congressos e Encontros sobre a inclusão da pessoa portadora de deficiência.

A partir dessas ações acreditamos estar colaborando para a manutenção de um fórum permanente de discussão e ação onde metas como a defesa dos direitos da pessoa portadora de deficiência mental, estejam sempre presentes.

 

Lúmini Companhia de Dança

Tomar conhecimento da existência de profissionais que dedicam sua arte de ensinar à crianças hospitalizadas, é, para qualquer pessoa, motivo de alegria. Participar de um evento que visa unir esforços pelos direitos e necessidades educacionais dessas crianças, foi, para nós da Lúmini Cia de Dança, motivo de orgulho.

Estarmos presentes no 1º Encontro Nacional sobre Atendimento Escolar Hospitalar foi especialmente importante pela seriedade e pela relevância social dos objetivos ali representados. É gratificante podermos contribuir de alguma forma com um trabalho que, além de se preocupar em levar a educação para além das fronteiras da escola, constitui um verdadeiro exemplo de cidadania.

Nossa motivação em participar do Encontro foi ainda maior pelo fato da Lúmini também estar atenta aos problemas sociais e educacionais do país. Certa do papel desempenhado pela arte na formação sócio-cultural de um povo, a Companhia não se propõe a ser somente um grupo de dança, mas espera poder unir educação e ação social à sua produção artística. Formada por profissionais da área de Educação, a Lúmini Cia de Dança realiza projetos que visam, além de promover um desenvolvimento artístico-corporal, gerar a compreensão da cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres, ressaltando a importância da solidariedade, da cooperação e do respeito mútuo.

É justamente por entendermos a educação e a cidadania como valores fundamentais para o desenvolvimento humano, que aplaudimos a iniciativa do trabalho realizado pela Pedagogia Hospitalar e agradecemos verdadeiramente a oportunidade de contribuirmos para um Encontro de tamanha relevância. Desde já nos colocamos a disposição para participar de quaisquer outros eventos futuros.

 

Design na Hospitalização

Eduardo Pucu de Araújo, Mateo Velasco e Rodrigo Borges

PUC – Rio de Janeiro

 

 

 

 

 

Contexto:

O grupo social atingido pelo projeto são todas as pessoas incapacitadas se locomover, sendo obrigadas a ficar grande períodos de tempo na cama de um hospital. O nosso objetivo é proporcionar à estas pessoas uma forma de passar este tempo produzindo.

O projeto visa proporcionar às pessoas que estão incapacitadas de se locomover um suporte para atividades que não exijam esforço, como desenho, leitura, eescultura, etc. Além disso, o projeto desenvolve facilidades para a alimentação e suporte para objetos.

 

Situação específica:

O Hospital Municipal Jesus se encaixa perfeitamente nas pretensões do projeto. Além de trabalhar com crianças nas condições descritas acima, o hospital oferece escola para estas crianças, onde o projeto seria de fundamental importância.

 

Situação genérica:

Além do Hospital Municipal Jesus, participam do projeto o Instituto Nacional do Cancêr (INCA) e o Hospital Municipal Miguel Couto (HMMC). Estes outros hospitais participam do projeto na parte genérica, ou seja, nas adaptações da prancheta para atender todas as situações, pois as condições de cada hospital são difetrentes.

 

O projeto:

O projeto parte do conhecimento das condições do lugar, levando-se em conta todas as pessoas envolvidas na área de atuação do projeto. Após esta etapa, há um levantamento de dados, pré-requisitos e pré-especificações, para se determinar o quais as características e qualidades do projeto.

Após estas etapas, há o desenvolvimento do produto, onde vários protótipos serão testados até que se faça um definitivo. Após a definição do produto, serão feitas adaptações para atingir à outros grupos sociais.

 

O produto:

O produto que queremos desenvolver é uam prancheta que sirva para desenhar e escrever, como bandeja de comida e como mesa para apoio de materiais (cirúrgicos ou não).

A prancheta de desenho será desenvolvida para o paciente ter uma atividade enquanto não está sob os cuidados médicos, ou seja, o paciente que não pode se locomover terá uma atividade durante seu tempo vago.

Além disso, a prancheta servirá para apoiar a comida sobre ela, facilitando as refeições dos pacientes. Esta função foi incorporada após uma visita ao Hospital Municipal Miguel Couto, onde os pacientes faziam as refeições em recipientes apoiados no colo, posição extremamente incômoda para os pacientes com problemas de locomoção.

A prancheta também se propõe a servir como apoio para materiais durante pequenos curativos, como suturas, trocas de curativos, etc. Esta função foi pensada junto à Cirurgiã-Dentista, Mariana Nunes de Mello, que ao realizar pequenos curativos, no Hospital Municipal Lourenço Jorge, apoiava os materiais na própria cama dos pacientes, por não haver lugar próprio para este tipo de atividade.

O projeto também visa ser de fácil instalação, sendo preso junto às camas e guardados ao lado das mesmas.

 

Participações dos grupos sociais:

Os grupos sociais envolvidos (HMJe, HMMC, INCA) deverão, para o perfeito desenvolvimento do projeto, fornecer informações sobre a rotina dos pacientes e funcionários (quais as principais necessidades dos doentes, o que facilitaria a função dos empregados, etc.), além de informações técnicas sobre os estabelecimentos (medida da altura das camas, espessura das barras laterais, comprimento das camas, etc.). Estes dados seriam coletados em visitas esporádicas ao estabelecimento, por parte dos estudantes.

Além destes dados, contamos também com a oportunidade de fazer fotografias dos leitos do hospital, porém sem registrar a imagem de nada que possa ser considerado antiético ou difamador. As fotografias seriam para facilitar o desenvolvimento do projeto, tornando-o mais próximo do real.

Contamos também com a sincera opinião sobre o andamento do projeto com críticas sobre a forma dos protótipos.

 

 

 

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____ . Meu amigo Down. Rio de Janeiro: WVA. 1994.

 

COLABORADORES

Acf Squema–RJ

Associação Brasileira de Educação Infantil–ASBREI

Autores e Agentes Associados S.A-RJ

Besouro Automóveis e Caminhões-RJ

Biblioteca da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo-SP

Biomed Assistência Médica-RJ

Diniz CDs-RJ

Escola de Saúde Pública do Estado do Rio Grande do Sul-RS

Fundação Roberto Marinho-RJ

Grow Jogos e Brinquedos S.A-SP

Lorentzen Empreendimentos S.A-RJ

Lúmini Companhia de Dança-RJ

Made in Casa Jogos e Brinquedos Pedagógicos-RJ

Memnon Edições Científicas – SP

Ministério da Educação-DF

(Secretaria de Educação Especial e Revista Integração)

 

Ministério da Saúde-DF

(Coord. Saúde da Mulher e Criança da Secretaria de Políticas da Saúde)

 

Programa O DIA na Sala de Aula-RJ

Revista Educação-SP

Secretaria Municipal de Educação-RJ

(Classe Hospitalar Jesus e Instituto Helena Antipoff)

 

Secretaria Municipal de Saúde-RJ

(Programa de Saúde Escolar)

 

Universidade do Estado do Rio de Janeiro-RJ

(Centro de Educação e Humanidades, CEPUERJ, Centro de Tecnologia Educacional, Departamento Financeiro, DISAU, Escritório Modelo de Relações Públicas da Faculdade de Comunicação Social, Gráfica, Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ, Laboratório de Editoração Eletrônica da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, Prefeitura do Campus, Programa de Alfabetização, Documentação e Informação-PROALFA, Sub-Reitoria de Extensão e Cultura-SR3)

 

Total Travel Tour Viagens e Turismo Ltda-RJ

WVA Editora S.A-RJ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agencia de Viagens Oficial

Total Travel Tour Viagens e Turismo Ltda.

Telefones: (21) 2234-1748 e 2254-0546 (telefax)

E-mail: totaltravel@openlink.com.br